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À superfície há música, elegância, sorrisos e movimentos que parecem executados sem esforço. Debaixo de água há força, controlo corporal, apneia e muitas horas de treino para que nada disso seja visível. Anna Carvalho e Inês Dubini conhecem bem a diferença entre aquilo que o público vê e aquilo que uma nadadora de natação artística realmente sente. "É basicamente uma dança na água", começa por explicar Inês Dubini ao DN. Mas a definição simples depressa se torna insuficiente. "É uma junção de vários desportos. Tanto praticamos natação como ballet, temos uma grande parte de condição física e trabalhamos muito a expressão corporal. É um desporto muito completo."
Anna Carvalho acrescenta aquilo que normalmente fica escondido por detrás de uma coreografia de poucos minutos. "São muitas horas de treino. Quando se vê uma performance de três minutos, por trás desses três minutos há horas e horas de trabalho e muito esforço."
E há uma regra não escrita que ajuda a explicar a beleza da modalidade: o esforço não pode parecer esforço. "Temos essa maneira de nunca mostrar que custa. É muito bonito para quem vê porque tentamos nunca mostrar que aquilo custa fazer", explica Anna.
As duas representam o Clube Fluvial Portuense e formam um dueto desde 2021. Chegaram à modalidade por caminhos diferentes. Inês começou pelo ballet e passou pela natação por insistência da mãe. Não gostava particularmente de nadar, mas acabou por encontrar na então chamada natação sincronizada a combinação que procurava. "A minha mãe viu um anúncio e decidi experimentar porque, no fundo, era uma junção de duas coisas de que gostava muito, que eram a água e a dança. Desde que experimentei, apaixonei-me."
Com Anna aconteceu de outra forma. Já fazia natação e os treinos decorriam ao lado dos da natação artística. "Passava os treinos de natação a olhar para o lado. Uma vez fui experimentar e nunca mais saí."
Hoje, olhar para o que fazem dentro de água é perceber até que ponto a aparente leveza esconde uma enorme exigência física. Quando estão invertidas, com a cabeça submersa e as pernas fora de água, nada acontece por acaso. "Estamos supertensas. Não há nada no nosso corpo que esteja relaxado", explica Inês. "Temos de saber utilizar os músculos do nosso corpo. Chegar a um ponto em que se faz bem natação artística é muito difícil, porque temos de conhecer muito bem o nosso corpo."
A música continua mesmo quando mergulham. As atletas dispõem de uma coluna subaquática que lhes permite ouvir a música dentro de água. Depois há a contagem, fundamental para que duas pessoas diferentes pareçam movimentar-se como uma só."Todos os movimentos têm um número e temos de estar sempre atentas à música, à contagem e uma à outra. Às vezes uma anda um bocadinho mais e a outra tem de ir atrás. Temos de estar atentas a tudo", conta Inês.
Os resultados começam, entretanto, a dar-lhes uma visibilidade que a natação artística portuguesa raramente teve. Em 2025, Anna Carvalho e Inês Dubini terminaram o dueto técnico dos europeus absolutos, disputados no Funchal, no 9.° lugar, com 230,5825 pontos, naquela que foi a estreia das duas neste patamar.
Em 2026 voltaram ao Campeonato da Europa, desta vez em Paris. Portugal apresentou uma seleção de 13 atletas e Anna e Inês foram escolhidas para representar o país no dueto técnico e no dueto livre femininos. Terminaram a participação no Europeu em 14.° lugar, alcançando as melhores pontuações da época, segundo o Clube Fluvial Portuense.
Com os resultados chegou também uma responsabilidade diferente: fazer crescer um desporto que continua longe da exposição de outras modalidades. "Somos muito gratas pelas oportunidades que tivemos durante estes anos e queremos sempre fazer com que a modalidade cresça no país, que mais pessoas a conheçam e que mais pessoas queiram experimentar", afirma Anna.
Inês não esconde, porém, que o caminho tem sido difícil. E nem sempre pelas horas passadas na piscina. "Portugal é um país em que é preciso primeiro mostrar, mostrar muito talento e muita vontade, e depois começa-se a ter um bocadinho de reconhecimento."
Há também resultados fora de Portugal que ajudaram a abrir caminho. Na entrevista ao DN, Inês recorda primeiros lugares em provas internacionais em Valência e Budapeste e destaca a oportunidade de trabalharem com uma treinadora ucraniana, experiência que considera importante para a evolução e para a projeção do dueto.
Mas a natação artística continua rodeada de ideias feitas. Uma delas é particularmente frequente: a de que as nadadoras se apoiam no fundo da piscina. "Muitas pessoas acham que colocamos os pés no chão. Nós não podemos tocar no chão, senão temos uma penalização", esclarece Anna.
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