Considerações sobre 'Sertão-Veneza', de Jacques Fux

Considerações sobre 'Sertão-Veneza', de Jacques Fux
View on original source
Category: Tourism
Share
Archive
Like
Foi com os acordes da música de Sá e Guarabyra narádio-cabeçaque reabri, entre tantas vezes, nessas últimas semanas, o belo livro de Jacques Fux, 'Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas[1]', neste que é o 70°. aniversário da publicação do monumentalGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Antes que Fux escrevesse a palavra, o sertão brasileiro já sabia guardar essa mesma promessa líquida. 'O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão', cantaram Sá e Guarabyra em Sobradinho (1977), retomando uma profecia atribuída a Antônio Conselheiro, décadas antes de qualquer represa. É como se o sertão-Veneza de que fala Fux já estivesse, há muito, anunciado em versos populares. Mais que uma classificação de gabinete colonial, o que interessa aqui é o sertão como território longínquo, distante do mar e dos caminhos fáceis, que só se deixou habitar com a chegada do gado. E é justamente nesse território de bois e vaqueiros que Rosa viveu uma de suas travessias mais intensas: os dez dias de boiada narrados no diário homônimo,A Boiada, ao qual não tive acesso direto, mas que Fux generosamente cita e dá a referência ao leitor em seu livro. Fux inicia falando dosDiários da Itália, em que Rosa, acompanhado de sua esposa Aracy, registra sua partida de Milão para Veneza, em 1949: 'era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações'. Depois de 9 de outubro de 1949, o olhar de Rosa para a encantada Veneza, e para a Itália, nunca mais foi o mesmo, assegura Fux. 'Durante essa viagem pela Itália – e a partir das observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse 'sertão' insular, milenar e suspenso.' Já em 28 de maio de 1952, 'Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária' e, como bom anotador, detalhista e profundo, escreveria outro diário — dois cadernos:A boiada 1eA boiada 2. O anotador era o mesmo dosDiários da Itáliae doDiário da Alemanha. A emoção era mais profunda porque se tratava de'um retorno ao passado e às memórias da infância', durante uma travessia de mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Vale afirmar que essa viagem cabe na designação de Walter Benjamin para o tipo que 'busca viajar para o passado, a fim de se encontrar consigo mesmo' e isso, assegura o pensador alemão, tem afinidade com o próprio livro de memórias. Rosa não era apenasviaggiatore, mas também umhomo viator: aquele que se encontra na estrada, na travessiain via, a caminho de Deus ou do Diabo. Entre bois, vaqueiros e a escuta atenta dos bichos, das plantas e dos rios, sua integração com a natureza se fazia de comunhão e reencontro, quase mística, e a viagem, mais do que deslocamento geográfico, tornava-se ritual de passagem. É o mesmospettatoredos Diários da Itália, atento às miudezas do cotidiano, que aqui reaparece de bota e chapéu, atravessando o sertão como antes atravessara as plantações de amoreiras e parreiras italianas. Muda a paisagem; não muda o gesto de um homem que caminha para, no caminho, refazer-se. São escassas, é bem verdade, as informações precisas sobre essa espécie de terra ignota que foi o sertão profundo. Mas, quando nos entregamos ao exercício da imaginação, o termo ganha contornos novos, como neste trecho deSertão-Veneza: retornos e travessias roseanas: 'Emerge então o Sertão-Veneza. Sertão-Veneza, espaço de sonho — não porque é ideia e sonho, mas porque escapa ao tempo linear, flutua entre o que foi e o que ainda poderia ser, foge dos padrões e das referências. Em As cidades invisíveis [Calvino] e Grande sertão: veredas, a viagem não tem destino final; o importante é a travessia — ou as muitas travessias, transformações e jornadas do corpo e da alma. O que nos oferece Rosa, e o que Marco Polo oferece