Vitória da AfD "importante" para o Chega. Derrota de partidos do sistema dá esperança a Ventura

Vitória da AfD "importante" para o Chega. Derrota de partidos do sistema dá esperança a Ventura
View on original source
Category: Politics
Share
Archive
Like
O Chega acredita que a vitória regional da AfD na Alemanha é mais um sinal de que os ventos estão a mudar na Europa, num resultado que dá esperança a André Ventura de vir a bater de forma expressiva os partidos tradicionais em Portugal. O líder do Chega disse ao Observador que o 'resultado histórico' do partido alemão no Estado da Saxónia-Anhalta é 'a prova de que hoje há problemas comuns aos vários países europeus' e que 'se deixarmos os partidos do sistema continuarem a governar será um descalabro'. Diogo Pacheco Amorim — ideólogo do partido e dirigente que durante vários anos foi o responsável máximo para as relações internacionais — defende que o resultado é 'importante' para o Chega, tendo em conta que o mesmo foi conseguido com duas bandeiras que unem AfD e Chega: imigração e corrupção. O também vice-presidente da Assembleia da Repúblicaa acredita que se vai iniciar agora um 'ciclo eleitoral a nível mundial que vai mostrar muita coisa' e que oferecerá ao Chega 'dados' relevantes para avaliar os próximos passos. E há mais ensaios a caminho que servem de oráculo político para o Chega. Primeiro haverá eleições noutros Estados alemães, depois as presidenciais no Brasil, seguem-se as midterms nos EUA e 'tudo isto culminará com as eleições em França'. 'É um circuito que vai dizer muita coisa a nível mundial', antecipa. Diogo Pacheco Amorim defende que este pode bem ser 'o primeiro passo para consolidar' a AfD a nível nacional. Não só o justifica com as sondagens que colocam o partido liderado por Alice Weidel em primeiro lugar, como também questiona se Friedrich Merz, atual chanceler da Alemanha, tem condições para 'aguentar' e esperar pelas eleições de 2029, tendo em conta que a União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU) 'está a perder apoio' e a cair nas pesquisas. O Chega, liderado por André Ventura, também já venceu quatro distritos em legislativas (o sistema português não é federal e não tem eleições regionais), mas falta-lhe o salto para uma vitória nacional. Que a AfD também procura. Mesmo com as boas notícias vindas da Alemanha, Pacheco Amorim antecipa um 'processo complicado' na formação do governo regional. Aliás, esta é muitas vezes a questão que se levanta dentro do próprio Chega quando se aborda o tema de uma possível vitória eleitoral. Sem uma maioria absoluta, quem poderia dar a mão ao Chega numa coligação quando os partidos vão mantendo as linhas vermelhas? E mesmo quando estas parecem cair, há sempre a justificação de que existem apenas negociações parlamentares. A tese que Ventura vai alimentando, mesmo quando vai sendo questionado em períodos eleitorais, é que o partido que vence deve ser o líder do Governo, pelo que, se vencesse, não abdicaria do lugar de primeiro-ministro. E, na verdade, o partido sempre ambicionou substituir o peso do PSD no espetro político mais à direita. Se é verdade que Ventura tentou, na primeira vitória de Montenegro, entrar no Governo, também é que assegurou que nunca seria o número dois de um primeiro-ministro social-democrata se fosse o Chega a ficar em primeiro. O que é certo é que, desde o primeiro minuto, Ventura tentou capitalizar a vitória da AfD. Ainda o resultado estava por fechar e já André Ventura publicava uma fotografia ao lado de Alice Weidel, presidente do partido de extrema-direita alemão, e festejava o resultado: 'A AfD teve hoje uma vitória histórica . Ainda não sabemos se há ou não maioria absoluta, mas também os alemães estão a abrir os olhos contra a imigração ilegal e descontrolada, a corrupção e a captura da nossa liberdade e identidade. Parabéns!' AfD tem postura pós-Rússia que Ventura sempre recusou Uma das questões que se levanta sobre o assumir de vitória por parte do Chega prende-se com a postura da AfD relativamente a Putin, já que o partido alemão é bastante pró-Rússia. O partido pretende interromper o envio de ajuda militar à Ucrânia, mas também suspender as sanções a Moscovo e voltar a comprar energia ao país liderado por Putin. No rescaldo do resultado eleitoral, Alice Weidel fez questão de se focar na ideia de 'diplomacia', argumentando que o partido sempre criticou que a postura da UE: 'Quando falamos da Ucrânia, precisamos de um canal aberto com a Rússia para chegar a um acordo e alcançar uma solução pacífica.' 