Não há favoritismo para Lula. O perigo da derrota é real. Mas nada está dado.

Não há favoritismo para Lula. O perigo da derrota é real. Mas nada está dado.
View on original source
Category: Politics
Share
Archive
Like
O ano de 2025 terminou melhor do que começou. A inflação caiu, os preços dos alimentos surpreenderam positivamente e o dólar recuou. Isso foi a coroação de um segundo semestre em que a esquerda voltou a fazer atos de rua, mobilizada pela bandeira da soberania nacional, o fim da escala 6X1 e derrotando o Congresso Nacional, na sua tentativa de aprovar a PEC da blindagem. Terminamos o ano mais animados. Havia razões para isso. Mas talvez também tenhamos terminado o ano mais iludidos Nem bem começou 2026, e vimos o sequestro de Maduro pelos EUA, uma forma de rasgar o último véu discursivo que servia algum tipo de aparência 'civilizada' à política externa desse imperialismo. Também ficou ainda mais nítido o sentido dos conflitos geopolíticos, cada vez mais abertos. E o lugar das economias dependentes da América Latina na política externa estadunidense. A esquerda percebeu isso e produziu análises importantes. Vimos que a América Latina estava sob ataques e que isso não se tratava apenas de retórica. Mas, mesmo assim, um elemento de ilusão foi se consolidando: Lula é favorito. Nessa visão, não se trata de acreditar na vitória. Ou de torcer por ela. Muito menos de lutar e trabalhar por ela. Mas de achar que há algum elemento externo, estável que sustentaria um favoritismo de Lula. Podemos ganhar sim, mas não por um favoritismo, mas pela luta política. Entre o final do ano passado e o começo desse, as pesquisas indicavam Lula na frente, o bolsonarismo estava indeciso. O Trump atacando o país nos dava uma bandeira de mobilização. E, com isso, alguns elementos estruturais da situação política atual foram sendo subestimados. Neste texto, quero comentar sobre alguns deles para refletir sobre a noção de favoritismo do Lula. Talvez o principal erro é acreditar que a conjuntura eleitoral pode ser lida por uma única variável. Na minha opinião, o problema é que o favoritismo passou a funcionar menos como uma hipótese eleitoral e mais como uma chave de leitura da conjuntura. E, quando isso acontece, tudo aquilo que deveria nos preocupar passa a ser interpretado como algo secundário ou administrável. 1 – Vivemos um período de expansão do fascismo. A volta de Trump à presidência por meio de uma eleição pode ter criado a ilusão de que estamos diante apenas de uma nova rodada de um fenômeno que já conhecemos. Mas há razões para pensar que não é disso que se trata. Estamos diante de uma nova localização de forças abertamente fascistas confluindo para nos aproximar cada vez mais dos anos 1930 do século passado, com mobilização de massas, crise da democracia neoliberal, nacionalismo/protecionismo, militarização, inimigos internos. Que se expressam em avanço de partidos e figuras fascistas na Europa, a circulação de discursos e afetos fascistas na América Latina. Mas talvez a situação dos EUA seja o mais importante, com os recuos e deformações no regime, a criação de uma polícia política voltada nesse momento para imigrantes e o clima de conflagração interna no país. 2 – Trump atacar o Brasil nos deu uma bandeira política, mas isso não muda o fato de que estamos sob ataque. Estar sob a mira do ataque do imperialismo nas vésperas de uma eleição, nos marcos do isolamento que vivemos hoje na América Latina e sobretudo no sul, mas também no ambiente de enfrentamentos políticos e militares não é algo a ser comemorado. Isso não quer dizer que não podemos ganhar. Podemos. Que não vamos lutar, vamos. Mas, com certeza, não é pra ser comemorado. São ataques e um sinal cristalino da interferência na eleição brasileira – que já está em curso. Ela pode ser mais ou menos bem-sucedida, mas não podemos tratá-la como uma possibilidade distante. 