Desde que o mundo é mundo, a gente tenta olhar pras profissões mais antigas com carinho, como se o ato de trabalhar por anos em algo fosse positivo ou prazeroso. Entre as carreiras mais importantes do mundo está a de professor. E tudo que eu sabia até ontem sobre professores está um pouco equivocado. Valeu, Michelle Pfeiffer (Mentes Perigosas). Valeu, Débora Bloch (Segunda Chamada), mas a realidade não é bem assim. Parte por que existe muita idealização em torno e também porque eu não havia colocado os pés dentro dessa água geladíssima que é a educação.
Tudo parecia brilhante quando me convenceram, em 2024, a entrar no PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), onde eu teria minha primeira experiência em sala de aula na educação básica do Mato Grosso. E foi ótimo: ao longo dos últimos dois anos, visitei semanalmente uma escola daqui, com supervisão de uma excelente profissional dentro de sala. Estive em contato com turmas do oitavo e nono ano e não vou negar que morri de medo de ser engolido pelas crianças logo de cara. Porém, antes que eu pudesse abrir a boca, adotei uma estratégia que moldaria meu perfil como docente.
Não achar que sou eu contra os alunos.Tentei abrir contato com eles para saber como eles eram enquanto pessoas. Entrei com humildade, serenidade e apertos de mão naquela rotina. Com o tempo, os apertos de mão viraram uma marca, cumprimentos mais elaborados e com sinal de afinidade, igual a gente fazia com os amigos da infância. Pra saber falar com os mais jovens (considerando que há mais de 20 anos de diferença entre nós), eu precisei ativar um lugar da minha mente que há muito estava escondido, o da socialização adolescente. Estudei durante toda a juventude em um lugar que parecia um presídio, os alunos eram tratados como lixo e muitos deles cresceram acreditando nisso sem grande expectativa para o futuro.
A partir de quando entrei na sala e decidi escanear quem eram os alunos mais bagunceiros para me aproximar deles, muita coisa foi mudando. Já se foram dois anos desde aquele dia. Mudou sobretudo a carga horária em que eu me presto a ser professor. Eu achava que tinha entendido como as coisas funcionavam até entrar no estágio de regência. E com certeza me empolguei muito quando comecei a dar minhas aulas autorais de português como língua estrangeira. Alguns pensamentos se consolidaram desde então, outros nem tanto. O principal deles é:o professor precisa urgentemente parar de se colocar como refém do sistema.
Isso quer dizer que os professores não sejam acossados por uma estrutura cada vez mais engessada e acrítica?Não. Eles/nós são/somos.Entre o que é humanamente possível de se fazer e o exigido, existe uma grande distância. Existem muitos relatos hoje em dia de profissionais que atendem a um estereótipo que considero bastante perigoso:o professor cansado.Não quero individualizar e nem generalizar uma questão complexa como essa, por isso me atenho à postura e sei que todos estão sobrecarregados. Toda vez que começamos um horário trabalhando à base da cobrança por rendimento, estamos fadados, nós e os alunos, a fracassar. E é muito fácil para mim, um novato nesse ofício, chegar e apontar o problema como se fosse simples de resolver. Porque não é.
O professor novato sempre tem uma energia diferente de quem está há 10 anos na escola. Que dirá os que estão há 20, 30 ou mais. No entanto, não vou fazer daqui a cinco anos o que planejo fazer agora como docente ou educador. Por isso mesmo, não é interessante criar maus hábitos e práticas. Uma coisa é certa: o meu compromisso não é com o trabalho, é com as vidas que passam pela sala. Cheguei a pensar em certo momento que era muito idealista da minha parte. Ainda não cheguei a uma resposta. Penso ser mais sobre senso de responsabilidade do que qualquer outra coisa. Se a gente não der importância pro desenvolvimento dos estudantes e apenas perseguirmos transmitir todo o conteúdo do livro didático, estaremos roubando um tempo deles que não volta mais.
Tem muita gente que precisa da nossa intervenção e mediação. Gente que quer aprender, que quer crescer e até tem vontade de enxergar a escola de um jeito diferente. Veja: eu tive trauma e pavor do ensino médio por muitos anos. Mais do que eu gostaria. Voltar a estudar, por si só, foi uma decisão muito difícil, por tudo que passei e por detestar estar em sala com professores que não se importavam comigo. Os que faziam diferente eu lembro pelo nome até hoje: Sylvio, Rosana, Maria Isabel, Teresinha e Luciana. A gente não pode se furtar de fazer algo pelos nossos alunos. Dá trabalho, cansa, mas viver também é exaustivo.
É verdade também que a maioria dos alunos não tem o menor interesse no que falamos? Sim. Mas de quem é o trabalho de convencê-los de que isso é necessário dali em diante? É dos pais? É dos próprios estudantes? Não. Se a gente não tentar se comunicar com eles e manter a relação sempre na superfície do 'eu mando, vocês obedecem, é melhor me respeitar', não tem jeito. E é muito fácil entrar nesse modo. Por sinal, é a coisa mais fácil que há em ser professor. A sede pelo pequeno poder. É sedutor agir como juiz numa sala pequena repleta de gente, gritar, mandar para a coordenação para passar um recado. Tudo isso é necessário, dependendo do caso. Mas não para o todo.
