Era preciso Marilyn Monroe chegar aos 100 anos para Hollywood finalmente a deixar falar? Talvez. E, já agora, era preciso morrer aos 36, para, um século depois do seu nascimento, alguém se lembrar de perguntar o que pensaria ela de tudo isto e dar-lhe finalmente um palco onde pudesse dizê-lo. Maggie Gyllenhaal fá-lo em Flesh Impact, uma curta-metragem de 22 minutos, bastante maior nas perguntas que deixa penduradas do que nas respostas que oferece, estreada aqui na Venice Open a propósito também da entrega do Leão de Ouro de Carreira a Ellen Burstyn.
A ideia de Flesh Impact é tão simples que quase parece óbvia depois de alguém a ter: Marilyn Monroe chega aos 100 anos e entra numa sala de audições. A jovem Marilyn é interpretada por Dakota Johnson; a mulher que teve o privilégio que a verdadeira Norma Jeane nunca conheceu — envelhecer — é Ellen Burstyn. Não há aqui qualquer tentativa de concurso de sósias. Felizmente. Johnson não se parece particularmente com Monroe e Gyllenhaal percebeu que essa era precisamente uma das virtudes da escolha: depois de décadas de reprodução industrial, talvez já nem saibamos verdadeiramente como era Marilyn. Sabemos apenas como o mundo decidiu que ela devia ser.
É aí que Flesh Impact deixa de ser apenas uma homenagem comemorativa e se transforma num objeto cinematográfico interessante, embora, diga-se, esperássemos mais: um pequeno ensaio sobre o corpo da atriz como propriedade pública. O título vem da expressão atribuída a Billy Wilder para definir aquela extraordinária capacidade de Marilyn parecer tão luminosa e fisicamente presente no ecrã que quase apetecia estender a mão e tocar-lhe. Gyllenhaal pega no elogio e vira-o do avesso. Muito bem, era tocável. Mas alguém alguma vez perguntou à mulher como se sentia por passar a vida inteira a ser tocada pelos olhos dos outros?
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Dakota aparece como Marilyn no auge da máquina do desejo; Burstyn é a Marilyn impossível, aquela que pôde ficar velha, ganhar rugas, experiência, memória, talvez mau feitio e, luxo supremo, opinião própria. Entre uma e outra está praticamente toda a história das atrizes em Hollywood.
Marilyn perdeu contra a IA?
Há, contudo, uma deliciosa ironia contemporânea. Pediram a Gyllenhaal que experimentasse Inteligência Artificial, treinada a partir de imagens licenciadas de Monroe, colocando depois aquele rosto sobre Dakota Johnson. Experimentou. E deitou fora. A Marilyn fabricada pelo computador destruía precisamente aquilo que o pequeno filme procurava: humanidade, fragilidade, vida. A atriz venceu o software por uma razão quase embaraçosamente antiquada: estava viva.
Num momento em que metade da indústria procura descobrir quanto dinheiro pode poupar substituindo pessoas por máquinas, Flesh Impact responde a essa questão, com vinte e poucos minutos de cinema: talvez possamos fabricar um rosto perfeito, mas ainda não conseguimos fabricar aquilo que acontece dentro dele.
E há uma segunda camada, talvez ainda mais pessoal. Gyllenhaal foi atriz antes de ser realizadora e sabe perfeitamente o que significa entrar numa audição, oferecer corpo, voz, medo e desejo e esperar que, do outro lado da mesa, alguém diga sim ou não. Portanto, quando filma Marilyn, filma também Dakota, Ellen e, inevitavelmente, a si própria. Não é apenas um filme sobre Monroe. É sobre esse ofício absurdo, poderoso e violentamente vulnerável que é ser atriz.
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