Borderline deixa de ser considerado intratável e novas terapias ganham espaço

Borderline deixa de ser considerado intratável e novas terapias ganham espaço
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Category: Health
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Durante a adolescência e o início da vida adulta, Lindsay Dow passou por psicoterapia intensiva, internações hospitalares e diversas mudanças de medicação. Diagnosticada com transtorno bipolar aos 13 anos, ela passou quase uma década em tratamentos que, segundo seu relato, não conseguiam controlar a instabilidade emocional que afetava sua vida. 'Eu ia para casa, tomava os remédios e basicamente me deitava na cama e esperava que minha vida melhorasse', contou. Aos 24 anos, durante uma internação, Lindsay recebeu finalmente o diagnóstico de transtorno de personalidade borderline. Para ela, a identificação correta do quadro mudou completamente a abordagem terapêutica. 'Receber um diagnóstico preciso salvou minha vida', afirmou. A partir daquele momento, o tratamento deixou de ser predominantemente baseado em medicamentos e passou a se concentrar na compreensão das emoções, dos comportamentos, dos relacionamentos e da própria identidade. A experiência de Lindsay ilustra um problema que ainda persiste na psiquiatria: a dificuldade de alguns profissionais em reconhecer e nomear o transtorno de personalidade borderline, mesmo quando existem sinais compatíveis. Diagnóstico ainda pode levar anos Lois Choi-Kain, diretora do Gunderson Personality Disorders Institute, do McLean Hospital, e professora associada de Psiquiatria da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, afirma que frequentemente encontra pacientes que passaram anos em tratamento antes de receberem um diagnóstico preciso. Segundo a médica, alguns pacientes relatam ter ouvido de profissionais que eles apresentavam apenas 'alguns traços' do transtorno ou que seriam 'inteligentes demais' ou 'bons demais' para ter borderline. Para Choi-Kain, esse tipo de resposta pode ser prejudicial. O transtorno pode apresentar sintomas semelhantes aos de outras condições psiquiátricas, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno bipolar. Essa sobreposição contribui para os erros e atrasos no diagnóstico. Uma das diferenças importantes em relação ao transtorno bipolar está na forma como as alterações de humor ocorrem. No borderline, elas tendem a ser mais rápidas e relacionadas a situações de estresse e relacionamentos. No transtorno bipolar, os episódios de alteração de humor costumam ser mais prolongados e podem surgir de maneira menos diretamente relacionada a acontecimentos específicos. Um estudo citado na literatura científica identificou que quase 40% dos diagnósticos prévios de transtorno bipolar em pessoas com transtorno de personalidade borderline foram descartados após uma avaliação estruturada. Psicoterapia passa a ocupar papel central A percepção sobre o transtorno também mudou nas últimas décadas. Antes considerado por muitos profissionais como uma condição praticamente intratável, o borderline é hoje reconhecido como um quadro que pode responder significativamente a tratamentos psicoterápicos específicos. Entre as abordagens utilizadas estão a terapia comportamental dialética, a terapia baseada na mentalização e a psicoterapia focada na transferência. Um marco importante ocorreu no fim de 2024, quando a American Psychiatric Association (APA) publicou novas diretrizes para o tratamento do transtorno de personalidade borderline, na primeira grande atualização desde 2001. As recomendações colocam a psicoterapia estruturada como base do tratamento e desestimulam o uso prolongado de medicamentos para controlar os principais sintomas do transtorno. Os medicamentos podem ser utilizados como complemento para sintomas específicos ou outras condições associadas. A APA também recomenda que o diagnóstico seja discutido abertamente com o paciente, que a evolução seja acompanhada por ferramentas padronizadas e que o plano terapêutico seja construído de maneira colaborativa. Pesquisas mostram possibilidade de remissão A antiga ideia de que o transtorno de personalidade borderline seria necessariamente crônico e incapacitante também vem sendo questionada por estudos de longo prazo. O Estudo McLean sobre o Desenvolvimento Adulto acompanhou quase 300 pessoas com transtorno de personalidade borderline durante 24 anos. Os pesquisadores constataram que quase todos os participantes alcançaram períodos de remissão dos sinais e sintomas por pelo menos dois anos. Cerca de 77% mantiveram essa remissão por 12 anos. Outro estudo longitudinal, que acompanhou 668 participantes durante uma década, apontou que 85% alcançaram remissão por pelo menos um ano. Os pesquisadores, porém, fazem uma distinção importante: remissão não significa necessariamente recuperação completa. A pessoa pode deixar de preencher os critérios diagnósticos e ainda apresentar dificuldades relacionadas à autoestima, à identidade, aos relacionamentos ou à sensação de vazio. No estudo de longo prazo do McLean, entre 37% e 60% dos participantes haviam alcançado recuperação funcional plena após 24 anos. Transtorno pode ser mais comum do que se imaginava Outro aspecto que vem mudando é a percepção sobre a frequência do transtorno na população. Em ambientes psiquiátricos, estudos anteriores estimavam prevalências elevadas, de aproximadamente 22% entre pacientes internados e 12% entre pacientes ambulatoriais. Uma metanálise publicada em 2026, que analisou estudos realizados na comunidade, estimou uma prevalência