Uma das trajetórias mais exuberantes da história política brasileira ganha agora um registro biográfico de fôlego, em projeto editorial que pretende reconstituir em dois volumes a vida de Leonel Brizola, personagem que atravessou golpes, exílio e redemocratização sem perder a capacidade de mobilizar multidões. O primeiro tomo, com 456 páginas e preço de R$ 99,90, chega às livrarias pela Companhia das Letras e cobre desde a infância pobre no interior gaúcho até o fim dos anos 70, quando o país ainda vivia sob o regime militar. A obra, assinada pela jornalista Karla Monteiro, parte de arquivos pessoais e de uma vasta pesquisa histórica para explicar como um jovem quase desconhecido, militante da juventude do PTB, se transformou em menos de uma década em governador do Rio Grande do Sul e, antes de completar 40 anos, em protagonista de um dos episódios mais delicados da sucessão presidencial brasileira.
O ponto de partida da narrativa não é apenas a biografia individual, mas o ambiente social e político que a tornou possível: o Rio Grande do Sul da primeira metade do século XX, marcado por disputas locais e pela força de lideranças como Borges de Medeiros, e a ascensão nacional de Getúlio Vargas, que viria a se tornar a principal referência política de Brizola. A autora acompanha ainda os anos finais da Segunda Guerra Mundial e o processo de redemocratização que remodelou o país, mostrando como essas correntes históricas confluíram para a formação de um político intuitivo, pragmático e avesso a dogmas teóricos.
Da pobreza em Carazinho ao centro do poder
A trajetória de Brizola começa em Carazinho, onde nasceu em condições bastante modestas e precisou trabalhar ainda adolescente como engraxate e ascensorista para ajudar no sustento da família. A saída encontrada foi o estudo, uma espécie de obsessão que o acompanharia por toda a vida pública e se tornaria a base de suas principais bandeiras de governo. A educação, para Brizola, não era um tema entre outros, mas a condição estrutural para o desenvolvimento individual e coletivo do país, o que justificaria mais tarde sua ênfase na construção de escolas, na valorização de professores e na alimentação escolar como política de estado.
Formado em Engenharia Civil, Brizola encontrou no trabalhismo de Alberto Pasqualini suas primeiras referências teóricas, mas foi mesmo a experiência concreta e a intuição que moldaram sua consciência política. Diferentemente de muitos jovens de sua geração, ele não se encantou pelo comunismo e preferiu ancorar sua atuação no legado de Getúlio Vargas, de quem se aproximou a ponto de se casar com Neuza Goulart, irmã mais nova de João Goulart, então um fazendeiro em ascensão. A partir dessas conexões familiares e partidárias, Brizola percorreu uma escalada rápida: elegeu-se deputado estadual, passou pela Câmara, cumpriu um meio mandato na prefeitura de Porto Alegre e chegou ao Palácio Piratini, onde seu estilo enérgico de governar chamaria atenção do país.
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