a Kublai Khan, não é um mapa aprofundado do mundo, mas um espelho da experiência humana, com suas perdas, desejos, lembranças e ficções. Nesse espelho, Veneza surge como símbolo da fragilidade e da beleza da civilização, como cidade impossível e eterna; como representação da morte e da vida; o sertão também é isso tudo, e ainda um reflexo irrefletido de passagem e permanência. Rosa e Calvino nos convidam a entender que a viagem mais profunda não é aquela que atravessa oceanos e alcança um sonho 'sobre águas', ou a que cruza com dificuldade o Liso do Sussuarão para vencer uma guerra, mas aquela que versa-à-travessa a linguagem e que retorna, inevitavelmente, ao lugar-berço de onde viemos.[2]' Um dos segredos deste pequeno grande livro, parece ser que Fux emula a arte roseana, fazendo o leitor atravessar outros textos, conhecendo as viagens e as anotações minuciosas de Guimarães Rosa e nos motiva a reabrir outros livros: o de Ítalo Calvino (Cidades Invisíveis), o de Joseph Brodsky (Marca d'Água) e o de Walter Benjamin (Rua de Mão Única).E aqui cabe uma dúvida que talvez nem o próprio Riobaldo resolvesse. Há um trecho em 'Grande Sertão: Veredas' em que o narrador se pergunta: 'Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...[3]' Se nem o jagunço que atravessou o Liso do Sussuarão a pé tem esse saber, o que dizer de quem tenta entender o sertão sobrevoando o Atlântico, à distância de Veneza? Talvez Fux e Rosa não estejam fazendo o mesmo gesto que os pássaros do romance, mas um gesto irmão daquele. Sertão só se compreende de fora, de longe, com o olhar remedindo, sem nunca parar de medir. Sertão espaço de sonho.Calvino, em outro livro que Fux me fez reabrir, chega a uma imagem irmã. Descrevendo o voo das andorinhas sobre os telhados de uma cidade, entre as tantas descritas por Marco Polo a Kublai Khan, o narrador anota este trecho de prosa poética, que mais me lembra a primavera de Lecce do que Veneza: 'Mas é difícil fixar no papel os caminhos das andorinhas, que cortam o ar acima dos telhados, perfazem parábolas invisíveis com as asas rígidas, desviam-se para engolir um mosquito, voltam a subir em espiral rente a um pináculo, sobranceiam todos os pontos da cidade de cada ponto de suas trilhas aéreas.[4]' Não é, afinal, a mesma dificuldade do sertão? Também ali o caminho resiste ao papel, ao mapa, à travessia registrada em diários; também ali só um olhar de cima, em pleno voo, alcança o que se perde quando a gente tenta fixá-lo por escrito. E é talvez nesse mesmo sonho que se fecha o círculo aberto no início destas páginas. Se o Sertão-Veneza já se anunciara, na citação de Fux, comoespaço de sonho, que foge do tempo linear e dos padrões do viajante acordado, é o próprio Brodsky, resgatado por Fux em comentário sobreMarca d'Água, quem oferece a chave dessa recorrência. Comentando um verso de Anna Akhmátova sobre a Itália como um sonho que retorna, Brodsky conclui: 'voltei sempre ao sonho, e não o contrário'[5]. Talvez seja esse, afinal, o gesto verdadeiro de Rosa em Veneza, de Fux junto a Rosa, e, certamente, o meu, releitor incorrigível dessas páginas: não esperar que o sertão-Veneza nos visite, mas voltar a ele, deliberadamente, sonho após sonho, travessia após travessia.************P.S.: Fux faz palestra em Goiânia, no dia 10/9, às 17h, na Sede da Academia Goiana de Letras (entrada franca) [1]FUX, Jacques.Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas. Belo Horizonte: Autêntica, 2026. [2]Idem, FUX, Jacques. Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas. Belo Horizonte: Autêntica, 2026. [3]ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 435. [4]CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, p. 82. [5]BRODSKY, Joseph. Marca d'Água apud FUX, Jacques. Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas. Belo Horizonte: Autêntica, 2026.

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.