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Rato-toupeira-pelado possui uma organização semelhante à de abelhas e formigas, constrói redes subterrâneas que podem chegar a quilômetros e ainda desafia cientistas por viver até três décadas.
Debaixo do solo de regiões semiáridas do leste da África existe uma sociedade que parece pertencer muito mais ao mundo das abelhas e formigas do que ao dos mamíferos. Dezenas de animais trabalham na construção de túneis, procuram comida, defendem o território e ajudam a cuidar dos filhotes. No centro de toda essa organização está uma única fêmea dominante: a rainha.
Esse é o surpreendente modo de vida do rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber), um pequeno roedor praticamente sem pelos que apresenta uma das estruturas sociais mais incomuns conhecidas entre os mamíferos. A característica foi destacada em reportagem publicada por O Antagonista em 4 de setembro de 2026.
Dados do Smithsonian's National Zoo confirmam que a espécie é eusocial: normalmente apenas uma fêmea da colônia se reproduz, enquanto grande parte dos outros indivíduos passa a vida realizando atividades necessárias à sobrevivência coletiva. As colônias têm em média cerca de 70 integrantes, mas grupos com até 295 animais já foram observados.
Uma 'colmeia' formada por mamíferos
Na maioria das espécies de mamíferos, diversos machos e fêmeas de uma população podem se reproduzir. Com o rato-toupeira-pelado, a situação é bastante diferente. Uma única fêmea dominante ocupa o posto de rainha e é normalmente responsável por gerar os filhotes da colônia. Ela acasala com apenas alguns machos selecionados. Enquanto isso, grande parte dos demais integrantes não se reproduz. Eles trabalham.
Sociedade de ratos-toupeira-pelados
Há animais envolvidos na escavação das galerias, outros procuram alimento, transportam terra, cuidam dos filhotes e ajudam a defender o sistema subterrâneo. É justamente essa divisão entre reprodução e trabalho coletivo que permite comparar sua sociedade à organização encontrada em insetos como abelhas, formigas e cupins. O Smithsonian classifica o rato-toupeira-pelado como um dos raros exemplos verdadeiros de eusocialidade entre mamíferos.
Trabalhadores podem passar a vida inteira servindo à colônia
A organização impressiona ainda mais quando se observa o comportamento dos indivíduos que não se reproduzem. Os trabalhadores podem dedicar praticamente toda a vida às atividades coletivas. Eles ajudam a encontrar comida e manter os túneis, além de colaborar na criação dos descendentes da rainha. Durante a escavação, vários animais podem trabalhar juntos para retirar a terra das galerias.
O rato que está na frente utiliza seus enormes dentes incisivos para romper o solo. Outros integrantes colaboram para deslocar o material retirado e permitir que a rede continue avançando. E essas construções podem alcançar dimensões impressionantes.
Segundo o Smithsonian, o conjunto de túneis ocupado por uma única colônia pode totalizar até aproximadamente 4 quilômetros de extensão, com galerias chegando a cerca de dois metros de profundidade. É praticamente uma pequena cidade subterrânea.
A rainha não nasce rainha
Existe, entretanto, uma diferença importante entre essa sociedade e uma colmeia. As funções dos ratos-toupeira-pelados não correspondem necessariamente às castas anatômicas rígidas observadas em determinados insetos sociais. A rainha é uma fêmea da própria colônia que ocupa a posição dominante.
Além disso, as outras fêmeas não são necessariamente estéreis. Elas permanecem fisiologicamente capazes de reprodução, apesar de normalmente não terem filhotes enquanto permanecem submetidas à estrutura social da colônia. E é justamente quando a rainha desaparece que essa organização pode entrar em conflito.
Quando a rainha morre, começa uma disputa pelo 'trono'
A morte ou retirada da rainha pode provocar uma verdadeira batalha entre possíveis sucessoras. O Smithsonian relata que algumas fêmeas podem entrar em confrontos intensos para assumir a posição reprodutiva, e essas disputas podem inclusive terminar em morte.
Rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber)
Um episódio desse tipo ocorreu no próprio zoológico da instituição. Em 30 de novembro de 2023, uma rainha de 11 anos morreu após um confronto com outro rato-toupeira-pelado. O caso foi detalhado pelo Smithsonian em janeiro de 2024 ao explicar como uma nova rainha surge dentro da colônia. A organização aparentemente estável, portanto, pode mudar drasticamente quando desaparece a fêmea dominante.
Uma rainha pode ter dezenas de filhotes
Quando estabelecida, a rainha possui uma capacidade reprodutiva igualmente extraordinária. A gestação dura aproximadamente 70 dias, e uma rainha pode produzir uma nova ninhada aproximadamente a cada 80 dias, chegando a até cinco ninhadas por ano.
O Smithsonian informa que uma ninhada possui em média cerca de 12 filhotes, embora já tenham sido registrados grupos muito maiores, chegando a aproximadamente 30 filhotes em uma única gestação. Depois do nascimento, os outros membros ajudam nos cuidados necessários para que os pequenos sobrevivam.
Pequeno roedor pode chegar perto dos 30 anos
Se a estrutura social já torna o rato-toupeira-pelado incomum, sua longevidade acrescenta outro mistério. O animal mede normalmente apenas cerca de 7,5 centímetros e pesa entre aproximadamente 28 e 42 gramas. Mesmo assim, indivíduos mantidos sob cuidados humanos já chegaram perto dos 30 anos.
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É uma longevidade extraordinária para um roedor tão pequeno. O próprio Smithsonian mantém animais considerados geriátricos que se aproximam dessa idade e destaca o rato-toupeira-pelado como o roedor de maior longevidade. Essa característica também contribuiu para transformar a espécie em objeto de interesse de pesquisadores que investigam os mecanismos biológicos relacionados ao envelhecimento.
E eles nem precisam beber água
Existe ainda outra adaptação curiosa à vida subterrânea. No ambiente natural, o rato-toupeira-pelado obtém toda a água de que necessita através da alimentação, segundo o Smithsonian. A espécie vive em regiões semiáridas de países do leste africano e se alimenta principalmente das partes subterrâneas das plantas, especialmente tubérculos suculentos.
Esses alimentos fornecem nutrientes e umidade simultaneamente. Alguns tubérculos encontrados pelos animais podem ser muito maiores que o próprio roedor. Em vez de consumir completamente a planta, eles podem perfurar e comer parte de seu interior, deixando porções externas preservadas, o que pode permitir que a fonte de alimento continue disponível por mais tempo.
Um dos mamíferos mais estranhos conhecidos pela ciência
Quase tudo no rato-toupeira-pelado parece contrariar o que esperamos de um pequeno roedor. Ele passa praticamente toda a existência no subterrâneo, possui olhos minúsculos e visão extremamente limitada, utiliza enormes incisivos para abrir galerias e vive em comunidades que podem reunir centenas de indivíduos. Mas é sua organização social que mais surpreende.
Uma única rainha concentra a reprodução enquanto dezenas de outros animais trabalham na manutenção de uma rede subterrânea, buscam alimento, protegem o grupo e ajudam a criar seus irmãos. Somam-se a isso a capacidade de viver por décadas e a adaptação para retirar da própria comida toda a água necessária.
É por isso que comparar sua colônia a uma colmeia não é apenas uma maneira chamativa de descrevê-la. Existem semelhanças biológicas reais na cooperação e na concentração da reprodução — embora as sociedades de roedores e insetos não sejam idênticas. O resultado é um sistema social raríssimo entre mamíferos e mais uma demonstração de como a evolução pode produzir soluções completamente diferentes para um mesmo desafio: sobreviver em grupo em um ambiente hostil.
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