Na última quinta-feira, eu e meu marido recebemos um convite da CHANEL para conhecer, na Pinacoteca, a abertura deBandeira Branca, obra de Luana Vitra.
Levei meus dois enteados, de 7 e 9 anos. Horas antes, escrevi para Sofia Quebradas, da CHANEL: 'hoje irei com meu alter ego Kinder Ovo!'.
Adoro levá-los para ambientes de arte e faço isso desde que eles entraram na minha vida. Talvez eu esteja replicando um pouco do que minha mãe fazia comigo e com meus irmãos quando éramos pequenos. É bem verdade que levou algum tempo até gostarmos, mas gosto de pensar que alguma coisa daqueles programas ficou, no mínimo, no subconsciente. Uma semente, um repertório, uma maneira de olhar que talvez só apareça muitos anos depois, ainda que a gente não se dê conta.
Por isso, há algo que me parece especialmente importante em colocá-los ali, tão pequenos, diante da arte que está sendo produzida agora, mesmo que ainda não tenham instrumentos para compreendê-la. Afinal, se estamos falando do nosso tempo e do mundo que estamos construindo, talvez ninguém naquela sala tenha mais direito a esse encontro do que quem vai herdar tudo isso.
Mas confesso que havia ainda uma outra coisa que estava me divertindo particularmente naquela noite: levar duas crianças para um ambiente tão adulto. É quase como fazer um risco numa superfície muito bem composta, introduzir alguma ludicidade e espontaneidade, desarmar um pouco a solenidade das coisas.
(você pode ler tudo isso enquanto canta mentalmente 'I believe the children are our future')
Acho que eles nunca tinham ido à Pinacoteca à noite, entraram naquele salão com a velocidade e a espontaneidade das crianças e o espanto de dois seres humanos ainda tão pequenos diante de seres humanos tão grandes, arrumados e de uma arquitetura tão grandiosa. Adoro flagrar esse instante em que ficam embasbacados com alguma coisa que ainda não sabem muito bem como nomear.
E lá foram eles, passeando por entre tweeds impecáveis. Difícil escolher o mais belo, mas Gabriella Bartelle estava com um de onça de cair o queixo.
Meu enteado, de calça jeans levemente pantalona, New Balance, jaqueta jeans de gola levantada e seu penteado assinatura; ela, com um pulôver de cachorrinhos e rabo de cavalo, sem dar qualquer indício da mocinha que, ao chegar à minha casa, tem como primeira providência calçar o meu par de botas brancas da CHANEL.
Ao redor, champagne Louis Roederer, caviar, salmão, blinis.
Mas, antes de entrar na obra, acho que vale entender por que estávamos todos ali.
Em 2021, a CHANEL criou o CHANEL Culture Fund, uma iniciativa global da Maison para apoiar artistas, ideias e instituições culturais. Uma de suas frentes são os CHANEL Art Partners: parcerias de longo prazo com instituições ao redor do mundo para criar programas que ofereçam espaço, recursos e interlocução para novas práticas artísticas.
No Brasil, essa conversa chegou à Pinacoteca em 2025 e, para quem não é de São Paulo, ou nunca entrou naquele prédio, a Pinacoteca, carinhosamente chamada de Pina, foi fundada em 1905 e é o museu de arte mais antigo da cidade, uma instituição que atravessou mais de um século guardando, estudando e apresentando arte brasileira e que hoje ocupa três edifícios no centro de São Paulo.
CHANEL e Pinacoteca criaram uma residência anual dedicada a mulheres artistas. A primeira escolhida foi Juliana dos Santos, e a segunda é Luana Vitra.
Por residência, leia-se: não se trata simplesmente de financiar uma exposição já concebida. Existe um período de pesquisa e desenvolvimento, com mentoria dedicada por meio da rede internacional CHANEL Art Partners e estrutura para experimentar, trocar e aprofundar uma prática.
Ou seja, aquilo que encontramos pronto no museu é só a parte que se torna visível de um processo muito maior, e foi desse processo que nasceuBandeira Branca. De mãos dadas, entramos no Octógono para conhecê-la.
