Há uma parte da entrada na universidade de que se fala pouco. Aquela de quando tens de sair da cidade onde moras e viver noutra cidade e, por vezes, noutro país.
Quase ninguém te prepara para chegares a casa depois de um dia inteiro rodeado de pessoas... e te sentires sozinho.
Para perceberes que podes estar a viver aquilo que sempre quiseste e, ainda assim, ter saudades da tua casa e da tua família, mesmo quando sentes que tens mais liberdade.
Podes conhecer pessoas novas e sentir falta das de sempre. Podes estar entusiasmado de manhã e querer voltar para casa à noite. E não, isso não significa que fizeste a escolha errada. Significa que estás a passar por uma mudança.
Deixas para trás rotinas, relações, hábitos, espaços e referências que te davam segurança e passas a construir uma nova sensação de pertença. E o cérebro não se adapta a isto de um dia para o outro.
É natural que exista uma espécie de 'luto' pela vida que ficou para trás, mesmo quando sabes que esta mudança pode ser temporária. Pela família. Pelos amigos. Pela rotina. Pela sensação de saber onde pertences.
E há outro lado desta mudança de que também se fala pouco. A culpa. A culpa de estares longe. De não estares presente para os teus pais como estavas antes. De não saberes exatamente o que se passa em casa. De perderes pequenos momentos do dia-a-dia que antes pareciam insignificantes: um jantar, uma conversa na cozinha, uma ida às compras, aquele "como correu o teu dia?" no final da tarde.
E, às vezes, podes sentir que estás a falhar com a tua família. Enquanto tu estás a conhecer uma cidade nova, a estudar, a sair, a conhecer pessoas e a construir uma vida tua, podes pensar: "E se eles precisarem de mim e eu não estiver lá?" Ou: "Estou aqui a viver a minha vida e eles continuam lá sem mim." E essa sensação pode transformar uma conquista em culpa.
Podes sentir-te ingrato por teres saudades de casa quando, ao mesmo tempo, sabes que tiveste a oportunidade de ir estudar para aquilo que querias. Podes pensar que não tens "direito" a estar triste porque, afinal, era isto que querias.
Mas querer uma coisa não significa não sofrer com aquilo que ela implica. É possível estar feliz por uma oportunidade e triste pelo que tiveste de deixar para trás. As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
Também podes sentir que já não acompanhas a vida da tua família da mesma forma. Enquanto antes sabias quem tinha ido ao supermercado, o que aconteceu no trabalho, quem ligou, o que se passou ao jantar, agora recebes essas histórias por mensagens ou chamadas.
E pode surgir uma sensação estranha de estar a ficar de fora da própria família. Como se a vida continuasse a acontecer sem ti.
E talvez uma das coisas mais difíceis seja perceber que, pela primeira vez, não consegues estar em todo o lado. Não consegues ser o filho ou a filha que está sempre disponível. Não consegues acompanhar todos os problemas. Não consegues ajudar sempre. E aprender isto também faz parte de crescer.
Porque sair de casa não significa deixar de fazer parte da tua família. Significa começar a pertencer a dois lugares diferentes. E isso pode ser emocionalmente confuso.
Podes sentir saudades e, quando finalmente voltas a casa, sentir vontade de voltar para a tua nova cidade. Podes querer estar com a tua família e, ao mesmo tempo, sentir falta da tua independência. Podes desejar que nada tivesse mudado e, simultaneamente, perceber que já não queres voltar exatamente à vida que tinhas antes.
E isso não faz de ti egoísta. Faz de ti alguém que está a crescer.
Porque crescer também é aprender que amar alguém não significa estar sempre presente fisicamente. Que cuidar não significa resolver tudo. Que estar longe não significa abandonar. E que construir a tua própria vida não é uma traição à vida que a tua família construiu contigo.
Aliás, talvez uma das tarefas mais difíceis desta fase seja precisamente esta: aprender a sair sem sentir que estás a deixar alguém para trás.
E há ainda uma solidão particularmente difícil de explicar. Aquela que ninguém vê quando estás rodeado de pessoas.
Podes estar numa sala cheia e continuar a sentir que ainda não encontraste "as tuas pessoas". Podes participar, conversar, sair, rir... E chegar ao quarto e pensar: "Porque é que ainda não me sinto em casa?"
Porque pertencer não é o mesmo que estar acompanhado. É sentir que podes ser tu próprio, que és conhecido, que tens espaço e que existe alguém a quem podes ligar quando o dia corre mal. E isso constrói-se com o tempo.
Aliás, uma das armadilhas desta fase é comparares o teu processo com o dos outros. Vês colegas que parecem ter feito amigos no primeiro dia. Que já conhecem a cidade. Que saem todos os fins de semana. Que parecem estar completamente adaptados. E podes começar a pensar: "Só eu é que ainda me sinto assim?" Não. Não és o único. Nem existe um prazo para começares a sentir que pertences.
Por isso, se este for o teu primeiro ano longe de casa, talvez não precises de te exigir uma adaptação rápida. Talvez precises de te permitir pensar: "Estou a aprender a viver uma vida nova."
E aprender implica tentativa, erro, desconforto, saudade e, às vezes, solidão. Não estás atrasado. Não estás a falhar na universidade. Não estás a falhar com as tuas pessoas. E não precisas de transformar os primeiros meses numa prova de que escolheste bem.
Estás simplesmente a construir, pela primeira vez, um lugar que ainda não sentes completamente teu. E isso leva tempo.
Talvez o primeiro ano longe de casa não seja apenas sobre aprender a viver sozinho. Seja também sobre aprender que podes estar longe sem deixar de pertencer. E que crescer não é deixar de precisar de casa. É começar, aos poucos, a descobrir que também podes construir uma.
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