Uma roda de samba ao pôr do sol, em plena planície alentejana, será um dos momentos mais emblemáticos da quarta edição do Alentejo Heritage Festival, que decorre entre 25 e 27 de setembro, em Cabrela, no concelho de Montemor-o-Novo.
Com o Brasil como país convidado, o festival propõe três dias de encontros culturais entre as duas margens do Atlântico, cruzando tradições, linguagens artísticas e experiências comunitárias. Fado, choro, samba e cante alentejano juntam-se à dança e à arte contemporânea num programa que pretende aproximar artistas, habitantes e público.
Um dos momentos centrais acontece no sábado, 26 de setembro, às 18h00, no Cabeço da Igreja Velha. 'Uma Roda de Samba no Alentejo', pelo Coletivo GIRA, leva à paisagem alentejana uma das mais reconhecidas expressões da cultura afro-brasileira.
Fundado em Lisboa por mulheres imigrantes, o coletivo desenvolve um trabalho centrado na cultura afro-brasileira, na igualdade de género e na dimensão comunitária da roda de samba. Em Cabrela, o encontro ganha uma dimensão particular, com o samba a ecoar na planície ao final do dia e a paisagem alentejana a transformar-se no cenário de uma celebração coletiva.
A presença brasileira, contudo, atravessa toda a programação do festival. Na sexta-feira, 25 de setembro, a abertura faz-se com 'Uma Varanda para o Atlântico', concerto de Cristina Clara que aproxima a tradição melancólica do fado da riqueza rítmica e melódica do choro brasileiro.
No sábado à noite, a relação entre as duas culturas aprofunda-se em 'O Rio na Nossa Rua'. O músico luso-brasileiro Luca Argel junta-se ao grupo Era Uma Vez o Cante para um encontro entre a canção e o cante alentejano. O espetáculo propõe uma reflexão sobre temas como a vulnerabilidade, a masculinidade, os afetos e o cuidado, através do diálogo entre duas formas distintas de expressão musical.
A programação inclui também propostas dirigidas ao movimento e à criação contemporânea. Na manhã de sábado, a coreógrafa e bailarina brasileira Bárbara Faustino conduz uma Oficina de Movimento para Famílias. Durante a tarde, Gonçalo Ribeiro, conhecido artisticamente como MAR, apresenta a intervenção «Somos Todos Turistas», que aborda questões relacionadas com a origem, a pertença e a passagem.
O encerramento, no domingo, 27 de setembro, será marcado por outra manifestação de inspiração brasileira. A 'Lavagem de Nossa Senhora da Conceição de Cabrela', dinamizada pela Ayô – Associação de Arte & Cultura Brasileira, percorre as ruas da vila inspirada na tradicional Lavagem do Bonfim, em Salvador da Bahia. O momento pretende afirmar a dimensão colectiva do festival, através de um gesto de encontro, pertença e cuidado.
Criado em 2023, o Alentejo Heritage Festival chega à quarta edição mantendo uma forte ligação ao território. Em Cabrela, as ruas, largos, varandas e espaços culturais deixam de ser apenas lugares de passagem para integrar a própria experiência artística.
Num território de baixa densidade, o festival procura assim criar uma relação próxima entre comunidade e artistas, valorizando a participação e a partilha como elementos centrais da experiência cultural.
Em 2026, o Atlântico chega a Cabrela através de diferentes sons, histórias e tradições. E entre todas as imagens possíveis para representar esse encontro entre Portugal e Brasil, uma roda de samba ao cair da tarde, com a planície alentejana como cenário, será certamente uma das mais simbólicas.
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