Quando o Ressentimento Encontra Pertencimento

Quando o Ressentimento Encontra Pertencimento
View on original source
Category: Health
Share
Archive
Like
Eu sei que alguns vídeos da manosfera provocam repulsa, raiva, indignação. Alguns parecem tão absurdos que a primeira reação diante de um manual de looksmaxxing, feromaxxing ou alguma suposta técnica científica para aprender a falar com mulheres é pensar em como alguém conseguiu chegar àquilo. A gente olha para um sujeito ensinando outro homem a acumular feromônios durante semanas, a modificar o rosto com procedimentos improvisados, a calcular movimentos corporais para produzir atração ou a interpretar relações humanas inteiras como um sistema de recompensa e punição e sente vontade de rir, de criticar, de desmontar aquilo frase por frase. Eu também faço isso. O humor tem uma função importante nesse debate porque ele produz estranhamento e cria uma pequena interrupção naquele discurso apresentado como ciência. A pessoa ri e, depois, pode começar a perguntar de onde saiu aquela teoria, qual evidência sustenta aquilo, quem está vendendo aquilo e por que alguém precisaria acreditar nisso para se sentir desejável. Existe uma segunda camada nessa história que merece muita atenção. Quem produz e comercializa esses conteúdos ocupa uma posição diferente de quem chega até eles procurando alguma resposta para a própria vida. São sujeitos diferentes, com responsabilidades diferentes e lugares diferentes dentro dessa cadeia. Uma pessoa pode passar meses sendo humilhada na escola, experimentar rejeição afetiva, ter poucos amigos, viver dentro de uma família marcada por violência, enfrentar pobreza, ter pouca educação sexual, pouca alfabetização em saúde mental, dificuldade de compreender determinadas regras sociais, características do neurodesenvolvimento ou outras vulnerabilidades psicossociais, entrar na internet procurando uma explicação para a própria solidão e encontrar alguém dizendo que finalmente descobriu a verdade sobre mulheres, sexo e masculinidade. Nesse momento, aparece uma coisa extremamente poderosa para qualquer ser humano vulnerável, uma explicação simples para uma experiência confusa. Matteo Botto e Lucas Gottzén, em uma pesquisa publicada no Journal of Gender Studies, encontraram justamente a vulnerabilidade como elemento central nas narrativas de jovens homens que entraram e posteriormente saíram da manosfera. A pesquisa analisou relatos de 30 homens que haviam se identificado como red pill e mostrou trajetórias nas quais vulnerabilidade, busca por pertencimento e desejo de encontrar uma explicação para experiências dolorosas aparecem conectados ao processo de radicalização. A manosfera pode oferecer uma espécie de abrigo psicológico para uma pessoa que chega carregando vergonha, rejeição e sensação de fracasso. Ela oferece linguagem, identidade, comunidade e uma narrativa capaz de organizar a experiência. Isso ajuda a compreender uma coisa muito importante. A misoginia encontra terreno fértil quando uma pessoa passa muito tempo sofrendo sem conseguir elaborar aquilo. O sofrimento procura explicações. A mente humana procura padrões, causas, culpados, grupos de pertencimento. Quando alguém diz a um menino que a vida dele seria diferente se ele tivesse um determinado rosto, uma determinada mandíbula, um determinado nível de testosterona, uma determinada técnica de abordagem, um determinado cheiro, uma determinada estratégia de comportamento, ele oferece uma sensação de controle. A complexidade da vida afetiva vira manual, a insegurança vira protocolo, a rejeição vira teoria e a solidão vira identidade. A situação fica ainda mais delicada quando lembramos que muitos desses meninos chegam a internet depois de experiências concretas de humilhação. Imagine um adolescente que passa anos sendo chamado de estranho, que é ridicularizado diante da turma, que tenta se aproximar de alguém e é rejeitado, que vive isolado, que sente vergonha do próprio corpo, que não sabe interpretar determinadas interações sociais e que volta para casa todos os dias com a sensação de que existe alguma coisa profundamente errada nele. Existe uma dor real nessa experiência. Pesquisas recentes mostram relações importantes entre bullying, solidão e sofrimento psicológico durante a adolescência. Um estudo nacional realizado na Dinamarca com mais de cinco mil adolescentes encontrou uma associação forte e graduada entre vitimização por bullying e solidão, com associação particularmente acentuada entre meninos. Pesquisas brasileiras também encontraram associação entre bullying, adversidades na infância e diferentes posições dentro do ciclo de violência escolar. (Katrine Rich Madsen et al. 2024) Pense agora em um menino que passa por uma situação de humilhação semelhante aquela que apareceu naquele vídeo que circulou nas redes: Uma menina arma um encontro, ele acredita que finalmente alguém está interessado nele, os colegas aparecem, seguram o menino, amarram o corpo dele e dão um banho nele. É uma cena de violência, humilhação e exposição. O menino pode sair daquela situação carregando vergonha, raiva, desconfiança e uma memória extremamente dolorosa sobre aquilo que significa se aproximar de alguém. Uma experiência assim