Existe uma ideia que se espalhou muito na internet nos últimos anos: se você quer liberdade, precisa empreender.
Se quer ganhar mais, empreenda.
Se quer ter controle da própria vida, empreenda.
Se odeia seu trabalho, empreenda.
Se quer provar que é ambicioso, empreenda.
Em algum momento, trabalhar para alguém passou quase a ser tratado como sinal de falta de coragem. Como se existissem apenas duas possibilidades: ou você constrói uma empresa, ou aceitou viver uma vida medíocre.
Eu não penso assim, e quanto mais tempo passo empreendendo, mais tenho certeza disso.
Empreender pode ser uma ferramenta extraordinária para construir autonomia. Mudou a minha vida em vários sentidos e continua sendo um caminho que me interessa profundamente.
Mas existe uma diferença enorme entre defender empreendedorismo e transformar empreendedorismo em uma espécie de superioridade moral.
Você não precisa ter CNPJ para assumir responsabilidade pela própria vida.
Na verdade, conheço empreendedores que terceirizam para o mundo tudo o que acontece com eles e conheço funcionários que possuem um nível de responsabilidade sobre a própria trajetória que muita gente que se chama de empresário nunca teve.
O ponto nunca foi o modelo de trabalho, é quem está segurando o volante.
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Durante muito tempo, empreender parecia uma coisa distante. Algo reservado a quem tinha dinheiro, família empresária, uma grande ideia ou disposição para assumir riscos enormes.
A internet democratizou bastante esse caminho.
Hoje alguém pode aprender uma habilidade, começar a prestar um serviço, vender pela internet, construir audiência e criar um negócio com muito menos capital inicial.
Isso é fantástico, o problema começa quando uma possibilidade vira uma obrigação.
De repente, não basta você estar construindo uma boa carreira, precisa ter seu próprio negócio.
Não basta ter uma renda boa, precisa faturar 6 dígitos.
Não basta gostar do seu trabalho, você deveria estar buscando 'liberdade'.
E liberdade, curiosamente, quase sempre significa abrir uma empresa, vender alguma coisa online e postar uma foto trabalhando de um lugar bonito.
A caricatura chegou a um ponto em que algumas pessoas começam a se sentir atrasadas simplesmente porque têm um emprego.isso é estranho.
Porque o objetivo deveria ser construir uma vida melhor e não cumprir a checklist de um influenciador.
Uma pessoa pode trabalhar CLT e estar tomando decisões extremamente conscientes sobre a própria vida, ela pode escolher uma empresa porque sabe quais habilidades quer desenvolver.
Pode aceitar ganhar menos temporariamente para trabalhar ao lado de pessoas melhores.
Pode estudar fora do expediente, pode investir parte da renda, pode cuidar da saúde, pode trocar de emprego estrategicamente, pode aprender a vender, pode desenvolver uma reputação, pode decidir que gosta de estabilidade e construir uma vida excelente dentro disso.
Isso é responsabilidade.
Do outro lado, alguém pode abrir uma empresa porque viu meia dúzia de vídeos na internet, passar dois anos sem aprender finanças, reclamar dos clientes, culpar funcionários, não conseguir organizar o próprio calendário e chamar toda dificuldade de 'problema do mercado'.
Ter empresa não produz maturidade automaticamente, às vezes apenas amplifica aquilo que já estava ali.
Talvez 'autonomia' ainda nem seja a palavra certa, eu gosto mais de pensar emautoria.
Assumir responsabilidade pela própria vida significa começar a tratá-la como alguma coisa que você está escrevendo, não simplesmente assistindo acontecer.
Você olha para o trabalho e pergunta:
'Eu escolhi continuar aqui ou apenas nunca tomei a decisão de sair?'
Olha para sua situação financeira:
'Estou construindo alguma coisa ou só esperando ganhar mais?'
Olha para a saúde:
'Existe alguma atitude básica que venho adiando há meses?'
Olha para o próprio conhecimento:
'Estou aprendendo deliberadamente ou apenas consumindo coisas interessantes?'
Olha para a internet:
'Estou usando isso como ferramenta ou deixando que ela decida onde minha atenção vai todos os dias?'
Essas perguntas não exigem uma empresa.
Exigem consciência e, às vezes, coragem.
Tem gente que usa a ideia de liberdade para fugir de qualquer estrutura.
Não quer chefe, horário, cobrança, rotina, prestar contas e só fazer aquilo que gosta. Você acha que é liberdade esse tipo de pensamento, mas pode ser você apenas não querer ter responsabilidade. Pode até entrar na questão de relacionamento o mesmo problema, mas não quero entrar nesse assunto agora.
