Com cartazes que exibiam frases como "Wir sind mehr" ("Somos mais") ou "Nie Wieder ist jetzt" ("Nunca mais é agora"), manifestantes de várias idades concentraram-se nesta zona central da capital alemã para contestar a ascensão do partido. Os organizadores da ação, como a organização não-governamental Campact ou movimento ecologista Fridays for Future, falam em 14 mil pessoas, enquanto as estimativas da Polícia berlinense apontam para cerca de 3.500 manifestantes.
À agência Lusa, Hans Jürgen, de 82 anos, lamenta que a Alemanha esteja a repetir os erros do passado não tão distante. Admite ter medo que o crescimento da AfD se estenda a outros estados federados. "Em Berlim não vejo esse perigo, mas sim para a Alemanha", sublinha, agarrando uma bandeira do partido Die Linke (A Esquerda).
No palco vão falando ativistas, organizadores, à frente de uma mensagem a letras gordas que sintetiza o motivo da manifestação: "AfD Stoppen" ("Acabar com a AfD").
Christoph Bautz, diretor executivo da organização Campact, considera que o resultado eleitoral na votação de domingo na Saxónia-Anhalt deve servir de alerta. "Estamos todos horrorizados com o resultado dos extremistas de Direita da AfD na Saxónia-Anhalt", sustenta Bautz, defendendo que o partido pretende usar o resultado como "trampolim" para aumentar a influência no Leste e, depois, em toda a Alemanha. "Não queremos que a História se repita. Os fascistas não podem voltar ao Governo", acrescenta, em declarações à Lusa minutos antes de subir ao palco.
Perto da maioria absoluta
A AfD venceu as eleições de domingo na Saxónia-Anhalt com 43,8% dos votos e conquistou 39 dos 83 lugares no parlamento regional, ficando a apenas três deputados da maioria absoluta. A União Democrata-Cristã (CDU), a força política do chanceler Friedrich Merz e que liderava o governo local desde 2002, caiu para 17,2%, depois de ter obtido 37,1% em 2021.
O resultado deixa em aberto a formação do próximo governo. A AfD não dispõe sozinha de deputados suficientes para governar e o BSW (Aliança Sahra Wagenknecht, Esquerda), que conseguiu ultrapassar a barreira dos 5% e assim conseguir entrar no Parlamento estadual, tornou-se uma das peças relevantes para a composição de maiorias. O partido, formado em 2024 por uma fação dissidente do partido de Esquerda Die Linke, mantém abertura para negociar com diferentes forças, incluindo a AfD.
É precisamente essa possibilidade de cooperação que Christoph Bautz contesta. "A AfD não tem maioria para um governo sozinho na Saxónia-Anhalt. Agora entra o BSW. Serão eles apoiantes dos fascistas? E haverá deputados individuais da CDU que votem com eles ou não?", questiona.
Para o responsável da Campact, a mobilização nas ruas pode influenciar o debate político. "Uma democracia tem de ser defensável", afirma, argumentando que um partido que, na sua avaliação, se torna "cada vez mais radical, cada vez mais de extrema-direita" deve ser proibido. "É também por isso que vamos para a rua, para que o Bundestag [Parlamento federal alemão] e o Bundesrat [Conselho Federal no qual estão representados os 16 estados federados alemães] iniciem já esse processo de proibição", acrescenta.
"Todos juntos contra o fascismo"
Do palco, ouvem-se repetidamente palavras de ordem: "Alle zusammen gegen den Faschismus" ("Todos juntos contra o fascismo") ecoadas pelo público presente.
Maria, de 76 anos, também veio protestar contra a AfD. Diz não ter medo, mas considera importante manifestar-se contra um partido que, na sua opinião, "divide a sociedade", consegue atrair muitos eleitores e procura apresentar-se como uma força respeitável. "É disso que tenho receio", acrescenta, mostrando-se satisfeita por ver muitos jovens entre os manifestantes.
Além desta manifestação em Berlim, há dezenas de protestos marcados para todo o país.
O resultado das eleições de domingo representa um forte revés para a CDU do chanceler Friedrich Merz, que sofreu uma derrota histórica na Saxónia-Anhalt e enfrenta agora pressão sobre a estratégia do partido perante a subida da AfD. Nenhuma região alemã foi governada pela extrema-direita desde 1945.
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