3 – Outro elemento que precisa ser considerado é o que podemos chamar de crise dos incumbentes. Em diferentes países e sob diferentes orientações ideológicas, candidatos que já ocupam cargos eletivos têm enfrentado dificuldades crescentes para se manter no poder. Não se trata apenas de uma rejeição a este ou àquele governo, mas de um tipo de insatisfação permanente com quem está no poder, que combina cansaço, frustração de expectativas, desejo de mudança e uma percepção de que os incumbentes já não são capazes de responder a problemas que permanecem ou se acumulam. Direita e esquerda são atingidas, ainda que de maneiras distintas, porque a crise não se organiza necessariamente em torno de uma preferência ideológica, mas de uma fadiga com a continuidade. O eleitor parece cada vez menos disposto a renovar automaticamente o mandato de quem já governa e mais inclinado a experimentar alternativas, mesmo quando elas são pouco conhecidas ou representam riscos. Isso produz uma situação particularmente desafiadora para governos e forças progressistas: estar no governo deixa de ser, por si só, uma vantagem eleitoral e pode se converter em passivo, sobretudo quando a população não percebe mudanças concretas em sua vida cotidiana. 4 – Outro elemento que precisamos considerar é que a realidade tem colocado em questão a velha máxima de que 'é a economia, estúpido'. Não porque a economia tenha deixado de importar, mas porque ela nunca se resume aos indicadores mais imediatamente mensuráveis pelo mercado: inflação, emprego, renda, salário ou crescimento. A economia também se realiza na reprodução social, no preço e na disponibilidade dos alimentos, no tempo de trabalho, no acesso à saúde, à educação, à moradia e aos serviços públicos, na possibilidade concreta de reproduzir a própria vida. Mas há algo ainda mais decisivo: vivemos um período de intensa disputa ideológica e contra-ideológica, em que as percepções sobre a realidade não são produzidas em relação com a experiência material. O pânico moral, a guerra cultural e a corrupção podem se transformar em poderosas agendas de mobilização, mesmo quando não correspondem às principais determinações objetivas da vida social. E isso é particularmente importante diante do avanço fascista: o fascismo não se constrói apenas sobre interesses econômicos racionais ou sobre uma avaliação objetiva das condições de vida, mas pressupõe a constituição de movimentos de massas mobilizados por afetos, ressentimentos, medos e fantasias políticas. Sua força está justamente na capacidade de transformar inseguranças reais em inimigos imaginários, deslocando a insatisfação social para alvos capazes de produzir identificação, ódio e pertencimento. Por isso, melhorar a economia é indispensável, mas não basta para derrotar politicamente o fascismo. 5 – Outro elemento, também combinado aos anteriores, é a ilusão de que a derrota dos golpistas do 8 de janeiro significou a derrota do golpe. A responsabilização de Bolsonaro, de militares e de outros articuladores da ruptura democrática foi uma vitória importante e nos deu tempo — mas não nos retirou da mira. Chegamos às eleições, portanto, com uma espécie de ilusão democrática, como se a existência de regras eleitorais e a responsabilização dos golpistas fossem suficientes para assegurar que o processo transcorreria normalmente, com todas as regras respeitadas. Hoje, o presidente e o vice do TSE são dois ministros indicados por Bolsonaro, dois exemplares do projeto golpista. O mesmo Tribunal que, quando comandado por Alexandre de Moraes em 2022, ajudou a segurar iniciativas golpistas no curso das eleições, hoje é comandado por golpistas. Não podemos partir do pressuposto de normalidade. Temos diante de nós as interferências dos Estados Unidos, o poder desmedido das Big Techs, a permanência de setores organizados em torno da conspiração golpista e uma disputa política na qual as próprias condições de circulação da informação e de formação da opinião pública estão em jogo. O Brasil está sob ataque e a nossa democracia continua ameaçada. A prisão de Bolsonaro e de militares envolvidos na tentativa de golpe foi uma conquista democrática fundamental; deu-nos tempo, desorganizou parte da ofensiva e impôs custos aos seus protagonistas. Mas tempo não é sinônimo de segurança. A ameaça não desapareceu: ela mudou de forma, permanece organizada e seguirá buscando as condições para voltar à ofensiva. Por isso, não podemos entrar nesta eleição acreditando que a democracia está garantida e, muito menos, que Lula é favorito. Precisamos disputar e defender, ao mesmo tempo, o voto, as instituições e as condições concretas para que a vontade popular possa efetivamente se expressar.

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.