"Isto é a Rússia a exercer coersão psicológica"

"Isto é a Rússia a exercer coersão psicológica"
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Category: Politics
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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pela Ucrânia. Este fim de semana, os enviados especiais dos Estados Unidos estiveram reunidos com Vladimir Putin no sábado e com Volodymyr Zelenskyy no domingo. Foram sendo revelados, embora sem grandes detalhes, alguns dos assuntos abordados nestes encontros. Pergunto-lhe que balanço é que faz, se acha que as negociações para o fim do conflito podem estar agora mais perto ou se, pelo contrário, nada sai destas reuniões. Muito boa noite, obrigada pelo convite. Acho que há a realçar, pelo lado positivo, o facto de os enviados de Donald Trump visitarem pela primeira vez Kyiv, depois de já terem estado nove vezes em Moscovo. E isso é uma evolução que é de saudar. Parece-me importante que tenha acontecido e tenham sido levados pelo presidente Zelenskyy a locais emblemáticos. Vimos também imagens de uma grande cumplicidade, sobretudo entre Steve Witkoff e Vladimir Putin, pareciam grandes amigos, o que para o lado ucraniano não deixa antever nada de bom e faz-nos repensar em momentos que nós já vivemos quando a administração Trump e estes dois enviados tentavam, de alguma forma, convencer a Ucrânia a capitular, a ceder território. Há um ano estávamos nessa posição, quase a encostar a Ucrânia à parede, dizendo que não tinha cartas para o que fosse. Parece-me que há esta evolução positiva, mas objetivamente ou materialmente, nós não temos aqui nenhum tipo de evolução. Não há nenhum tipo de comunicado, sabemos muito pouco acerca do que foi conversado. A diplomacia devia ser assim, não devia ser histriónica como Donald Trump às vezes a faz, mas parece-me que isto é mais um compasso de espera antes das midterms. Donald Trump quer mostrar que está a tentar resolver um conflito que ele prometeu resolver. Vladimir Putin, numa situação interna bastante complicada, também não quer afrontar Donald Trump e quer continuar a arrastar os pés, porque os seus objectivos maximalistas mantêm-se e não há nenhuma alteração naquela que é a posição russa. E a Ucrânia continua a precisar dos Estados Unidos, não apenas porque necessita defesa antiaérea, mas porque continua a depender de empresas norte-americanas, nomeadamente a Starlink ou a Palantir, para aquele que é o seu esforço de guerra. Há aqui três interessados em conversar. Agora, resultados concretos, tenho muitas dúvidas, se bem que há aqui um sinal e que foi dado por Kyrylo Budanov, que foi o chefe das secretas militares e que agora é chefe de gabinete de Zelenskyy, que disse esperar, em setembro, ou seja, este mês, que haja aqui um início de negociações. Aliás, Budanov há uns tempos tinha dito que esperava ver aqui um cessar-fogo até ao final do ano. E ele terá certamente mais informações do que nós. Deste encontro, o balanço é mitigado. Esta dimensão positiva que já referi e esta dimensão também de impasse que já referi. É um copo meio cheio. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, disse hoje que as relações que existiam entre a Rússia e o Ocidente antes do conflito na Ucrânia nunca mais vão existir. Acha que isto é de facto verdade? E se sim, que consequências é que isto pode trazer para ambas as partes? "Nunca mais" é uma imensidão de tempo em termos de relações internacionais, em termos históricos ou de relações entre Estados. Nós já vimos o nunca mais acontecer e depois ser revertido. Haverá, naturalmente, e há uma desconfiança mútua legítima, e sobretudo o Ocidente não tem nenhum motivo para confiar na Federação Russa e depois da Crimeia, depois da Geórgia, depois da Crimeia, depois da invasão da Ucrânia, há muitas razões para o Ocidente não confiar na Rússia. Agora, que consequências tem? Nós víamos, no início deste conflito, uma enorme dependência de vários países europeus, daquilo que era o gás e os hidrocarbonetos russos, e víamos relações comerciais bastante profundas, como era o caso da Alemanha e da Hungria, de outros países, mas vimos que isso conseguiu ser ultrapassado e minimizado. Não vejo aqui grandes consequências. Lavrov tenta, naturalmente, fazer valer aquela que é a posição russa, mas nós não nos podemos esquecer que a Rússia é uma economia pequena e que a Europa, e eu falo da Europa como um todo, é a segunda maior economia mundial, quando falamos da Europa em bloco. E não necessita, como necessitou da Rússia há uns anos. Tem estado a fazer a procura de novos fornecedores energéticos, conseguiu reduzir a dependência, embora ainda exista e embora ainda se façam negócios com a Federação Russa, e isso é lamentável, mas não me parece que seja algo que tenha validade. E é assim, mudando o regime, imaginemos aqui uma mudança, uma abertura da Federação Russa, é possível reconfigurar relações. Dou-lhe um exemplo: ninguém pensava numa normalização de relações com a Síria de Bashar al-Assad. Houve uma mudança de regime, temos um novo presidente e temos o novo presidente a ser recebido em todas as chancelarias europeias Portanto, nunca mais vão voltar