Brasília, 08 set 2026 (Lusa) — O Supremo Tribunal Federal brasileiro decidiu hoje, por maioria, afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, num momento em que se vive uma crise sem precedentes que envolve juízes do STF.
Na decisão assinada por André Mendonça, consultada pela Lusa, o juiz argumenta que ele próprio foi alvo de 'monitoramento sistemático' e 'ilícito' realizado pelos serviços de informações (inteligência) da Polícia Federal (PF) durante mais de 30 dias.
Mendonça acusa Rodrigues de ter encaminhado para o juiz Alexandre de Moraes, do STF, no âmbito do inquérito das Fake News, pelo menos seis 'relatórios de inteligência' produzidos de forma sigilosa entre 03 e 31 de agosto deste ano.
A decisão de Mendonça ocorre após Moraes usar relatórios apócrifos da PF – e classificados pela própria corporação como documentos sem prova probatória – para acusar o colega do STF de cometer os crimes de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade administrativa na condução de dois inquéritos de corrupção.
Mendonça é relator do inquérito do banco Master, que tem como figura central o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entretanto detido e atualmente em prisão preventiva, e do inquérito da fraude dos descontos indevidos de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social, que atinge também vários políticos.
Moraes e Mendonça iniciaram, na semana passada, uma troca de acusações via mecanismos processuais, de modo a expor contradições do trabalho um do outro na condução de investigações que atingem vários políticos do país.
A crise iniciou-se após Mendonça quebrar o sigilo de uma investigação que expunha Moraes, sobre relações suspeitas e comprometedoras com Daniel Vorcaro, do banco Master, arguido por fraude milionária no sistema financeiro.
Na decisão de hoje, Mendonça chama 'surreal', 'abjeta', 'inimaginável' e 'leviana' às acusações resultantes do material produzido pela PF e na base do pedido de Moraes.
O juiz determinou ainda o afastamento preventivo do delegado Leandro Almada do cargo do Diretor de Inteligência da corporação, além de impor a abertura imediata de procedimentos investigatórios criminais e administrativo-disciplinares na Corregedoria da Polícia Federal.
A decisão de Mendonça foi aprovada, por maioria, pela segunda turma do STF, o que levou a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) a pedir que o caso seja analisado e votado pelo plenário do Supremo.
'O afastamento do comando máximo de uma instituição de Estado é medida de excepcional gravidade e deve fundamentar-se em indícios concretos e verificáveis, submetidos, ainda que em momento posterior, ao devido contraditório', alega a APCF.
A decisão de Mendonça foi recebida com surpresa no Palácio do Planalto, tendo o Presidente brasileiro, Lula da Silva, convocado uma reunião de emergência com ministros para avaliar como recorrer da decisão do juiz do STF.
Em declarações à Lusa, o coordenador jurídico da campanha de Lula à reeleição, Marco Aurélio Carvalho, destacou que o Presidente brasileiro deve recorrer da decisão, tendo em conta que Mendonça não consultou a Procuradoria-Geral da República sobre o afastamento de Rodrigues.
'O Brasil está mergulhando numa crise institucional sem precedentes na história do país. Poderes e órgãos da República avocando prerrogativas constitucionais que não lhe foram atribuídas', afirmou Marco Aurélio, figura influente no Palácio do Planalto.
'Eleições, em toda e qualquer Democracia, devem ser disputadas no voto. Não podemos permitir que funções públicas sejam novamente capturadas por interesses políticos e eleitorais', realçou, ao destacar que a medida de Mendonça é grave.
Andrei Rodrigues e Leandro Almada não reagiram até ao momento, tendo o diretor-executivo da Polícia Federal, William Marcel Murad, segundo na linha hierárquica da corporação, feito a defesa dos colegas.
'Não nos deixaremos abalar por ataques, venham de onde vier. E aqui, reafirmamos, reafirmo, nossa total confiança na direção geral, no diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues', declarou durante um evento em Brasília.
'O momento exige serenidade, mas saberemos atravessar essa tempestade como tantas vezes o fizemos', declarou Murad, salientando que o trabalho dos agentes da corporação é 'técnica, imparcial e livre de qualquer viés político'.
MYMA // MLL
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