O preço das sementes brasileiras entrou no debate político dos Estados Unidos. Em 3 de setembro de 2026, Donald Trump compartilhou uma publicação do senador republicano Chuck Grassley pedindo medidas para reduzir os preços de sementes, fertilizantes e defensivos. O argumento central: agricultores americanos pagariam 68% mais pelas sementes de milho do que seus concorrentes brasileiros.
Grassley quer que o presidente pressione os fornecedores agrícolas de maneira semelhante à atuação sobre a indústria farmacêutica. O compartilhamento deu visibilidade à cobrança, mas as notícias consultadas não apresentam uma medida específica de redução dos preços das sementes.
A discussão interessa ao Brasil porque conecta o custo dos insumos à disputa por competitividade. Também abre uma pergunta: quanto dessa vantagem está relacionada ao avanço das empresas chinesas?
A comparação tem origem em um levantamento da Kynetec para a National Corn Growers Association (NCGA), entidade dos produtores americanos de milho. Divulgado em julho de 2026, o estudo encontrou preços médios americanos 68% superiores nas sementes de milho, 24% nas sementes de soja, 87% nos inseticidas para milho e 31% nos inseticidas para soja, entre 2023 e 2025. É uma pesquisa setorial, não um levantamento governamental.
Esses números exigem quatro cuidados de interpretação. '68% mais caro nos EUA' não significa '68% mais barato no Brasil'. Se o preço brasileiro fosse 100 e o americano 168, o brasileiro seria aproximadamente 40,5% inferior ao americano. É um cálculo ilustrativo: o percentual muda conforme a base de comparação.
Preço do insumo não equivale a custo total por hectare. Doses, quantidade de aplicações, produtividade e demais despesas precisam entrar na avaliação de rentabilidade. Um produto com menor preço unitário não garante menor gasto por área nem maior margem para o agricultor.
Os produtos comparados não são necessariamente idênticos. O relatório reconhece diferenças nos pacotes tecnológicos das sementes e nas formulações dos defensivos. Compara preços unitários, exclui impostos e examina efeitos cambiais; fertilizantes ficaram fora da análise. Seus resultados retratam 2023–2025, não cotações da safra 2026/27.
Compartilhar uma cobrança não equivale a anunciar uma medida. As notícias consultadas descrevem pressão política sobre fornecedores. Não apresentam uma decisão específica que determine a redução dos preços das sementes. A repercussão do tema deve ser distinguida de uma política efetivamente adotada.
Nos defensivos, há evidências de que a concorrência chinesa pressiona os preços brasileiros. Em seus resultados do segundo trimestre de 2024, a ADAMA relacionou a queda das vendas no Brasil a preços menores, concorrentes chineses, adiamento de compras pelos agricultores e mudanças no portfólio. Trata-se de uma avaliação empresarial sobre seu próprio mercado, que documenta essa pressão competitiva sem medir isoladamente seu impacto.
O Syngenta Group também informou que a expansão da capacidade de produção de genéricos pressionou os preços de segmentos menos diferenciados de defensivos em 2024. A observação tem abrangência global.
Economicamente, ampliar as alternativas de fornecimento pode fortalecer a negociação dos agricultores e pressionar margens. Contudo, demonstrar essa influência sobre preços brasileiros não basta para explicar toda a diferença em relação aos Estados Unidos. O levantamento NCGA/Kynetec não atribui uma parcela específica dessa diferença à nacionalidade dos fornecedores.
Nas sementes, a presença chinesa já alcançou escala expressiva no milho. Em novembro de 2025, a Xinhua Silk Road informou que a LongPing detinha mais de 20% do mercado brasileiro de sementes de milho, entre as três maiores fornecedoras. A publicação não detalha se a participação foi calculada por faturamento, volume ou área atendida, o que recomenda manter a referência à fonte e ao período.
Essa trajetória inclui a aquisição de ativos de sementes de milho da Dow AgroSciences pela LongPing e pelo CITIC Agri Fund, concluída em 2017 por US$ 1,1 bilhão. O negócio incluiu germoplasma brasileiro e a marca Morgan. Parte da expansão chinesa, portanto, ocorreu por meio de operações produtivas e tecnológicas já instaladas no país.
Mais recentemente, a LongPing divulgou ganho de 1,3 ponto percentual no mercado de milho verão 2024/25, com base no FarmTrak da Kynetec. O comunicado não informa a participação absoluta final.
Na soja, o recorte é diferente. Em março de 2026, a Golden Harvest, da Syngenta, aparecia com cerca de 3% do mercado de germoplasma licenciado via multiplicadores, segundo dados da Markestrat compilados pela marca e divulgados pelo The AgriBiz. Esse percentual não pode ser somado à participação da LongPing no milho, nem representa todo o negócio brasileiro de sementes da Syngenta.
O próprio Syngenta Group integra os negócios da Sinochem. A presença chinesa, assim, abrange modelos empresariais e tecnológicos distintos. A origem do capital não determina, por si só, uma estratégia de preços baixos.
As evidências reunidas permitem reconhecer a concorrência chinesa como fator de pressão sobre os preços dos defensivos. Nas sementes, comprovam presença empresarial e expansão, mas ainda não demonstram quanto dessa atuação explica a vantagem de preços frente aos americanos.
Para o Brasil, a questão estratégica é ampliar a oferta, a inovação e as alternativas efetivas para o produtor. Para os Estados Unidos, a cobrança de Grassley evidencia a preocupação com o custo de competir. O episódio expõe uma dimensão essencial dessa disputa: a competitividade agrícola também é construída nas condições em que o agricultor compra seus insumos.
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