'Precisamos de boas relações não só com a Rússia, mas sobretudo com os Estados Unidos', prosseguiu a líder da extrema-direita alemã, numa referência à viagem dos enviados norte-americanos a Moscovo e Kiev para apresentar uma proposta de paz. Aos olhos de Weidel, este é um 'um papel que a Alemanha poderia ter desempenhado'. O posicionamento dos vários partidos de direita radical e extrema-direita sobre a guerra da Ucrânia foi um dos pontos de discórdia nos últimos anos. Mas o Chega rapidamente se posicionou ao lado da Ucrânia, bem como o Vox e até o Fratelli d'Italia, mas Marine Le Pen e Matteo Salvini, que não esconderam no passado ser próximos de Putin e da Rússia, acabaram por ter posições ambíguas sobre a invasão — o que obrigou os partidos irmãos a terem de se justificar em diferentes ocasiões. Agora, Pacheco Amorim volta a assumir que 'há coisas em que estamos em desacordo com a AfD, mas há duas coisas essenciais: os limites à imigração e a corrupção'. O dirigente entende que o que se está a passar na Europa é 'incomportável' e que é imperativo colocar-se um 'travão sólido'. E, nisso, elogia o partido alemão de extrema-direita: 'A AfD defende-o e defende-o bem.' E não esquecendo que há uma 'divergência' e um 'desacordo' entre Chega e AfD relativamente à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Pacheco Amorim resume: 'Não vamos pôr barreiras e linhas vermelhas a partidos que estão próximos de nós.' Noutras situações, Ventura continuou a manter relações próximas com Le Pen e Salvini, mas foi assegurando, nas mais diversas circunstâncias, que o Chega está 'inequivocamente ao lado da Ucrânia nesta guerra'. Agora, apesar disso, não deixa de festejar a vitória na Alemanha, ignora os temas que separam os dois partidos e sublinha com toda a força as bandeiras que os unem: imigração e corrupção — deixando claro que essa vai continuar a ser a linha seguida pelo partido. Até porque está a ter resultados noutros países. AfD criou problemas no passado Ainda que, como descreve Diogo Pacheco Amorim, este resultado seja 'motivo de festejo' para o Chega, o partido de André Ventura não tem, nos últimos anos, alinhado sempre ao lado da AfD, um partido de extrema-direita que tem demonstrado ser mais radical — e que acabou até por espoletar uma rutura no ID (Partido Identidade e Democracia). É preciso recuar a 2024 para recordar o momento em que o cabeça de lista da AfD às eleições europeias, Maximilian Krah, disse uma entrevista ao jornal italiana La Repubblica, que 'jamais diria que só porque alguém usou um uniforme das SS' é 'automaticamente um criminoso'. Acabou a demitir-se da cúpula do partido e a afastar-se de todas as ações de campanha do partido, mas não foi suficiente. Ventura considerou 'errada' a declaração do eurodeputado alemão, mas afastou a possibilidade de mudar de grupo europeu. Além disso, também assumiu que é impossível 'concordar a 100%' com o que todos os partidos de um grupo político dizem. Porém, a situação viria mesmo a alterar a conjuntura no Parlamento Europeu. O episódio polémico foi a gota de água dentro do ID e levou União Nacional francesa, cujo cabeça de lista era Jordan Bardella, a entrar em rota de colisão com a AfD dentro da família política: 'Não nos vamos sentar com eles durante o próximo mandato no Parlamento Europeu', assegurou a assessoria do partido francês na altura. Além da União Nacional, nessa altura também a Liga italiana e o partido dinamarquês Partido do Povo rejeitaram a presença da AfD, com Marine Le Pen a sublinhar que era 'urgente estabelecer um cordão sanitário' ao partido alemão. E assim foi: a AfD acabou expulsa do ID. Poucos meses depois, o próprio ID acabaria por desaparecer quando alguns partidos mudaram para os Conservadores e Reformistas Europeus e outros formaram o novo grupo Patriotas pela Europa — onde André Ventura decidiu que o Chega seria integrado. Já a AfD criou um novo grupo intitulado Europa das Nações Soberanas. De um momento para o outro, o hemiciclo à direita alterou-se por completo.

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.