O Brasil ficou independente. Sua gramática, nem tanto

O Brasil ficou independente. Sua gramática, nem tanto
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Category: Politics
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Em 1822, o Brasil se emancipou de Portugal. Linguisticamente, porém, a história foi outra: a gramática nacional nunca teve seu grito do Ipiranga. Em seu artigo 'Instinto de nacionalidade' (1873), Machadão mandou a letra ao afirmar que a 'outra independência', a literária, não teria Sete de Setembro nem se faria num único dia. As Constituições brasileiras do século XIX escancaram bem essa história. A de 1824 era próclise na veia: 'os negocios se resolverão'; 'a sua Eleição se fará'; 'a sua reunião se fará'; 'se guardará o original'; 'se expedirá Lei'. Eis a ironia: essa colocação, que hoje nos soa tão brasileira, também fazia parte da antiga tradição culta portuguesa... Já a Constituição republicana, de 1891, muda de rumo: 'constitui-se'; 'O Congresso Nacional compõe-se'; 'O Senado compõe-se'; 'O direito de propriedade mantém-se', alinhando a escrita ao padrão português então em consolidação, muito mais enclítico. Em outro aspecto, a constituição imperial usa 'aonde' em quase todos os contextos em que a norma-padrão em vigor só admite 'onde'. No final daquele século, a República rompeu com a Monarquia, mas, na escrita, se reaproximou do padrão português então vigente. Como bem observou o linguista Emílio Pagotto em seu artigo 'Norma e condescendência; ciência e pureza' (1998), no Brasil 'a língua falada seguia um rumo e a língua escrita caminhava na direção diametralmente oposta'. José de Alencar, um dos grandes mártires da independência linguística, sentiu as consequências disso na pele. Foi duramente criticado por sua expressão linguística, seu vocabulário e, principalmente, sua sintaxe, que, segundo o gramático Celso Cunha, 'parecia desobedecer aosintangíveiscânones portugueses'. Mas ele, coitado, nem sequer queria inventar outra língua do zero: só estava defendendo mais liberdade pra escrever conforme aquilo que chamava de 'nosso dialeto', que naquele momento vinha ganhando feição cada vez mais nacional. Mais moderado que Alencar, Machadão, linguisticamente um 'conservador flexível', também foi alvo de patrulhamento gramatical em seu tempo e reconhecia naquele seu já citado artigo de 1873: 'As línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeitoa influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade'. E assim foi se prolongando a guerra de independência linguística, com o português europeu contando com o apoio de todo um exército de brasileiros vendidos e submissos, que na prática acabavam sendo mais puristas e 'corretos' do que os próprios portugueses. Entre 1902 e 1905, durante a famosa revisão do Código Civil – evento que se tornou uma das maiores expressões do purismo brasileiro –, o pró-lusitano Ruy Barbosa e seu mestre Carneiro Ribeiro travaram uma batalha filológica que terminou, conforme relata o crítico literário Wilson Martins em sua obra-primaHistória da Inteligência Brasileira, 'contraditoriamente em favor da supremacia lusitana, não só aceita, mas também celebrada e exaltada'. Décadas depois, Manuel Bandeira parece ter resumido num poema o saldo desse episódio: O que fazemosÉ macaquearA sintaxe lusíada Mas a língua brasileira nunca se deu por vencida: formas genuinamente nacionais como 'encontrei ele', 'tem muita gente', 'vou na feira' e 'me empresta' continuam circulando firmes e fortes, em diferentes graus, fora ou à margem do padrão mais tradicional, historicamente moldado também por usos portugueses. Por mais contraditório que isso possa parecer, temos, sim, autonomia linguística; normativa, nem tanto. O Estado ajudou a institucionalizar uma língua nacional, mas não apagou a diversidade dos usos nem rompeu totalmente com a autoridade simbólica de Portugal sobre o que se considera 'bom português'. Nossa independência política completou 204 anos. Falamos brasileiro há muito tempo; muitas de nossas gramáticas, porém, parecem ainda não ter entendido isso.

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