pode se tornar matéria-prima para ressentimento. O ressentimento encontra comunidades que dizem compreender exatamente aquela dor. A comunidade oferece companhia, a companhia oferece linguagem, a linguagem oferece uma explicação e a explicação oferece um inimigo. É nesse ponto que a sociedade precisa prestar atenção. Existe uma diferença enorme entre compreender a trajetória psicológica de uma pessoa e absolver a violência que ela pratica. A compreensão permite intervenção e a responsabilização protege outras pessoas. As duas coisas precisam existir juntas. Uma sociedade que deseja reduzir violência precisa compreender como a violência se forma, quais experiências aumentam vulnerabilidade, quais crenças legitimam agressão e quais instituições conseguem interromper esse processo antes que ele se consolide. Emma Renström e Hanna Bäck encontraram evidências importantes nessa direção. Em uma pesquisa com homens suecos, maior acompanhamento de manfluencers esteve associado a maior desumanização das mulheres. Em experimentos, conteúdos apresentados por um manfluencer fictício aumentaram desconfiança em relação às mulheres e atitudes misóginas, especialmente entre participantes que percebiam ter experimentado rejeição feminina anteriormente. A percepção de ameaça à identidade masculina aparece como um mecanismo importante nessa relação. (Renström, E.A. et al. 2024). Isso produz uma combinação particularmente perigosa. A pessoa sofre uma experiência de rejeição, procura explicação, encontra um discurso que transforma rejeição individual em conflito entre homens e mulheres, passa a interpretar novas experiências através dessa lente e encontra milhares de outras pessoas confirmando a mesma narrativa. A experiência deixa de ser apenas uma experiência pessoal e ganha uma estrutura ideológica. A internet potencializa esse processo porque oferece algo que a vida presencial frequentemente não oferece a esses meninos, disponibilidade permanente de pares. Você pode passar o dia inteiro sem conversar com ninguém presencialmente e encontrar milhares de homens disponíveis para confirmar aquilo que você está sentindo. Você encontra alguém dizendo que também foi rejeitado, outro dizendo que mulheres são todas iguais, outro ensinando como modificar o rosto, outro vendendo um suplemento, outro prometendo uma estratégia para conseguir sexo, outro explicando por que feminismo seria responsável por sua solidão. A pessoa sente que finalmente encontrou um lugar onde alguém entende sua experiência. Esse mecanismo possui ainda uma dimensão econômica. A insegurança masculina pode ser monetizada. Debbie Ging, Catherine Baker e Maja Andreasen estudaram os sistemas de recomendação do TikTok e do YouTube Shorts e encontraram uma rápida amplificação de conteúdos misóginos e de manfluencers em contas experimentais voltadas para interesses de adolescentes e jovens homens. O estudo descreveu a passagem de conteúdos relacionados a masculinidade e solidão para conteúdos envolvendo misoginia, supremacismo masculino e narrativas de crise masculina. A pesquisa também chamou atenção para a monetização da insegurança masculina e para a possibilidade de conexão entre esse ecossistema e outros conteúdos extremistas. A plataforma aprende que determinado conteúdo prende atenção. O menino assiste. A plataforma recomenda algo semelhante. Ele assiste novamente. Surge um conteúdo mais intenso. Ele comenta. O sistema registra engajamento. Aparece outro. A indignação aumenta. A identificação aumenta. A frequência aumenta. A pessoa passa cada vez mais tempo dentro de uma realidade social construída pelo próprio sistema de recomendação. Um estudo conduzido por pesquisadores ligados à UCL e à Universidade de Kent encontrou aumento de quatro vezes na proporção de conteúdos misóginos recomendados em contas experimentais do TikTok ao longo de apenas cinco dias. A economia da atenção encontra uma vulnerabilidade psicológica e transforma essa vulnerabilidade em audiência. Por isso eu me preocupo quando a sociedade olha para esses meninos apenas através da lente da repulsa. A repulsa faz sentido diante da violência. A indignação faz sentido diante da misoginia. A proteção das mulheres precisa continuar no centro da discussão. Ao mesmo tempo, existe uma população masculina jovem vivendo experiências de solidão, rejeição, vergonha, fracasso e desamparo que precisa de cuidado, educação e pertencimento. E aqui aparece uma dificuldade enorme para a psicologia. Esses meninos frequentemente foram ensinados a interpretar ajuda como fraqueza, foram ensinados a resolver tudo sozinhos, a suportar sofrimento em silêncio. Foram ensinados que pedir ajuda diminui seu valor. Uma revisão sistemática publicada por Ayesha Sheikh e colaboradores identificou justamente a influência das normas masculinas, do autoestigma, da baixa informação sobre saúde mental e das preferências por formas específicas de ajuda entre adolescentes e homens jovens. Os autores também apontam a necessidade de estratégias de alfabetização em saúde mental culturalmente acessíveis e de formas de cuidado capazes de alcançar esse público. Gary Shepherd e colaboradores chegaram a conclusões semelhantes em uma revisão sobre as barreiras a psicoterapia. Identidade