Nunca houve tantos jovens preocupados com a saúde, a boa forma e o desempenho físico. Academias lotadas, redes sociais repletas de influenciadores e uma infinidade de produtos prometendo mais energia, músculos e disposição fazem parte da rotina de milhões de brasileiros.
Mas, por trás dessa busca por performance, cresce também um comportamento que merece atenção: a adoção de hábitos que podem comprometer justamente o órgão responsável por sustentar toda essa vitalidade, que é o coração. Suplementos consumidos sem orientação
Uma pesquisa inédita da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) revela um dado preocupante: uma parcela expressiva da população utiliza suplementos alimentares sem sequer conhecer sua composição.
Entre os homens, 28% afirmaram consumir suplementos, mas disseram não saber exatamente o que esses produtos contêm. Outros 22% relataram utilizá-los e afirmaram saber que não possuem anabolizantes. Entre as mulheres, 16% disseram consumir suplementos sem conhecer sua composição e 10% afirmaram utilizar produtos que, segundo elas, não contêm substâncias anabolizantes.
É importante destacar que suplementos alimentares, quando indicados por profissionais habilitados e utilizados corretamente, podem fazer parte de uma alimentação equilibrada e de uma rotina esportiva saudável. Continua após a publicidade
O problema surge quando são consumidos sem orientação ou quando o usuário desconhece sua composição, especialmente diante da oferta de produtos de origem duvidosa ou adulterados, alguns contendo substâncias estimulantes ou até mesmo anabolizantes não declarados no rótulo. Energéticos: estímulo que sobrecarrega o coração
Outro dado da pesquisa chama atenção para um hábito cada vez mais frequente, principalmente entre os jovens: o consumo de bebidas energéticas. Continua após a publicidade
Entre os homens, 21% afirmaram consumir esses produtos e outros 21% disseram fazê-lo frequentemente. Entre as mulheres, 25% relataram consumir energéticos e 12% declararam uso frequente.
Embora sejam vistos como uma forma rápida de combater o cansaço ou aumentar o rendimento físico, os energéticos concentram altas doses de cafeína e outras substâncias estimulantes capazes de elevar a pressão arterial, acelerar os batimentos cardíacos e favorecer palpitações e arritmias. Em pessoas predispostas, essa sobrecarga pode desencadear eventos cardiovasculares graves.
O risco torna-se ainda maior quando essas bebidas são misturadas ao álcool, prática comum em festas e baladas. Enquanto o álcool exerce efeito depressor sobre o sistema nervoso central, o energético reduz a percepção da embriaguez. Continua após a publicidade
A falsa sensação de estar menos alcoolizado leva muitas pessoas a beberem mais, aumentando tanto o consumo de álcool quanto a sobrecarga imposta ao sistema cardiovascular. Cigarros eletrônicos em alta
Há ainda um terceiro comportamento que merece atenção. A pesquisa da Socesp identificou que 18% dos homens jovens e 14% das mulheres afirmaram utilizar cigarros eletrônicos, os chamados vapes.
Embora muitas pessoas ainda os considerem uma alternativa menos prejudicial ao cigarro convencional, as evidências científicas mostram que esses dispositivos também podem provocar aumento da pressão arterial, aceleração da frequência cardíaca, inflamação e disfunção dos vasos sanguíneos, alterações que favorecem o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Continua após a publicidade Infarto cada vez mais cedo
Nos últimos anos, tem-se observado um aumento das internações por infarto entre adultos mais jovens. Esse fenômeno não pode ser atribuído a um único fator, mas reforça a necessidade de olhar para um conjunto de comportamentos que vêm se tornando comuns nessa faixa etária.
Alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade, estresse, tabagismo, incluindo os cigarros eletrônicos, consumo excessivo de energéticos e uso indiscriminado de produtos para melhorar desempenho físico compõem um cenário que merece atenção. Continua após a publicidade Performance de verdade é constância, não atalho
O coração não mede a força pelos músculos, nem a saúde pela aparência. É possível exibir excelente condicionamento físico e, ao mesmo tempo, submeter o organismo a uma combinação de hábitos capazes de aumentar o risco cardiovascular.
Buscar qualidade de vida é um objetivo legítimo. Mas ela não será alcançada por atalhos. Antes de consumir suplementos, energéticos ou qualquer substância que prometa resultados rápidos, vale fazer uma pergunta simples: essa escolha fortalece meu coração ou apenas alimenta uma ilusão de desempenho?
A verdadeira performance não é aquela que impressiona por alguns minutos diante do espelho. É a que permite ao coração continuar batendo com saúde por muitos anos.
*Andrei Sposito, cardiologista e diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), e Pedro Senger, educador físico e coordenador do Departamento de Educação Física da SOCESP.
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