Triste Brasil, oh quão dessemelhante!

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Category: Politics
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Maria José Rocha Lima Imagem ilustrativa gerada por IA 'Triste Bahia, oh quão dessemelhante!' Gregório de Matos — poeta seiscentista baiano Triste Brasil, oh quão dessemelhante! Dessemelhante daquele Brasil que imaginávamos na juventude. Dessemelhante dos nossos sonhos. Dessemelhante da esperança que nos fez enfrentar tantas batalhas. Dessemelhante daquele Brasil pelo qual tantos lutaram ontem — e pelo qual eu também comecei a lutar muito cedo. Aos doze anos, no Grêmio Estudantil do Colégio João Florêncio Gomes, em Salvador, participei da Passeata contra a Lei Orgânica do Ensino e em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade. Era esse o Brasil que sonhávamos construir. Um país com educação pública de excelência, professores valorizados, bem remunerados e qualificados. Por esses ideais organizei greves e mais greves, o que me custou uma demissão, em 1982. Enfrentei ameaças, intimidações e apreensões em delegacias da Bahia. Depois, como deputada estadual por dois mandatos, lutei de forma combativa na Assembleia Legislativa da Bahia contra todas as formas de corrupção. Essa atuação me valeu a cassação da imunidade parlamentar — grife-se: fui a primeira parlamentar a ter a imunidade cassada após a redemocratização do país. Para recuperá-la, contei com o apoio de grande número de Assembleias Legislativas do Brasil, de grandes advogados, como Pedro Milton, Luiz Eduardo Greenhalgh e Aton Fon Filho, e de personalidades da vida política brasileira, como Miguel Arraes, Waldir Pires e Humberto Lucena, entre tantos outros que a memória, depois de tantos anos, já não consegue enumerar. Recuperei a imunidade e continuei a luta no Parlamento até o fim do segundo mandato, sustentando um lema que traduzia — e ainda traduz — a minha maneira de estar na vida pública: Eu não me rendo e não me vendo. Confesso que achei o ambiente político brasileiro selvagem, hostil e pantanoso. Não quis fazer concessões que contrariassem minhas convicções e, por isso, deixei o Parlamento e parti para outros campos de luta: os estudos acadêmicos, a defesa dos direitos das mulheres, a igualdade racial e a educação. Dediquei-me aos estudos sobre Rui Barbosa, o proscrito; participei da recuperação da memória de Anísio Teixeira e da criação da Fundação Anísio Teixeira; criei a Casa da Educação e, anos depois, a refundei em Brasília. Mas nada disso acalmava meu coração diante dos rumos da política brasileira. Muitas vezes fui vista como ingênua, corporativista, alguém que 'não servia de pau para qualquer obra'. Naquele ambiente, eu era uma política incômoda. Uma jornalista escreveu certa vez: 'Zezé, uma liderança que incomoda do PFL ao PT.' Durante os anos de atuação política e partidária, corremos riscos variados. Miguel Lucena, que me acompanhava e era meu consultor de primeira linha, chegou a sofrer uma tentativa de atropelamento. Certa vez, afrouxaram os parafusos das rodas do meu carro. Em outra ocasião, simularam uma invasão e um quebra-quebra no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia justamente quando eu entrava para registrar presença. Ainda assim, confesso que, naquela época, talvez eu não conseguisse dimensionar inteiramente o quanto incomodavam o grito, a denúncia, a recusa em silenciar. Tampouco conseguia avaliar a enormidade e a gravidade do quadro de corrupção que atravessava diferentes âmbitos do poder. Ao longo dos anos, frases, advertências e bordões de jornalistas, escritores e grandes personagens da nossa história passaram a ecoar dentro de mim. Bóris Casoy repetia: 'Isto é uma vergonha.' William Waack anunciava: 'O Brasil perdeu a vergonha.' E Rui Barbosa deixou uma das mais contundentes advertências sobre o efeito moral da corrupção e da injustiça: diante do triunfo das nulidades, da prosperidade da desonra e do crescimento da injustiça, chega um momento em que o homem passa a ter vergonha de ser honesto. Lima Barreto denunciou, à sua maneira, um país submetido à voracidade dos que se alimentam dos orçamentos públicos. Machado de Assis enxergou na vaidade um princípio de corrupção. Joaquim Manuel de Macedo advertiu sobre uma corrupção capaz de estragar e devorar a sociedade. José Bonifácio de Andrada e Silva chamou atenção para o terreno fértil que surge quando a cobiça encontra facilidade para escapar à ação das leis. Séculos se passaram. Mudaram os personagens, os partidos, as instituições, as tecnologias e as formas de comunicação. Mas algumas das nossas velhas mazelas insistem em atravessar o tempo. E então volto ao poeta Gregório de Matos. Se ele olhasse para o Brasil de hoje, talvez repetisse sua perplexidade diante de uma terra tão dessemelhante daquilo que poderia ser. Eu também me sinto, às vezes, como Darcy Ribeiro, que dizia ter fracassado em muitas de suas grandes batalhas. Se um brasileiro da estatura de Darcy podia olhar para trás com esse sentimento, imagine eu! Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer derrotas e desistir. Talvez ainda haja tempo. Enquanto houver brasileiros dispostos a pensar, questionar, dialogar, denunciar injustiças e defender a liberdade, a história não estará encerrada. Aos que lutaram ontem e aos que lutam hoje resta a responsabilidade de não permitir que a tristeza se transforme em conformismo e que a indignação termine em silêncio. O Brasil continua dessemelhante daquele país que sonhamos na juventude. Mas os sonhos de justiça, liberdade, educação, igualdade e honestidade na vida pública não perderam a razão de existir apenas porque ainda não foram plenamente realizados. Talvez seja exatamente o contrário. É porque ainda não os realizamos que precisamos continuar. Porque, apesar de tudo, a democracia continua sendo uma causa pela qual vale a pena lutar. Maria José Rocha Lima (Zezé) é professora, mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual na Bahia por dois mandatos, de 1991 a 1999.

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