O último fim-de-semana ficou marcado por um evento ímpar e que mobiliza um número cada vez maior de pessoas em torno de uma ideia verdadeiramente comunitária e singularmente percebida e desejada por cada ser humano. Sem pretensões totalitaristas que não a ditadura do comissariado das múltiplas exposições, instalações e manifestações culturais, e mesmo aí com a abertura democrática imprescindível para ouvir, registar e melhorar sempre que necessário. Sem foices que não as que ajudam a colher o fruto da curiosidade e redescoberta, semeado, ano após ano, com cada vez maior sucesso. Sem martelos, que se reservam para o outro grande momento popular e vivido nas ruas de Braga, a cada 24 de junho. Mas com cada vez mais espírito comunitário, sentimento de pertença e efetiva, genuína e comprometida participação do povo. Braga abre-se a si própria e com isso deixa entrar quem queira. Num esforço concertado e notável de múltiplas instituições, públicas e privadas, de pessoas singulares e associações, a Noite Branca tornou-se uma marca de espírito cívico, identitário e singular num contexto nacional onde este tipo de organizações ainda primam por uma certa despersonalização e frieza comercial. Sim, claro que há e continuará a haver um grande espaço para os concertos de rua, para os DJs madrugadores e para uma certa leveza que nem sempre disfruta de todo o potencial que a Noite Branca oferece. Mas é justamente esse potencial que traz e faz regressar aqueles que, num primeiro ano, só vieram ver a multidão. Que num segundo já se aventuraram a entrar no GeNeRation e que hoje, numa terceira visita, se despiram de preconceitos. Renunciaram a uma certa noção de cultura, e perderam o receio dos únicos edifícios do mundo cujas paredes não servem para barrar a entrada de ninguém, mas para proteger a saída, curada e cuidada, de um conjunto de estímulos que, de outra forma, se perderiam na desestruturação e caos do jorro artístico. Ao longo dos 3 dias de Noite Branca, Braga foi pacifica e positivamente invadida por mais de 600 mil pessoas que deram uma paleta de cores variada e muito para além da alba marca que dá nome ao evento. Mas esses números valeriam de pouco se não tivessem tradução na fruição dos inúmeros espaços que abertos se tornaram, convidando todos a deles disfrutarem. E nisso, tenho por certo, esta edição representou um marco inédito. Sabemos, por exemplo, que mais de 15.000 pessoas visitaram a nossa Sé, um número extraordinário que claramente indicia o que pela cidade se intuía. E sei, por experiência própria, que inúmeras pessoas acorreram aos museus e às diversas propostas culturais de que se (de)compôs a Noite Branca. Vi, por exemplo, como, no Museu D. Diogo de Sousa, as famílias (locais e estrangeiras) responderam de forma muito acima das expectativas da organização ao 'Percurso pela Natureza, à Luz da Lanterna'. E vi como tantos outros ficaram a admirar as impressivas instalações espalhadas pelo centro. Testemunhei a curiosidade que o Palácio do Raio satisfez com as suas portas abertas, permitindo a todos conhecer a beleza do seu interior, conhecida que é a sua imponência exterior. Claro que também partilhei a sede dos grandes espetáculos e fiz parte da enxurrada de corpos que quase se amontoavam para os concertos noturnos, mas pude, igualmente, aproveitar, em família, os espaços dedicados aos mais novos. Sem prejuízo para todas as pérolas que se revelaram perante os insaciáveis visitantes, com óbvia predileção pelo recém-chegado 'Muzeu', quero destacar a reabertura do Museu da Imagem. Esta foi a cereja no topo do bolo que permitiu a Braga reconciliar-se com um espaço que esteve fechado durante tempo demais e que agora se anuncia mais moderno, mais funcional e mais capaz de promover uma das artes maiores do espectro cultural e onde Braga tem digníssimos protagonistas. Esta Noite Branca marcou claramente um antes um depois no que ao seu alcance, abrangência de públicos e sucesso de objetivos diz respeito e coloca Braga num plano de verdadeira excelência e não de mero folclore no campo cultural nacional. Vir à Noite Branca é rumar à maior romaria cultural do país. E chamo-lhe romaria sem qualquer sentido pejorativo, mas com sincera admiração pelo carácter popular e comunitário de um evento de massas que se preocupa com os gostos de todos. Uma palavra é devida para a organização, para a Câmara Municipal, para as empresas municipais mais diretamente envolvidas como a Faz Cultura, a Agere e os TUB, pelo profissionalismo e extremos cuidado com que tornaram possível este sucesso. Ao mesmo tempo, há que agradecer sentidamente aos que não puderam usufruir deste momento único, mas sem os quais nenhum de nós o poderia fazer: trabalhadores municipais, forças de segurança, forças de proteção civil, profissionais de saúde, trabalhadores dos museus e edifícios culturais.
Aos artistas que criaram, criam e continuarão a criar a razão de ser da nossa distinta condição humana, o meu muito obrigado. Até para o ano.
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