O nome já entrega um pouco da arquitetura: é o grande vazio de oito lados no coração do edifício histórico da Pinacoteca. Não é aquela sala branca e silenciosamente neutra que tantas vezes associamos a um museu, mas um espaço monumental, vertical, atravessado pela própria arquitetura do prédio, que permite que uma obra seja vista de diferentes alturas e perspectivas.
EBandeira Brancaocupa justamente esse vazio. Confesso que precisei de um pouco mais de tempo (bem mais do que aquela noite)e de algum repertório sobre Luana para começar a entender o que estava diante de mim.
Ela cresceu em Minas Gerais, vendo natureza e mineração praticamente lado a lado. Quando se tornou artista, passou a trabalhar justamente com matérias vindas da terra, como ferro, cobre e minerais, e a pensar não apenas no que elas são fisicamente, mas no que nós, seres humanos, fazemos por causa dessas matérias.
ParaBandeira Branca, Luana escolheu as chamadas 'terras-raras', um grupo de 17 elementos químicos metálicos que, por suas propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas, aparecem em pequenas quantidades em uma enorme variedade de tecnologias, como celulares, computadores, telas, carros elétricos, turbinas eólicas, lasers, equipamentos médicos e até sistemas militares e de defesa.
Ou seja: elementos retirados da terra que são essenciais para muitas das tecnologias mais avançadas do nosso tempo. E aí aparece uma primeira contradição.
Aquilo que imaginamos como 'futuro', cada vez mais digital, tecnológico, aparentemente imaterial, continua dependendo de uma coisa antiquíssima: cavar a terra e retirar matéria dela.
E, justamente porque esses minerais são estratégicos, controlá-los significa também deter poder, e aí vem uma segunda camada.
Luana olha para trás e nos lembra que matéria, poder e guerra sempre estiveram ligados. Ela usa a pólvora como exemplo: seu domínio ajudou a determinar quem conquistava quem e, portanto, participou do desenho colonial do mundo que herdamos.
Se algumas matérias ajudaram a desenhar o mundo em que vivemos, quais participarão do desenho do mundo que ainda vamos herdar? Hoje, as terras-raras já estão no centro dessa disputa.
E então Luana transforma toda essa reflexão em uma imagem surpreendentemente simples: uma arma tensionada e uma bandeira branca.
A flecha aponta para a bandeira, mas não chega a tocá-la. Haverá ataque? Trégua? Não sabemos. A obra inteira parece existir nesse 'ainda não', uma espécie de 'trégua provisória'.
E foi só então, entendendo um pouco mais de onde Luana partia, que consegui olhar para aquele enorme arco suspenso no Octógono de outra maneira, não com respostas, mas com perguntas que eu não tinha quando entrei na noite de quinta.
Não sei onde as perguntas terminam e menos ainda as respostas, mas gosto que a arte não me peça que saiba. Durante a noite, Verena Figueiredo me perguntou: 'o que é arte em um tweet?'
Prolixa como sou, pedi uns minutos e respondi o que ali me ocorria: arte é salvação, à la Srur.
Agora, depois de passar alguns dias pensando no que vi, talvez eu arrisque: arte é o que nos deixa uma pergunta que continua existindo depois que a obra termina.
E talvez cultura também seja isso: coisas que encontramos antes mesmo de termos linguagem para compreendê-las e que permanecem em algum lugar dentro de nós até que, anos depois, ou talvez nunca, encontrem uma forma.
Talvez seja por isso que faça tanta diferença criar condições para que a arte do nosso tempo exista, não sabemos exatamente quem ela vai atravessar, o que vai provocar, nem o que permanecerá dela.
Mas alguma coisa permanece. Às vezes uma obra, às vezes uma pergunta, às vezes apenas um olhar que, sem percebermos, já não é exatamente o mesmo de antes.E aí volto àquelas duas crianças que entraram comigo na Pinacoteca. Não faço ideia do que entenderam daquela noite, certamente muito pouco. Eu também entendia muito pouco quando minha mãe fazia o mesmo comigo. Talvez isso nem importe ainda.
Obrigada, CHANEL, pelo convite e por contribuir para que a arte do nosso país, do nosso tempo, encontre espaço para existir e permanecer.
À Pinacoteca, por seguir sendo esse lugar de encontro entre o que já construímos e aquilo que ainda estamos tentando compreender.
E à Luana, sobretudo, por colocar novas perguntas no mundo.
(0)Comments