Em março deste ano, publiquei um artigo perguntando quando Roberto Campos Neto iria sentar no banco dos réus. Passados alguns meses, as revelações envolvendo o Banco Master não enfraqueceram a pergunta. Ao contrário. Hoje acrescento outro nome: Quando Roberto Campos Neto e Flávio Bolsonaro vão sentar no banco dos réus?
Para entender a dimensão do caso, é preciso voltar ao começo. Roberto Campos Neto chegou à presidência do Banco Central em 2019, indicado por Jair Messias Bolsonaro. Naquele momento, Daniel Vorcaro tentava assumir o controle do então Banco Máxima. Em fevereiro de 2019, antes da posse de Campos Neto, o Banco Central havia rejeitado a operação, questionando a capacidade econômico-financeira de Vorcaro e a comprovação da origem dos recursos utilizados na aquisição.
Oito meses depois, já sob a presidência de Roberto Campos Neto, a diretoria colegiada do Banco Central mudou de posição e, em outubro de 2019, aprovou a transferência de controle do Banco Máxima para o grupo liderado por Daniel Vorcaro. Em 2021, o Banco Máxima passou a se chamar Banco Master. E então começou uma expansão impressionante.
Entre 2021 e 2024, os ativos do Master saltaram de R$ 10,3 bilhões para R$ 63 bilhões, mais de seis vezes em apenas três anos. No mesmo período, os depósitos passaram de R$ 8,4 bilhões para R$ 59 bilhões, enquanto as operações de crédito se multiplicaram mais de treze vezes.
Somente entre 2023 e 2024, os ativos do banco cresceram de R$ 36 bilhões para R$ 63 bilhões, avanço de aproximadamente 75% em apenas um ano. O patrimônio líquido declarado passou de R$ 2,3 bilhões para R$ 4,7 bilhões. Tudo isso aconteceu enquanto Roberto Campos Neto presidia a instituição responsável por fiscalizar os bancos brasileiros.
E aqui está um ponto que não pode ser escondido do leitor. O Banco Máxima tornou-se Banco Master e experimentou sua extraordinária expansão durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. Campos Neto havia sido indicado por Jair Bolsonaro.
O desfecho veio depois.
Em 18 de novembro de 2025, já com Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central, indicado pelo presidente Lula, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A justificativa oficial falou em grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
A cronologia é objetiva: com Campos Neto, o grupo de Vorcaro assumiu o Máxima, nasceu o Master e o banco explodiu de tamanho. Com Galípolo, o Master foi liquidado. Isso, por si só, não prova crime de Roberto Campos Neto. Mas torna absolutamente legítima uma pergunta: o que o Banco Central fiscalizou durante todos aqueles anos?
E a história fica ainda mais grave quando o dinheiro do entorno de Daniel Vorcaro começa a aparecer na política. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, doou R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro e outros R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022.
Depois veio o caso Dark Horse.
Daniel Vorcaro negociou com Flávio Bolsonaro cerca de R$ 134 milhões para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Aproximadamente R$ 61 milhões foram efetivamente repassados. Portanto, coloquemos a sequência diante do leitor.
Bolsonaro indica Campos Neto para o Banco Central. Já sob Campos Neto, o BC aprova a entrada do grupo de Vorcaro no Banco Máxima. O Máxima vira Banco Master. O banco sai de pouco mais de R$ 10 bilhões em ativos, em 2021, para R$ 63 bilhões em 2024.
O cunhado de Vorcaro coloca milhões nas campanhas de Bolsonaro e Tarcísio. O próprio Vorcaro negocia R$ 134 milhões para financiar um filme sobre Bolsonaro e desembolsa cerca de R$ 61 milhões numa negociação conduzida por Flávio Bolsonaro. Depois, já sob Galípolo, o Banco Central liquida o Master por grave crise financeira e graves violações às normas do sistema.
E querem que ninguém faça perguntas? Eu as faço: houve favorecimento? Houve proteção? Houve omissão? Houve alguma contrapartida política ou institucional?
E outra: para onde foram os R$ 61 milhões? As perguntas que ainda precisam de resposta
Não basta dizer que foi dinheiro para um filme. Estamos falando de dezenas de milhões de reais negociados entre um banqueiro cuja instituição acabaria liquidada e o filho do presidente que havia indicado o chefe do órgão responsável por fiscalizar aquele banco.
A Polícia Federal deve seguir o dinheiro até o último centavo. E deve investigar também, sem blindagens políticas, o que ocorreu dentro do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto. Porque a presunção de inocência é uma garantia constitucional. Não é autorização para esconder fatos, impedir investigações ou transformar relações financeiras e políticas dessa magnitude em simples coincidências.
O Master cresceu. O dinheiro circulou. As relações políticas existiram. E o banco acabou liquidado. Agora faltam as respostas. Por isso, a pergunta permanece: quando Roberto Campos Neto e Flávio Bolsonaro vão sentar no banco dos réus?
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.
(0)Comments