masculina, normas comportamentais e características dos próprios serviços psicológicos aparecem entre os fatores que dificultam a busca por atendimento. Os autores discutem a importância de comunidades masculinas, linguagem própria para falar sobre sofrimento e formas de cuidado que façam sentido para esses homens. Isso exige criatividade clínica e social. Talvez um menino que rejeitaria uma psicoterapia apresentada como tratamento para saúde mental aceite participar de um grupo sobre ansiedade social. Talvez aceite conversar sobre habilidades sociais. Talvez aceite um projeto esportivo, uma atividade comunitária, um grupo de homens, uma intervenção baseada em resolução de problemas, um serviço de orientação profissional, uma atividade presencial, um espaço de educação sexual, uma conversa sobre relacionamentos. Talvez a primeira porta de entrada seja um homem que ele respeite. Talvez seja um profissional que compreenda a linguagem desse universo. Talvez seja uma intervenção construída com os próprios meninos. O ponto fundamental é criar portas de entrada porque a manosfera já descobriu como fazer isso. Ela sabe receber o menino solitário, oferecer uma comunidade, falar uma linguagem direta. Sabe transformar vergonha em identidade, rejeição em narrativa e raiva em pertencimento. A sociedade precisa aprender a fazer melhor. Precisamos construir espaços em que um adolescente consiga dizer eu estou sozinho, eu fui humilhado, eu não sei conversar com mulheres, eu tenho vergonha do meu corpo, eu nunca beijei ninguém, eu tenho medo de sair de casa, eu sinto que todo mundo me odeia, eu fui vítima de bullying, eu não sei o que fazer com a minha raiva, eu tenho vergonha de procurar ajuda. Precisamos construir espaços onde essas frases encontrem adultos preparados para responder. A questão da manosfera passa pela violência de gênero, pela misoginia e pela responsabilização. Passa também por saúde mental, desenvolvimento humano, educação, pobreza, pertencimento, bullying, masculinidade, solidão, plataformas digitais e economia da atenção. É um fenômeno social complexo porque captura uma necessidade humana legítima, a necessidade de pertencer, e oferece a ela uma resposta profundamente destrutiva. Quando um menino encontra na internet uma comunidade que transforma sua dor em ódio, temos um problema. Quando esse menino encontra uma comunidade que consegue transformar sua dor em linguagem, vínculo, habilidade social, autonomia, amizade, trabalho, tratamento e participação no mundo, temos uma possibilidade de intervenção. É aí que eu quero que a conversa chegue. Porque existe um menino atrás daquele vídeo absurdo, um adolescente atrás daquela teoria ridícula sobre feromônios. Existe alguém que talvez tenha passado anos sendo chamado de estranho, ridicularizado, rejeitado, humilhado ou ignorado. Existe alguém que aprendeu a odiar porque o ódio foi a primeira linguagem social que finalmente lhe ofereceu pertencimento. Precisamos olhar para esse menino. Precisamos proteger as meninas. Precisamos responsabilizar quem produz violência. Precisamos compreender o mercado que transforma insegurança em dinheiro. E precisamos construir alternativas suficientemente boas para que pertencer deixe de depender de odiar alguém. Referências Botto, M., & Gottzén, L. (2024). 'Swallowing and spitting out the red pill: young men, vulnerability, and radicalization pathways in the manosphere.' Journal of Gender Studies, 33(5), 596–608. Ging, D., Baker, C., & Andreasen, M. (2024). Pesquisa sobre amplificação algorítmica de conteúdo misógino e supremacista masculino no TikTok e YouTube Shorts, Dublin City University Anti-Bullying Centre. Renström, E. A., & Bäck, H. (2024). 'Manfluencers and Young Men's Misogynistic Attitudes: The Role of Perceived Threats to Men's Status.' Sex Roles, 90, 1787–1806. Sheikh, A., Payne-Cook, C., Lisk, S., Carter, B., & Brown, J. S. L. (2025). 'Why do young men not seek help for affective mental health issues? A systematic review of perceived barriers and facilitators among adolescent boys and young men.' European Child & Adolescent Psychiatry, 34, 565–583. Shepherd, G., Astbury, E., Cooper, A., Dobrzynska, W., Goddard, E., Murphy, H., & Whitley, A. (2023). 'The challenges preventing men from seeking counselling or psychotherapy.' Mental Health & Prevention, 31, 200287. Madsen, K. R., Damsgaard, M. T., Petersen, K., Qualter, P., & Holstein, B. E. (2024). 'Bullying at School, Cyberbullying, and Loneliness: National Representative Study of Adolescents in Denmark.' International Journal of Environmental Research and Public Health, 21(4), 414. Reisen, A., Gomes, D. R., Viana, M. C., Bresciani Salaroli, L., & dos Santos Neto, E. T. (2024). 'Association between bullying, childhood adversities and social capital among adolescents.' Ciência & Saúde Coletiva, 29(7). Tietjen, R. R., & Tirkkonen, S. K. (2023). 'The Rage of Lonely Men: Loneliness and Misogyny in the Online Movement of 'Involuntary Celibates'.' Topoi, 42, 1229–1241. Sparks, B., & Papandreou, C. (2023). 'The manosphere and men's wellbeing: How healthcare can help young men find alternatives to toxic online spaces.' BMJ, 383, p2947.

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.