Mas pode ser simplesmente dificuldade de lidar com responsabilidade, porque empreender não elimina essas coisas. Em muitos casos, multiplica.
Você não tem um chefe, mas tem clientes, salários, imposto, prazos rotina etc.
E ninguém vai aparecer na sexta-feira para depositar seu salário só porque você trabalhou muito naquela semana.
A autonomia que eu admiro não é 'ninguém manda em mim'.
É:
eu consigo mandar em mim mesmo.
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A internet também criou uma pressa estranha.
Parece que você deveria monetizar imediatamente qualquer habilidade que aprende, mas ser pago para aprender dentro de uma boa empresa pode ser uma das melhores oportunidades possíveis.
Você tem acesso a:
problemas reais;
clientes reais;
profissionais melhores que você;
ferramentas;
processos;
dinheiro da empresa sendo colocado em risco;
feedback;
experiência.
E ainda recebe salário.
Dependendo do momento da vida, isso pode ser muito mais inteligente do que tentar abrir uma empresa sem habilidade, sem capital, sem relacionamento e sem entender o mercado.
Eu gosto muito da ideia de construir algo próprio, mas não acredito que você precise começar pelo fim.
Primeiro, fique bom em alguma coisa, entenda como empresas funcionam.
Aprenda a lidar com pessoas, venda algo, erre, observe e principalmente construa repertório.
Depois você decide o que fazer com aquilo.
Talvez abra uma empresa ou vire um excelente executivo, talvez construa um projeto paralelo, o interessante é ter opções.
E tem um ponto importante que é a responsabilidade com o dinheiro.
Responsabilidade pessoal fica muito abstrata quando não chega na conta bancária.
Você não precisa querer ficar milionário, mas precisa entender que sua situação financeira influencia profundamente o nível de liberdade que você possui.
Ter uma reserva muda sua capacidade de dizer não.
Ter uma habilidade valorizada muda sua relação com um emprego ruim.
Ter dívidas muda suas opções.
Aumentar sua renda muda suas opções.
Aprender a gastar menos do que ganha muda suas opções.
Por isso, assumir responsabilidade também significa parar de tratar dinheiro como alguma coisa que simplesmente acontece conosco.
A pergunta continua sendo:
qual parte disso ainda está sob meu controle?
Essa é uma pergunta muito estoica, embora você não precise ler os estoicos para entender sua força.
Não controlamos o terreno inteiro, mas precisamos jogar bem com as cartas que temos.
Tem uma frase comum no desenvolvimento pessoal que diz algo próximo de 'ninguém vai te salvar'.
Eu entendo a intenção, mas acho que ela costuma ser usada de uma maneira meio adolescente.
Nós precisamos de outras pessoas.
Precisamos de família, amigos, professores, colegas, parceiros, médicos, mentores.
Somos extremamente dependentes uns dos outros, responsabilidade pessoal não significa construir uma fortaleza e decidir que você não precisa de ninguém.
Significa apenas não entregar a outra pessoa a responsabilidade final pelas decisões que são suas.
Você pode pedir conselho, mas escolhe.
tudo ainda continua sendo sua vida. Essa distinção é importante!
Por muito tempo, eu associei maturidade a saber mais e hoje tenho cada vez mais a impressão de que ela tem muito mais relação com assumir.
Assumir escolhas, consequências. assumir que algumas coisas deram errado porque você tomou uma decisão ruim, que existem coisas que não sabe.
Porque, quando tudo é culpa de alguma coisa externa, você também entrega para aquilo o poder de mudar sua situação.
Eu continuo acreditando muito em empreendedorismo. Para algumas pessoas, provavelmente será uma das melhores decisões da vida.
Pode aumentar renda, criar autonomia, construir patrimônio.
Mas eu quero que o Atlas seja um lugar onde podemos defender tudo isso sem precisar dizer que esse é o único caminho digno.
A pergunta é a mesma:
você está escolhendo a direção da sua vida ou apenas seguindo a direção que apareceu?
É isso que me interessa.
Não formar uma geração inteira de empreendedores.
Mas uma geração de pessoas capazes de pensar, escolher, construir e assumir responsabilidade pelas consequências dessas escolhas.
Algumas vão abrir empresas.
Outras não.
E está tudo bem.
Porque o objetivo nunca deveria ser parecer empreendedor.
O objetivo é conseguir olhar para a própria vida e reconhecer alguma autoria nela.
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