Inteligência artificial ou esperteza artificial?

Inteligência artificial ou esperteza artificial?
View on original source
Category: SciTech
Share
Archive
Like
Antes da escrita, o homem primitivo usava apenas a memória para se haver face à Natureza, a seus pares e aos desafios da vida. Veio a escrita e começamos a guardar memórias e autorias. Aimprensa de Gutenberg, milhares de anos depois, foi um auxílio e um salto importante na constituição de memórias, repositórios e cultura em geral. Hoje, a IA é herdeira dessa acumulação de cultura e memória. Sempre soubemos absorver e aproveitar esses saltos cumulativos da memória humana. Saímos do estágio primitivo do puro instinto para a longa e rica acumulação daquilo que denominamos cultura. A todas essas, nosso cérebro também se moldou plasticamente às sucessivas técnicas elementares e tecnologias complexas – quer dizer, técnica associada à Ciência. Cada salto foi uma revolução na própria estrutura do pensamento, da autoridade, da relação do homem com o seu passado e com a Natureza. Antes da escrita, a memória não era um arquivo, mas uma performance. Homero não escreveu seus versos no papel, aIlíadae aOdisseianasceram de uma riquíssima tradição oral baseada na memória coletiva e na improvisação. Quando os poemas homéricos começaram a tomar forma (por volta do século 8 a.C.), o alfabeto grego fonético estava apenas começando a surgir, adaptado dos fenícios. O saber era encarnado no corpo do poeta, ligado ao ritmo, à métrica e à oralidade viva. A poesia foi usado como uma espécie de truque ancestral para melhor fixar a memória e a lembrança. A transição da cultura oral para a cultura escrita na Grécia Antiga não foi apenas uma mudança de suporte técnico. Ela inventou a Filosofia como a conhecemos hoje. Sem essa transição, a forma como estruturamos o pensamento ocidental seria completamente diferente. O conhecimento era preservado e transmitido por poetas como Homero e Hesíodo. Para que o saber não fosse esquecido, ele precisava ser encapsulado em narrativas emocionais, rítmicas e antropomórficas – os mitos. O ouvinte não analisava o argumento, ele se identificava emocionalmente com a performance do poeta. O texto escrito fixou as palavras no papiro, permitindo que elas fossem isoladas do ritmo cativante da poesia. Pela primeira vez, o ser humano pôde olhar para uma frase, voltar atrás, reler e procurar contradições lógicas. A escrita matou a necessidade da narrativa mítica e deu origem aologos– a argumentação puramente racional, abstrata e sistemática. Platão, no 'Fedro', já denunciava a escrita. Ele afirmou que a escrita não auxilia a memória, mas a atrofia. Ela cria a ilusão de sabedoria sem aprendizado real. Ao guardar autorias, a escrita fragmentou o saber do coletivo para o indivíduo proprietário, criando a própria noção de 'autoria' que Barthes, séculos depois, denunciou como algo que morreu. Com a imprensa, Gutenberg não apenas acelerou o acúmulo, mas congelou o texto. Antes, os manuscritos eram vivos, sujeitos a glosas e variações. O livro impresso tornou o conhecimento estável, portátil e padronizado. Foi o salto que permitiu a ciência moderna (pois os experimentos podiam ser replicados com precisão) e a própria Reforma Protestante Luterana (pois cada um podia ler a Bíblia sem mediação, algo que era proibido pelaIgreja Católica). Mas também criou a tirania do original e do definitivo, consolidando a figura do Autor como um deus inalcançável – exatamente o alvo da crítica barthesiana. Depois, muito depois, a computação digital não é apenas uma biblioteca gigante, ela é a primeira tecnologia que torna a memória dinâmica e processável. Enquanto o livro é algo estático, o banco de dados permite relações cruzadas, hipertextos e buscas instantâneas. Aqui, o desafio deixou de ser a escassez e passou a ser a abundância. Passamos de 'como não esquecer' para 'como filtrar e encontrar'. A memória deixou de ser um tesouro guardado para ser um fluxo contínuo de atualização. Para redigir este pequeno texto, tive que consultar a Wikipedia várias vezes. Hoje temos a IA, o ponto mais delicado deste acúmulo histórico. A IA é herdeira dessa acumulação, mas com uma diferença ontológica crucial, as outras tecnologias eram passivas, a IA é ativa e generativa. A escrita nos tornou mais analíticos, mas nos fez perder a memória épica dos 'aedos' – os poetas que acreditavam receber o dom da palavra e da memória diretamente das musas inspiradoras. A imprensa nos tornou mais eruditos, mas fragmentou a comunidade oral em leitores solitários. A internet nos tornou multitarefas, mas corroeu a atenção profunda, jogando-nos na 'superficialidade', apontada por Nicholas Carr, o grande crítico do algoritmo de engajamento instantâneo. Com a IA, a absorção exige uma nova virtude, a chamada curadoria crítica. Não basta mais acumular ou armazenar, é preciso saber interrogar a máquina. A grande ironia é que, na era da maior acumulação de memória da história, o conhecimento humano corre o risco de se tornar uma 'memória de segundo grau', onde sabemos que a informação existe, mas perdemos a capacidade de percorrer o caminho lógico que a produz, confiando cegamente na síntese da IA. Somos, sim, herdeiros de uma grande tradição acumulativa, e isso é deslumbrante. Mas a IA nos coloca diante de um espelho. Pela primeira vez, a