a ser, é uma imensidão de tempo. Este tipo de prognósticos não devem ser feitos, porque acabam sempre depois por ser contrariados pela evolução da história. A Rússia posicionou mísseis Oreshnik, mísseis com capacidade nuclear na Bielorrússia. Foi hoje revelado pelo chefe dos serviços secretos militares da Ucrânia. Isto significa uma escalada ainda maior das tensões? Não, isto não é nada de novo e é a Rússia a exercer coerção e coerção psicológica, posicionando ali mísseis na fronteira e tentando com isso fazer valer aquilo que ainda é a sua força, e que continua a tê-la, não deve ser subestimada, mas não é nada de novo, nem sequer é uma escalada, é uma forma de pressão. E em guerra há muitas formas de pressão e a Rússia está a fazer uso da fronteira como um elemento mais psicológico do que outra coisa. Vamos olhar também para a Alemanha, até porque é um dos temas a marcar o dia de hoje. A vitória do partido de extrema-direita AFD, no Estado Federal de Saxonia-Anhalt, pode vir a ter repercussões em Berlim, ou seja, em toda a política nacional, mesmo sendo este um Estado relativamente pequeno, com cerca de dois milhões de habitantes? Primeiro teremos que chegar à formação de um governo e vai se revelar um exercício político difícil, porque como não houve uma maioria absoluta, vai ter que ser um governo ou em coligação ou um governo minoritário tolerado e com todos os partidos a porem-se de fora do governo ou de tolerar o governo, sobra-nos aqui a Bündnis Sahra Wagenknecht, que é um partido de extremíssima esquerda, que está à esquerda do Die Linke, que já disse que poderá viabilizar este governo, eventualmente não integrando uma coligação, mas viabilizando o governo no Parlamento regional. Caso venhamos a ter então este governo, ele terá impacto, sim, naquilo que é a política nacional alemã. Por quê? Porque a Alemanha tem um sistema político bicameral, tem o Parlamento, que é o Bundestag, e depois tem o Bundesrat, que é a Câmara Alta, onde se sentam todos os 16 ministros presidentes dos estados federados. E neste órgão é aprovada a legislação, é partilhada a informação classificada de política externa, imaginemos as relações com a Rússia, que me perguntava há pouco, o apoio à Ucrânia, questões que tenham a ver com a segurança interna, tudo isto. E por via da sua participação ou da sua presença no Bundesrat, tem naturalmente capacidade de influenciar a decisão política alemã. Mas mais do que isto, é o sinal que é dado a partir de Magdeburg, a capital da Saxônia-Anhalt, que é o de um crescendo de força da AFD, porque isto pode parecer muito estranho, mas a AFD está a ser percepcionada por uma vasta franja da população, mais novos, mais velhos, homens, mulheres, letrados, menos letrados, aliás, quem votou mais na AFD foram os trabalhadores. A AFD está a ser percepcionada como um partido de esperança. É um partido de extrema-direita, que tem propostas muito radicais e basta ler o programa e lê-lo com atenção para encontrar razões de preocupação, mas para os alemães é o partido que oferece pelo menos propostas nas áreas que os preocupam e que são sobretudo três: a questão das migrações e das migrações descontroladas, a questão da segurança interna, que se prende com a questão da migração, e as questões de política econômica. Este efeito galvanizador da AFD terá provavelmente impacto naquele que é o discurso político, seja dos democratas cristãos e dos sociais-democratas, seja nos partidos mais à esquerda, por oposição à AFD. E vai ter influência também, aliás, vê-se pela reação dos líderes populistas ou de extrema-direita europeus, vai ter um impacto também em futuros pleitos eleitorais que vão ter lugar no próximo ano. E estou a pensar, por exemplo, na eleição presidencial em França, com Marine Le Pen, que tem aqui uma hipótese de vir a ser a próxima presidente francesa. Portanto, sim, não é despiciendo, que há aqui um sinal, e sim, sobretudo este sinal não é que todos os alemães tenham tornado de repente em nazis ou em racistas ou em xenófobos, mas há muitos alemães preocupados com a situação do seu país e há muitos alemães que deixaram de confiar nos partidos políticos clássicos. E quando nós olhamos pro espectro político alemão, vemos os democratas cristãos, o Chancellor Merz, a encolher. Vemos os socialistas a desaparecer, eles tiveram nove pontos percentuais, nem sequer dois dígitos tiveram, um partido histórico. Vemos o Partido Liberal, que durante muito tempo foi o fazedor dos reis na Alemanha, era o partido que viabilizava as coligações, a desaparecer completamente. Vemos aqui um crescimento do Die Linke, do Partido da Esquerda. Os Verdes mantêm-se mais ou menos estáveis. Vemos aqui mais uma esquerda, tínhamos os Verdes, tínhamos o Die Linke, e agora temos uma extremíssima esquerda com esta Sahra Wagenknecht, esta aliança Sahra Wagenknecht. Vemos aqui uma fragmentação do espectro político alemão e uma radicalização do espectro político alemão, que vai ter impacto a nível regional nas próximas eleições regionais, mas sobretudo a nível do Bundestag, porque se vai tornar cada vez mais difícil formar coligações. E há mesmo aqui o risco, porque Merz admitiu que isto é uma mudança