Avante: 'Não há festa como esta!'

Avante: 'Não há festa como esta!'
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Category: Entertainment
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Fui à Festa do Avante desde o seu início, nos meus 12 anos de 1976, pois o camarada Pimentel, apesar das suas suspeitas quando ao desvio de direita 'eurocomunista' de Berlinguer - tal como o de Carrillo e, também, também ..., o de Marchais -, acompanhou-me numa hiper-apinhada (velha) FIL diante dos Area, os daquela hendrixiana 'A Internacional', com aqueles 'De pé, ó vítimas da fome!' catapultados em ríspidos riffs. E no ano seguinte levou-me a assistir (que amor paternal!, que saudade…) ao também algo suspeitoEugenio Finardi, então já ombreando em cartaz com os míticos (e 'étnicos', termo que então ninguém se arriscaria a aventar) Fairport Convention - mas estes ali desprovidos da Sandy Denny. Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações. E nesses anos seguintes a gente, já livre da omnipresença paternal, aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar imenso d'aquelas coisas', há que o dizer, pois foi verdade). Nisso a 'acamaradar' entre nós e com os dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais, gente ali (muito) feliz sem (quaisquer) lágrimas, a rirem-se numa descrença camarada dos nossos efusivos 'ó camarada' e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e nos comes - e até a oferecerem uma ou outra bucha mais noctívaga, mais-velhos em másculos carinhos a quererem assim manter-nos em pé, e apesar disso nós por vezes a desconseguirmos, que as noites seguiam já várias e longas... Nisso nós, e naqueles tempos tão diversos dos de agora, víamos pavilhões do mundo inteiro - o comunista, claro, ali propagandeado como sede de tantas maravilhas. E os do resto daquele nosso país, ainda grande pois desprovido de auto-estradas - a nossa tinha 22 kms até ao Carregado, convém lembrar -, fervilhando com os petiscos regionais. Nessa era em que as estrelas eram Karpov, Spassky,Korchnoi - e em que para ser comentador televisivo era preciso ser Cordovil e não um badameco qualquer -, de dia jogavam-se simultâneascom enormes grandes-mestres soviéticos e flanava-se por ali adentro. E desde o entardecer ouviam-se músicos chegados de todas as paragens, coisa única no Portugal paroquial daqueles dias. Desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, às celebridades: os Dexys Midnight Runners (que concertão) então nos píncaros, Max Roach a enfrentar um enorme público estupefacto, aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o tal rock celta então em voga, proto-etnomusicessa que veio a ser ditaworld, o Ivan Lins com a sua belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa, Jorge Pardo, o fantástico 'corno' de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, o verídico Richie Havens do lendário 'Freedom' do Woodstock e tantos outros. Ali todos os anos ungidos pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal. Num ano, o qual não recordo mas posterioraos The Clash no Dramático de Cascais, eu já eleitor e universitário, nos viçosos 19 ou 20, , esperava por um qualquer grande nome, vindo para o concerto de encerramento após o comício dominical para a apoteose ('cultural' dirão os de agora) final. E antes da arenga do camarada Secretário-Geral Álvaro Cunhal, a multidão que enchia o vastíssimo anfiteatro, levantou-se para em uníssono entoar o 'A Portuguesa', todos de braço direito erguido. Olhei à minha volta e deparei-me comigo mesmo num estupefacto num 'que faço eu aqui?!', qual Rimbaud entre os selvagens, e concluí - nesses tais meus vinte aninhos, no início dos 1980s, bem antes da queda do Muro e daglasnost, mas muito depois do XX Congresso e com tudo aquilo que se passava no mundo de então, e resmunguei-me um 'foda-se, nunca mais cá venho!'. Sim, uns 2 ou 3 anos depois lá voltei, pois os princípios só o são se não forem dogmas, pois actuaria o Manu Dibango! E como se poderia ver o Manu Dibango em Portugal desses tempos. Alguns amigos perguntavam-me porquê, diziam-me teimoso, 'a festa é porreira!'. 'É mas é política!', respondia, ainda naqueles tempos de Honecker e quejandos. E aduzia que nunca ouvira algum dos músicos, desses presentes em todas as edições, que ali peroravam loas à 'liberdade' e à 'democracia' e cantarolavam para os perseguidos na América Latina - desde o senhoril Carlos do Carmo aos enfadonhos Pedro Barroso ou Manuel Faria, dos rebeldes Telectu aos rockeiros UHF ou Xutos ou aos popeiros GNR ou a família Salomé, mais a tropa de palavrosos cantautores ou o então 'must' Rão Kyao, etc. -, a deixar uma palavra que fosse, ou mesmo até a atreverem-se a dedicar uma peça àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, ou ao exilado Soljenítsin de qual abundavam os livros nas nossas livrarias, ou aos do Solidariedade ou da Carta 77, já para não falar da excêntrica Albânia, de Angola ou Moçambique então espartilhados por ditaduras patéticas, ou da peculiar Roménia. Ou mesmo o invadido Afeganistão. Nem mesmo o Ary dos Santos, histriónico no palco central lendo poemas ('então este gajo lê os poemas!', resmungava aquele jovem eu, conhecedor de Mário Viegas e de … Villaret) se atrevia a um carinho para os homossexuais perseguidos (e de que maneira) nos países que eles tanto promoviam 40 anos passaram. Nunca ouvi que algum músico, e também desses das novas décadas que já nem conheço o nome, ou escritor (dos que lá vão enunciar e promover os livros) ou artistas plásticos ou académicos (que lá falarão) tenham alguma vez 'pisado o risco' - aliás, para a rapaziada da música seria letal para a sua inserção na rede 'cultural' da Frente Popular autárquica… E este ano lá vejo as habituais entusiásticas loas nas redes sociais: 'não há festa como esta!', o apogeu da democracia e liberdade, a solidariedade com a Palestina, com Cuba (imagine-se). Etc. E ponho as mãos no fogo que ninguém se lembrou de Navalny. Para mero exemplo. É verdade, 'não há festa como esta'. Partilhar Subscreva agora o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquela Festa), Pois aqueles gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, paragens, convívios. Pois a 'cultura' - e os arautos da 'liberdade' - não moravam ali. 15.08.15, 7.8.2022, Há diasJosé Milhazes criticou os artistas que irão actuar na Festa do Avante, nisso compactuando com o efectivo apoio que o PCP tem dado à invasão russa da Ucrânia. À esquerda -. e na extrema-direita, dado o actual 'compromisso histórico' entre as sensibilidades ditatoriais - logo o criticaram, e mais surgiram os hipócritas clamando que se trata de um acontecimento cultural, como se que apolítico, abjecção mistificando as críticas como se fossem 'um discurso de ódio', capitaneada pelo sempretão elogiado António Filipe. Nisso recordo as minhas sensações sobre os artistas (músicos e não só) que ao longo dos anos participaram na Festa do Avante. E replico o que sobre eles botei numpostal de Agosto de 2015: Partilhar 'O Pimentel' pode ser subscrito, o que muito agradecerei.

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