global de 2,4%, o equivalente a aproximadamente uma em cada 40 pessoas adultas. O levantamento também apontou uma diferença entre os dados clínicos e os encontrados na população geral. Enquanto mulheres chegam a ser diagnosticadas até três vezes mais frequentemente em ambientes clínicos, os estudos comunitários indicam proporções mais próximas entre homens e mulheres. Para especialistas, isso pode indicar que o transtorno esteja sendo subdiagnosticado entre homens, que muitas vezes chegam aos serviços de saúde por problemas como uso de substâncias, agressividade ou outras dificuldades comportamentais. Estigma ainda dificulta o tratamento Além da dificuldade de identificação, especialistas apontam que o estigma associado ao transtorno pode afastar pacientes do tratamento. Pessoas com borderline são historicamente descritas de maneira pejorativa como 'difíceis' ou 'manipuladoras'. Esse tipo de visão pode fazer com que profissionais evitem acompanhar esses pacientes por períodos prolongados. Para Frank Yeomans, médico e professor clínico de Psiquiatria do Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos, a falta de preparo dos profissionais é uma das grandes dificuldades no atendimento. 'Os pacientes recebem tratamentos errados durante dez anos ou mais e não melhoram — simplesmente anos desperdiçados', afirmou. Manejo psiquiátrico geral amplia acesso Uma das estratégias desenvolvidas para tornar o tratamento mais acessível é o chamado Manejo Psiquiátrico Geral (MPG). O modelo foi desenvolvido pelo psiquiatra John Gunderson, considerado uma das principais referências históricas no estudo do transtorno de personalidade borderline. A proposta é permitir que diferentes profissionais de saúde mental e da atenção primária estejam capacitados para acompanhar pacientes com o transtorno, sem que seja necessário recorrer imediatamente a programas altamente especializados. O tratamento inclui psicoeducação, resolução de problemas, gerenciamento de crises e construção de estratégias para melhorar a vida cotidiana. Entre os objetivos estão manter estudos ou trabalho, desenvolver relacionamentos mais saudáveis e lidar com crises emocionais de maneira mais estruturada. A medicação, nesse modelo, é utilizada de forma mais criteriosa, direcionada a sintomas específicos ou condições associadas. Para os especialistas, pacientes que não apresentam melhora com esse tipo de acompanhamento podem ser encaminhados posteriormente para tratamentos especializados. Diagnóstico na adolescência O modelo também vem sendo adaptado para adolescentes. A identificação precoce é considerada importante porque os sintomas podem surgir justamente durante uma fase de intensas mudanças emocionais, sociais e de identidade. Ainda existe resistência entre profissionais em diagnosticar o transtorno antes dos 18 anos, em parte pelo receio de confundir comportamentos típicos da adolescência com sinais de uma condição psiquiátrica. Segundo os especialistas, porém, esperar anos para confirmar um diagnóstico pode significar perder uma oportunidade importante de intervenção. A proposta de alguns modelos de atendimento é começar a oferecer suporte mesmo quando o adolescente apresenta apenas parte dos critérios necessários para um diagnóstico definitivo, acompanhando a evolução do quadro ao longo do tempo. 'Se apresentar de três a cinco sinais ou sintomas de transtorno de personalidade borderline, transtorno bipolar ou depressão, não importa qual seja o diagnóstico, esse jovem precisa de cuidados', afirmou Choi-Kain. Debate sobre o nome 'borderline' O próprio nome do transtorno também é alvo de controvérsia. O termo 'borderline' surgiu na década de 1930, quando era utilizado para descrever pacientes considerados estar em uma espécie de fronteira entre neurose e psicose. Essa definição deixou de representar o entendimento atual da psiquiatria. Críticos afirmam que o nome é vago e pode contribuir para o estigma. Organizações de defesa de pacientes defendem há anos uma mudança na terminologia. Por outro lado, especialistas que defendem a manutenção do nome argumentam que ele já possui amplo significado clínico e científico, e que uma simples mudança de nomenclatura não seria suficiente para eliminar o preconceito. Para Lois Choi-Kain, os próprios critérios diagnósticos podem ajudar a reduzir esse estigma. 'Quando os pacientes consultam esses critérios, a maioria invariavelmente diz: 'Sim, eu tenho isso'', afirmou. Uma nova perspectiva para o tratamento A mudança na forma de compreender o transtorno de personalidade borderline representa uma transformação importante na psiquiatria. Em vez de encarar o diagnóstico como uma sentença permanente, especialistas defendem atualmente intervenções estruturadas, acompanhamento contínuo e identificação precoce. O objetivo não é apenas reduzir comportamentos como automutilação, impulsividade ou crises emocionais, mas ajudar o paciente a desenvolver uma identidade mais estável, relacionamentos saudáveis e maior autonomia. Para Frank Yeomans, a recuperação também envolve reconstruir aspectos da vida que podem ter sido prejudicados durante anos de sofrimento. 'Se o paciente não tiver esse senso de si mesmo estável, a vida será muito mais desafiadora. Ele será como um navio no mar sem leme', afirmou. A perspectiva atual, portanto, é de que o diagnóstico correto não deve representar um rótulo definitivo, mas pode ser o primeiro passo para que o paciente receba o tratamento adequado e tenha melhores condições de construir uma vida estável e satisfatória.

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