O exame educacional com maior influência sobre formuladores de políticas públicas, o Pisa, acaba de escancarar uma deterioração silenciosa do talento global: a coorte de jovens que em breve ingressará no mercado de trabalho perdeu, em média, um ano inteiro de proficiência leitora, segundo a edição de 2025 aplicada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento, que ouviu 760 mil estudantes de 15 anos em 91 nações, localiza o fenômeno em nível mais dramático desde o começo da série histórica, no ano 2000.
O tom de alerta ganha contornos macroeconômicos porque leitura, matemática e ciências formam o tripé básico do capital humano sobre o qual repousam inovação, produtividade e estabilidade fiscal. Quando uma geração regride nesses indicadores, prejuízos tendem a aparecer décadas depois na forma de menor crescimento potencial e maiores custos sociais.
O recuo que devolveu o ensino ao passado
A pior leitura já medida neste século não surpreende apenas por seu tamanho, mas pela velocidade do colapso. No topo das comparações históricas, a média de leitura chegou a 501 pontos em 2012; na rodada mais recente, caiu para 466, uma diferença de 35 pontos que separa o desempenho de aproximadamente um ano de escolaridade. No âmbito científico, a pontuação despencou de 506, o pico de 2009, para 486; matemática, por sua vez, recuou de 502 para 469.
Um dos achados mais incômodos do relatório é que a compressão na leitura foi maior exatamente entre adolescentes criados em lares de renda elevada. Tal movimento contraria a intuição de que estudantes de meios mais abastados estariam imunes a riscos de exclusão digital, e acende sinais sobre a eficácia das estratégias educacionais usadas pelos colégios de elite.
Para analistas de cenário, a combinação dessas duas curvas indica que o problema não é meramente de falta de acesso a escolas, mas de qualidade da interação com o conhecimento. A regressão afeta a base de competências não apenas dos países em desenvolvimento, mas também de economias maduras, o que deve impactar a aceleração da produtividade nas próximas décadas.
Distração digital aparece como força estrutural
Em comunicado oficial, o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, fez uma leitura direta dos resultados: o crescimento do tempo gasto diante de telas e a perda do hábito de ler por entretenimento andam no mesmo compasso das notas menores. Segundo ele, a nova geração passou a escanear textos de forma compulsiva, abandonando a leitura profunda em favor de respostas imediatas, frequentemente erradas.
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