Um padre de Bagé virou capitão do Exército sem nunca ter servido e agora é bispo. Entrou pelo concurso de capelão militar, que abre duas vagas em cada Força

Um padre de Bagé virou capitão do Exército sem nunca ter servido e agora é bispo. Entrou pelo concurso de capelão militar, que abre duas vagas em cada Força
View on original source
Category: Blend
Share
Archive
Like
A Lei 6.923, de 1981, criou o cargo, e o edital exige três anos de atividade ministerial. O soldo inicial anunciado é de R$ 9.004. Há uma forma de entrar nas Forças Armadas brasileiras como oficial sem nunca ter servido, sem passar pela Academia e com idade que em qualquer outro concurso militar já seria eliminatória. Ela aceita candidato até os 40 anos. O preço da fresta é o tamanho dela. No concurso do Exército que oferece 227 vagas de nível superior, duas são para capelão militar. A lei que criou a porta O Serviço de Assistência Religiosa nas Forças Armadas foi criado pela Lei 6.923, de 1981. É ela que autoriza a existência de um oficial cuja função é religiosa e cuja formação é teológica. No lado católico há ainda uma camada diplomática. O Ordinariado Militar do Brasil funciona sob acordo firmado entre o Brasil e a Santa Sé em 1989, e é ele que coordena as capelanias das três Forças. Cerimônia do Ordinariado Militar do Brasil, com militares das três Forças na assistência, na Catedral Militar em Brasília. Foto: Ministério da Defesa, CC BY 2.0 É por isso que a seleção começa fora do quartel. Antes de disputar prova, o candidato precisa de indicação formal da própria instituição religiosa e de anuência da autoridade eclesiástica. O que o edital exige de quem quer entrar A lista de requisitos é curta e específica. Bacharelado em Teologia reconhecido pela autoridade religiosa, no mínimo três anos de atividade ministerial comprovada, nacionalidade brasileira e idade entre 30 e 40 anos. Repare na inversão em relação a qualquer outra porta de entrada militar. Na prova que abre a carreira de oficial, a idade joga contra quem passou dos vinte; no concurso de capelão o edital exige tempo de exercício religioso, e a idade mínima sobe em vez de descer. O restante do processo é militar como qualquer outro. Prova intelectual, inspeção de saúde, exame de aptidão psicológica, teste físico e validação de documentos, na mesma sequência eliminatória das demais seleções. O teste físico não perdoa a idade Quem imagina que a natureza do cargo abranda a exigência corporal se engana. Na Marinha, o candidato ao quadro de capelães navais precisa nadar 25 metros em até 50 segundos, no caso dos homens, e correr 2.400 metros em no máximo 16 minutos. Para as mulheres, os limites são de um minuto na natação e 17 minutos na corrida. São marcas exigidas de alguém que pode estar completando 40 anos no ano da inscrição. Depois da aprovação vem a formação. O curso de adaptação de capelão militar dura em média nove meses, e é nele que o religioso aprende hierarquia, disciplina, uso de uniforme e rotina de organização militar. Quanto paga, e quantas vagas existem O Exército é a maior porta das três. No certame da Escola de Formação Complementar, o soldo inicial anunciado para o capelão é de R$ 9.004, com inscrições que correram de 27 de março a 12 de junho e prova aplicada em 12 de julho, a uma taxa de R$ 150. Na Força Aérea, o ingresso se dá pelo Estágio de Instrução e Adaptação, com duas vagas e remuneração de R$ 8.179. O curso acontece no Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica, em Lagoa Santa, e o aprovado é nomeado Segundo-Tenente. Na Marinha, o edital de 2026 abriu duas vagas imediatas nomeadas por denominação: uma para pastor da Igreja Batista e uma para padre da Igreja Católica. As provas foram aplicadas em 24 de maio. Somando as três Forças, o país abre pouco mais de meia dúzia de vagas de capelão por ciclo. Para efeito de comparação, os editais abertos do Exército em julho reuniam ESA, EsPCEx, IME e a própria Escola de Formação Complementar, com vagas na casa dos milhares. Quem entrou por essa porta e onde chegou A trajetória mais visível hoje é a do monsenhor Fabrício do Prado Nunes, capitão capelão do Exército Brasileiro e sacerdote da Diocese de Bagé, no Rio Grande do Sul. Dentro da Força, ele foi instrutor no Curso de Formação de Oficiais do Serviço de Saúde e no Curso de Oficiais Complementares, e chefiou o próprio curso de formação de capelães militares. Fora do Brasil, serviu na missão de paz da ONU no Haiti, com o 23° Contingente Brasileiro. Em 20 de maio deste ano ele foi nomeado bispo auxiliar do Ordinariado Militar do Brasil pelo Papa. Saiu de capitão para a hierarquia episcopal sem deixar o ambiente militar. O que o capelão faz quando não há culto A imagem popular do capelão é a da missa de campanha, e ela é a menor parte do serviço. O grosso do trabalho é assistência a família de militar, acompanhamento de internado em hospital militar e presença em ocorrência grave. Em operação, a função muda de novo. O capelão embarca, acampa e desloca com a tropa, e atende também quem não professa a mesma fé, porque o serviço é de assistência religiosa e não de catequese. É uma função que só existe porque a instituição reconhece um tipo de baixa que não aparece em relatório logístico. Militar longe de casa, em turno longo e sob risco, adoece de um jeito que farda nenhuma resolve. Por que essa porta interessa a quem nunca pensou em servir Existem outras frestas conhecidas por pouca gente, e o padrão delas é sempre o mesmo. Treze oficiais viraram piloto militar este ano por uma escola do Exército em Taubaté, longe da Academia da Força Aérea. Há também o caminho inverso, de baixo para cima. Um jovem fez o Tiro de Guerra numa cidade sem quartel, foi reprovado na primeira tentativa e terminou sargento pela Escola de Sargentos das Armas. O que todas essas portas têm em comum é que ninguém as anuncia. Elas aparecem em edital técnico, com nome de sigla, e passam despercebidas por quem procura carreira militar pelas vias óbvias. O que pesa contra a decisão Antes de mandar o currículo, convém olhar o outro lado da conta. O soldo já não acompanha o custo de vida, o Senado analisa um reajuste anual e crescem os relatos de militares fazendo bico fora do quartel. Há ainda a mudança de vida que o edital não descreve. Quem entra aos 38 anos passa a ser transferido, a cumprir escala e a responder a regulamento disciplinar, e leva a família junto em cada movimentação. A vaga que abre no ano que vem seguirá o mesmo desenho: duas por Força, teto de 40 anos, indicação da igreja antes da prova. Quem quiser disputar precisa começar pela autoridade religiosa, não pelo cursinho. 0 0 0 0 0 0 seja o 1° a reagir Você confia na Sociedade Militar, então clique aqui e sinalize isso para o Google recomendar nossos artigos para você

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.