No A Terra é Redonda
A disputa eleitoral contrapõe a consolidação da soberania nacional às investidas de subordinação geopolítica e desestabilização institucional
Falta pouco para as eleições. Já se disse que elas não são corriqueiras, que há algo muito maior em jogo. Em meu entender de cidadão, para o Brasil, chegou a hora da verdade. Inexoravelmente, o país vai ter de escolher. Consciente ou inconscientemente. Consciente e inconscientemente. Vai ter de decidir qual será o seu caminho. Muito maior do que o caminho de Lula ou o caminho de Flávio Bolsonaro e de todos esses candidatos crapulosos que devem apoiá-lo, caso haja segundo turno.
Já não há mais tempo para análises e controvérsias sobre como e porquê chegamos até aqui – a hora da verdade. Invocá-las, seria cairmos de imediato na armadilha da fieira de razões e desrazões, que nos levariam a um emaranhado sem fim. O que importa é que estamos diante de dois caminhos, e só dois: Brasil soberano ou Colônia 2.0.
Seguindo à distância a conjuntura (pois de perto corremos o risco de enlouquecer, tamanha é a vertigem do que está em questão, ou, então, de nos perdermos na floresta de minúcias e detalhes, que também são importantes, mas nublam a percepção) não há como escapar do embate entre duas forças imensas que atravessam de alto a baixo o destino do país, mobilizando todas as suas instâncias – sociais, econômicas, políticas, culturais, raciais, jurídicas e, last but not least , institucionais e geopolíticas.
Queiramos, ou não, todas essas instâncias expressam o tamanho e a intensidade do conflito entre a força de um país que se recusa a morrer diante da evidência da ascensão da nova ordem mundial e a força de um país que já se encontra comprometido com a ordem emergente.
Não adianta tentar tapar os olhos. A lucidez obriga a perceber que o Brasil se encontra no centro do xadrez geopolítico mundial, junto com China, Rússia, Irã, Índia e, óbvio, Estados Unidos. Não se pode incluir na lista a União Européia, pois ela tem dado crescentes demonstrações de irrelevância nesse cenário. E o mesmo vale para o Japão…
Nosso empedernido provincianismo, somado ao complexo de vira-latismo, nos impede de realizar esse fato, esse deslocamento incontornável. Olhando para o lado de nossas elites, não se sabe ao certo se isso decorre de má-fé a serviço da ignorância, ou vice-versa. Além disso, uma parcela importante dos brasileiros continua alheia ao assunto, ou insistindo em acreditar que o jogo não mudou. O mais estranho de tudo é que o Brasil, e suas eleições, estão na mira de Washington, Beijing, Moscou, Nova Delhi, Londres e nas capitais européias.
É evidente que os interesses externos, globais ou não, se somam ou se alinham com uma ou outra das duas forças em conflito internamente, alimentando-as em tudo o que podem – de forma aberta ou velada. Mas não é pela mídia ou pelos assim chamados comentaristas políticos que ficamos sabendo disso – com as exceções de praxe, é claro.
Deslocando-se para o centro do tabuleiro, o Brasil tornou-se questão prioritária da diplomacia mundial e até mesmo da guerra entre a hegemonia norte-americana e o multilateralismo. Afinal, seu destino pesa não só sobre todo o hemisfério ocidental, mas também sobre o mundo como um todo, em virtude de suas riquezas minerais, tamanho continental, biodiversidade e florestas, etc.
Ou seja: o Brasil já não cabe mais no quintal dos Estados Unidos; será necessário impor-lhe uma camisa-de-força gigantesca e horripilante para mantê-lo como república de bananas.
Por tudo isso, é óbvio que a violência do embate está se acirrando inacreditavelmente. Que se tome como a mais recente manifestação dela o vale-tudo que André Mendonça instaurou no Supremo Tribunal Federal. Tal um cavaleiro do Apocalipse, o ministro disparou um míssil contra um dos três poderes da República, sua própria instituição, na esperança de precipitar o caos institucional e dar continuidade à lógica do golpismo que, diga-se de passagem, havia sido contido, mas não eliminado.
E se a conjuntura política já estava explosiva, tendo em vista a polarização entre um Executivo progressista e um Legislativo arqui-reacionário, que dirá agora, com a desestabilização do Judiciário…
Lula e parte dos progressistas sabem muito bem de tudo isso e trabalham no sentido de proteger as instituições da República e dar fôlego à força do Brasil novo. Que se tomem suas declarações de estadista e sua conduta interna e externamente; que se atente às posições de um candidato como Fernando Haddad, e outros; que se avalie o trabalho admirável que Dilma Roussef tem feito à frente do Banco dos Brics – fica patente a compreensão do papel do país no mundo de hoje e por vir, e que seus inimigos querem evitar a todo custo, propondo uma regressão infinita em todas as frentes e a canga no pescoço da população.
Que se considerem as manifestações dos outros candidatos à presidência. A única proposta não é uma proposta: é o escárnio, com o perdão da palavra, a escrotidão. Flávio Bolsonaro entende que a insegurança climática é problema de saneamento básico – assim como seu pai propunha, como solução, que os brasileiros fossem ao banheiro dia sim, dia não!
Renan Santos concebe a segurança pública como limpeza étnica e social contra seu próprio povo, no melhor estilo genocida! O escritor de auto-ajuda acha que os diplomatas deveriam ser descartados e substituídos por influencers! Convenhamos: é esse lixo que os brasileiros almejam ter como Presidente da República?
E, como ápice do caráter surreal, delirante, do que estamos vivendo, há a declaração obscena do Ministro da Defesa que, diante da perspectiva de uma interferência direta dos Estados Unidos nos assuntos do país, propõe que os brasileiros 'abram o portão'!!! Como aceitar que a principal autoridade da Forças Armadas possa dizer isso assim, de cara alegre?
A verdade está aí, diante de nós. Escancarada. As consequências de nossa escolha serão incomensuráveis. Tanto num sentido, quanto no outro. A força que prevalecer vai abrir, ou fechar, o nosso futuro.
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*Laymert Garcia dos Santos é professor aposentado do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Politizar as novas tecnologias (Editora 34 ). [https://amzn.to/4fWZgHh]
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