tectônica na Alemanha, há aqui mesmo o risco de não vermos este governo, como no ano passado, chegar sequer ao fim da legislatura e mesmo sequer ao final do próximo ano. Esta vitória da extrema-direita no Estado Federal da Saxônia-Anhalt pode vir também a influenciar de alguma forma a posição da Alemanha relativamente aos conflitos internacionais? Essa é uma excelente pergunta. Este partido é um partido abertamente pró-Rússia, é um partido muito crítico daquilo que é o apoio à Ucrânia, seja o apoio militar, seja o apoio financeiro, ou seja o apoio que é dado aos refugiados ucranianos na Alemanha. Eu não acredito que para já venha a ter grande impacto, porque há aqui um consenso nacional em relação ao apoio que é dado à Ucrânia, mas vai fazer com que esta discussão se torne mais presente na sociedade alemã. E esta é uma questão preocupante. Esta questão e a questão, obviamente, do antissemitismo e da relação que a Alemanha tem com Israel, também poderão vir a ser questões discutidas, porque nós não nos podemos esquecer que estamos a falar de um partido de extrema-direita, que começou por ser um partido eurocético, um partido de elite criado por professores universitários que se opunham ao bailout da Grécia, ao resgate da Grécia em 2013, e depois que evoluiu para um partido anti-imigração, um partido islamofóbico e um partido que tem também posições de extrema-direita, da linha nacional-socialista, ou seja, nazi. E isto poderá ter impacto. Se quisermos, é um caldinho de influências. O partido tenta não negar a história, mas basta pensar que no programa da AFD está uma alteração do currículo, e isso pode fazê-lo a nível estadual, dando menos atenção ao período do nacional-socialismo, àquilo que levou da República de Weimar até à chegada de Hitler ao poder e até à derrota alemã, e prestando mais atenção ao século XIX e aos anos de governação de Otto von Bismarck, que aliás, é oriundo da Saxônia-Anhalt. São um conjunto de sinais que permitem que haja motivos para preocupação. E estes sinais são reforçados pelo facto, e eu já falei aqui várias vezes, da Bundeswehr Wagenknecht, partilhar exatamente da mesma visão em termos de política externa. Também é contra imigrantes e refugiados, é contra a Ucrânia, é pró-russa, é absolutamente antissemita, eles só diferem em questões de política económica. De resto, em termos de política social, política externa, são partidos que são copiados, se quisermos, a papel químico, que já não se usa, mas no meu tempo usava-se. Vamos ter aqui realmente discussões políticas muito sérias na Alemanha e resta saber como é que, por um lado, a sociedade que está desencantada, está desiludida com a política clássica, com os atores políticos moderados, que não encontraram resposta, não tiveram coragem política, não tomaram medidas, andam há imenso tempo a arrastar reformas, o que é que eles irão fazer para responder a isto? Porque a Alemanha corre realmente o risco de se radicalizar num extremo e no outro, e isto nunca dá bons resultados. Eu recordo, faz-me lembrar um bocadinho os anos 30 do século passado, mas também os anos 70 com o surgimento de movimentos terroristas de esquerda, por oposição àquilo que eles consideravam ser o bafio da sociedade, que não havia feito o processo de nazificação. Há aqui muitos sinais preocupantes vindos da Alemanha. Resta saber se a Alemanha é uma democracia madura, é uma democracia onde as instituições funcionam, é uma democracia que tem um tribunal constitucional que é muito forte e muito respeitado, naturalmente, e importa dar este destaque devido. Agora, há que encontrar respostas objetivas para a preocupação dos cidadãos e vão ter que discutir a sério a questão da migração, porque neste momento são 20% da população alemã e os problemas, os impactos no sistema de Segurança Social, nas escolas, nos hospitais, são visíveis e sobretudo a nível da insegurança, porque nós temos esfaqueamentos diários. Eu tenho dito isto muitas vezes, mas está-se a tornar muito difícil ter uma vida normal na Alemanha. E esta foi, sobretudo, a grande linha que vendeu bem o candidato da extrema-direita: o regresso a uma Alemanha normal. E não há nenhum cidadão moderado que não queira uma Alemanha normal, onde possa andar na rua sem correr o risco de sofrer um atentado, onde as mulheres possam vestir-se como entenderam, como sempre entenderam, sem estar a ferir suscetibilidades culturais de ninguém, onde as ruas não estejam invadidas diariamente por manifestações de radicais islâmicos. Temos aqui uma convulsão social em algumas cidades alemãs que era expectável, era visível. A observação empírica permitir-nos-ia concluir que isto iria acontecer e acabou por acontecer. Os políticos enfiaram a cabeça na areia como as avestruzes e agora estão todos muito preocupados e muito aflitos. Como é que se vai resolver este problema, que é um grande problema? Chegamos ao final do nosso tempo. Hoje, Gabinete de Guerra com Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Muito obrigada pela sua análise. Muito obrigada, boa noite. Obrigada. Fica por aqui "O Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã.

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