O que não quer dizer que a autoridade não deva ficar clara. Ela é uma camada que fica evidente sob vários outros aspectos. Cada um tem seu papel dentro da escola, isso vai do aluno até o diretor. E se as tratativas forem harmônicas, tudo funcionará bem. Aliás, não deixa de ser irônico que eu tenha passado por duas escolas completamente diferentes até agora, uma cívico-militar e outra confessional (religiosa). E a que tem menos problemas de indisciplina e bagunça é a confessional.
Convivo (até o fim dos estágios) com militares do exército nos corredores e às vezes é como se eles não estivessem ali. Então, desconstruo desde já essa falácia de que a autoridade é tudo numa escola. De que adianta ter poder se você não respeita as pessoas e elas não te respeitam de volta? Vou além: como esperar que um jovem se comporte bem quando o ambiente da sua casa é um lugar hostil ou de baixo incentivo?
Pisei na bola algumas vezes nesses dois anos, durante o PIBID (ensino fundamental), mas a atual turma na qual compareço é a que mais me coloca para refletir. Cheguei de maneira provisória por mudança de horário, mas depois das férias, as coisas desandaram. E depois de tanto tempo, é difícil retomar. Tenho de admitir que o peso do 'quando isso vai acabar?' é grande. Não vou ser cínico e agir como se eles não percebem que eu não quero mais estar ali. Eles já não ouvem o que eu falo com a mesma paciência de antes. Por que eu só cobro, não ouço ninguém e dificilmente alguém pede a minha ajuda pra algo.A culpa é minha, de quem mais?Em todas as outras turmas que eu dou aula como regente ou auxiliar, esse problema não existe. Tanto pela novidade quanto pelos laços que já formamos.
Não me esforcei mais para entrar no espírito dessa turma do PIBID, e seria muito fácil atribuir a eles a responsabilidade de não se darem bem comigo, se desde o começo eu mesmo não tive isso como prioridade. Quando reencontro algum aluno das turmas anteriores, ouço aquela frase que faz todo professor repensar o trauma e as dores:quando você vai dar aula pra gente de novo?Eu só não chorei por que tomo dois ansiolíticos.
Retomo o uso da palavratraumapor um momento. Por que ele é uma chave para entender melhor a grande crise da educação. E nesse ponto aqui eu preciso direcionar a mira para a falta de consciência de classe e coleguismo de professores da rede pública. Alguns conhecidos meus de faculdade se encontram completamente desiludidos antes mesmo de receberem o diploma, e isso já não é mais algo que tentam esconder. Eles não veem saída e não criaram interesse na docência, mas enxergam valor em carreiras paralelas. Não que haja algum problema com isso, afinal de contas, tem que ser mesmo meio maluco pra enxergar tudo isso e ainda querer continuar com entusiasmo.
E a julgar pela posição que esses formandos se encontram, como é que eles pensariam diferente? A escola e os professores mediadores mostram pra eles um mundo diferente do que é pintado? Ou apenas fazem com que os estagiários passem pelos mesmos ritos de fogo a que eles um dia foram submetidos? Que eles comecem a ser explorados desde a saída da faculdade até a vivência em sala de aula?Será que a base de uma carreira na educação tem mesmo de ser o trauma?Ouvi casos (e vivi algo parecido) de estagiários que simplesmente foram largados na sala de aula pelo mediador, para se virarem dentro das condições de trabalho sem orientação, preparo, nada. Se vira nos 30 e boa sorte. Nem todo mundo dá sorte.
Ainda que eu acredite que essa vivência nos prepara, existe uma série de passos a serem dados antes que isso aconteça. E o processo não é respeitado justamente por que os professores, velhos ou novos, muitas vezes não demonstram compaixão pelos seus semelhantes. Isso se dá desde a licenciatura, que deveria ser um período formativo e prazeroso, mas que por vezes lembra uma caminhada de pés descalços na brasa, para atender aos impulsos sádicos de alguns poucos. Contudo, nunca ninguém se responsabiliza, não dá pra fazer nada, é sempre tudo culpa do sistema, das regras, das portarias, dos regimentos. Regras são feitas e cumpridas por pessoas. Pessoas decidem processos.
Dentro de tudo isso que se sabe sobre educar, o papel do sistema no fracasso escolar, discursos contra o ensino superior e a precarização dos docentes, e nada disso é invenção ou exagero. Mas não é possível alguma saída? Acabou? É isso que esperam que a gente diga e faça: não há outro jeito, então faremos assim.
Querem que a gente odeie a educação tanto quanto eles. Por que se quem faz a educação estiver cansado, desiludido e obcecado com o controle e o pequeno poder de ser docente, não há nenhuma chance das coisas andarem para a frente. Se há algum conflito necessário em todo o sistema educacional, ele com certeza não pode se dar entre professores e alunos, as duas pontas desse processo. A luta é contra quem quer controle em um ambiente no qual mais se prega a liberdade.
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