memória acumulada ganha voz autônoma e pode se passar por pensamento original, ainda que falso. O verdadeiro comentário a fazer é que, para sobrevivermos a esse salto, não basta absorver o que a IA produz, precisamos resgatar o espírito socrático de interrogar a memória, mantendo viva a centelha da dúvida e da criatividade humana – senão, a história da memória humana terminará não em sabedoria, mas em puro eco, esvaziado de razão. Sócrates nos ensinou a postura filosófica baseada na busca incessante pela verdade, baseada na sobriedade intelectual e no questionamento constante das certezas estabelecidas. Duvidar, sempre. A crítica de Nicholas Carr à superficialidade não é um mero lamento saudosista, mas um alerta. Estamos reconfigurando nossa arquitetura mental. Para Carr, a superficialidade não é uma escolha, mas uma consequência física da nova ecologia de informação. A tese de Carr emA Geração Superficial(2010) se apoia em duas sustentações. Diferente do que se pensava, nosso cérebro não é uma estrutura fixa. Ele é maleável e se adapta fisicamente aos estímulos que recebemos. Carr argumenta que o uso intenso da internet está, portanto, reeditando nossos circuitos neuronais. A arquitetura da internet, com seus links, notificações e estímulos constantes, nos condicionam a um estado de atenção perpétuo e ultra-fragmentado. Este ambiente, segundo Carr, nos desencoraja e nos impede de engajar em atividades que exigem foco profundo, como a contemplação e a reflexão. O resultado é uma mente que, mesmo offline, anseia pela velocidade e superficialidade do mundo digital. A imagem que sintetiza o pensamento de Carr é a do mergulhador que se torna um surfista. O leitor de livros, imerso em um oceano de palavras, pratica um mergulho profundo, concentrado e contemplativo. O usuário da internet, por outro lado, desliza sobre a superfície das informações em uma prancha imaginária, pulando de um conteúdo-onda a outro sem nunca se aprofundar. A superficialidade não é, portanto, um defeito moral, mas um sintoma de um cérebro que foi condicionado ao 'surf' informacional, em detrimento da imersão profunda. O físico vencedor do Prêmio Nobel de Física, de 2020, Roger Penrose acha que usamos a palavra 'inteligência artificial' equivocada há décadas, e essa palavra errada está silenciosamente distorcendo como pensamos. A crítica de Penrose não é meramente semântica. Ela é profunda e fundamentada em sua visão sobre a natureza da consciência. Penrose acredita que a consciência é um fenômeno não-computacional. Ele argumenta que os processos mentais conscientes vão além do que qualquer algoritmo ou sistema computacional pode replicar. Para ilustrar, ele propõe uma substituição: Inteligência Artificial por Esperteza Artificial. EA em vez de IA. A diferença, segundo ele, é como a de um estudante de matemática que apenas repete o que aprendeu de forma brilhante (é esperto) versus aquele que verdadeiramente compreende o que está fazendo (é inteligente). Os sistemas atuais, em sua analogia, são o primeiro caso, muito hábeis em processar e calcular, mas sem qualquer compreensão genuína. E o mais grave: criatividade zero. A provocação de Penrose é um convite para olharmos além do 'hype tecnológico' (entusiamo exagerado ou hipérbole). Ele alerta que o uso do termo 'inteligência' cria uma armadilha cognitiva, levando-nos a atribuir às máquinas qualidades (como compreensão e consciência) que elas não possuem. É uma crítica poderosa que nos força a questionar tudo – socraticamente. Ao chamar um sistema de 'inteligente', estamos descrevendo o que ele faz ou estamos, silenciosamente, assumindo algo sobre o que ele é? A IA (ou EA) resolve o problema do livro estático que repete sempre a mesma coisa. Se você questionar a IA, ela muda de argumento, se defende e se adapta ao interlocutor. Sem esquecer que a IA/EA comumente bajula o interlocutor passivo. Por outro lado, o perigo da 'falsa sabedoria' denunciado noFedro(Platão, 370 a.C.) atinge seu potencial máximo. Se antes o risco era o homem parecer sábio por repetir um livro, como temia Platão, hoje o risco é o homem se portar como sábio apenas por ter um assistente de voz no ouvido que dita as respostas em tempo real. Para encerrar estas breves reflexões colhidas aqui e acolá, quero contar uma passagem singela da vida de Karl Marx, relatada por alguns de seus biógrafos, portanto, suponho que seja verdadeira. Karl estava visitando seu tio Lion Philips, na cidade de Zalt-Bommel, na Holanda. Era abril de 1865, ele estava acompanhado de sua filha Laura. Esta estudava e fazia as lições de casa. Laura perguntou ao seu pai qual era o seu lema, uma frase que definisse sucintamente o seu pensamento por inteiro. Karl pensou e respondeu, socraticamente: Esta máxima pode definir, hoje, a forma como devemos encarar e lidar com a IA/EA. Estamos mergulhados no vasto oceano da informação, mas muitas vezes desprovidos dos equipamentos protetores, como capacidade crítica e agudez analítica. As novas tecnologias mais e mais nos abarrotam de informações, mas o ranço ancestral da estupidez continua a assolar as nossas relações sociais e nos impor aberrações fascistas o tempo inteiro. O questionamento total e o pleno exercício da dúvida devem ser, pois, nossas armas permanentes.

(0)Comments

 

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.