Um dia na vida

Um dia na vida
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Category: Entertainment
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A votação decidiu que sim. Devo continuar a história de Flora, a minha golpista. Pode ser que você não tenha lido a primeira parte, então deixo aqui embaixo o link. Porque é importante começar do começo, não é mesmo? Confesso que quero pensar como em uma série de TV aberta, com aquela fórmula que serve tanto ao expectador casual, quanto ao que acompanha todos os episódios. A tentativa é de que as histórias façam sentido sozinhas, mas ganhem corpo juntas. É uma missão que vocalizo em voz alta, até pra ouvir o feedback dos editores: vocês! ADULTA AOS 16 ANOS Vamos para a sequência? Acordar pode parecer uma missão complexa para adolescentes vagabundos, mas não para mim. Aos 16 enxergo objetivos bastante claros, guiada pela. visão do meu pai. Acordava cedo porque precisava de uma hora para sair para a escola perfeita. Logo pela manhã, banho, alguns cremes, a mistura de dois perfumes para criar uma assinatura única. Checava meus sapatos, que deveriam estar perfeitos. Era algo bastante importante. Todo o material correto do dia, um lanche sem cheiro. Atum, jamais. Comer em público é um manifesto. Mostra aquilo que você é, escolhe. Seu controle e educação. Tiana preparava minha demanda diária que incluía um leve sanduíche de queijo branco sem casca, embalado em papel manteiga. Nada de papel alumínio. Aquele plástico peguento me dá arrepios. Para acompanhar, uma água de coco em garrafinha de vidro. Tenho pavor de embalagem longa-vida. De sobremesa um iogurte natural e em pequenos compartimentos frutas vermelhas e uma colher de mel, especificamente de laranjeira. Talheres e um guardanapo de tecido. Me organizava sozinha, desde meus 12 anos. Meu pai não acordava nesse horário. Minha mãe sim. Rapidamente aprendi que queria ser quem dormia até as 11 da manhã, e jamais esta mulher que madrugava e enchia uma vasilha com cereal cheio de açúcar que eu jamais toquei. Aos finais de semana registrava com precisão os passos do meu pai. Desde quando saia da cama, tomava seu banho, se perfumava. Escolhia uma roupa especial para todo e qualquer dia. Revisava seus sapatos que tinham que estar perfeitos, porque todos olhavam os sapatos do outro para entender se deviam ou não ser respeitados. Ele era perfeito. Na escola ficava cada dia mais claro que eu vivia em outra sintonia. Enquanto alguns queriam bagunça, outros estudavam e poucos queriam se diferenciar da maioria vestindo roupas realmente ultrajantes. Camisetas ridículas, com frases e bandas que ninguém conhecia. Eles enviavam uma mensagem muito errada para o mundo. De que eram estúpidos o bastante para serem outdoors ambulantes, manipulados. Eu não. Listras no máximo. Variando entre as cores bege, branco e preto. Vermelho pontualmente. Jamais batom. Sempre base. Cedo para usar maquiagem? O segredo é jamais parecer maquiada, nunca… Nem com 16, nem com 70. O que é inaceitável é ostentar espinhas como medalhas pela produção recente de hormônios. Adequada. Solitária. Inteligente e reservada. Não desenvolvia laços, porque teria que explicar tantas coisas. Poucas meninas da minha idade tinham interesse em se relacionar com alguém que jamais aceitaria estar bêbada numa festa do pijama. Era isso que elas chamavam de diversão. Roubar um resto de garrafa da vodka e misturar no milkshake de morango para assistir A Lenda de Billy Jean. Aos 12 anos fui em uma festa dessas. Claro que a bebida ainda não estava nos planos. Era coisa de comer Fruit Loops com sorvete de creme. O que por si só era uma pista do quanto ridícula era a proposta da reunião. Meu pijama, em tecido e botões era completamente diferente das versões ridículas de pelúcia que as outras meninas vestiam. Eu jamais estaria nesta festa, mas minha mãe fez questão, porque era aniversário da Lucia, filha de uma amiga dela da yoga. O mais assustador desta noite não foram as tentativas de simularem as coreografias do Show da Xuxa. Foi quando a Juliana me acordou com lágrimas nos olhos e pediu para dormir comigo. Não éramos íntima, mas aceitei. Elas entrou para debaixo da coberta e pediu para segurar as minhas mãos. Então falou: - Ele entrou aqui e passou a mão em mim. Minha boca secou, meu coração acelerou. Ela seguiu: - Estou com muito medo dele voltar. Posso ficar aqui com você? Eu disse que sim. Eu não consegui dormir. Fiquei de olhos abertos no escuro, a espera deste homem que Lucia chamava de pai. Esperando o momento em que eu me protegeria expondo o monstro que apalpava as amigas da filha. Festa do pijama nunca mais.

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