Ouça este artigo
Clique para reproduzir
Ouvir este artigo
Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, mais de 170 mil documentos até agora inéditos estão a revelar o que as autoridades de Nova Iorque sabiam sobre a qualidade do ar em redor de Ground Zero nas semanas que se seguiram à queda das Torres Gémeas. E mostram que níveis perigosos de contaminação estavam a ser detetados enquanto responsáveis públicos minimizavam os riscos para a saúde.
Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›
Segundo avança a BBC, os documentos mostram que foi encontrado amianto 'em quase todo o lado' onde foram realizados testes nas proximidades de Ground Zero, afirmou o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, durante a apresentação dos ficheiros.
'As pessoas adoeceram porque os líderes em quem confiavam mentiram e lhes disseram que era seguro respirar ar tóxico', acusou Mamdani, acompanhado por sobreviventes dos atentados e pelo apresentador e ativista Jon Stewart.
A dimensão dessa segunda tragédia é hoje enorme. De acordo com responsáveis de saúde dos EUA citados pela BBC, as doenças relacionadas com o pó e o fumo libertados pelo colapso das Torres Gémeas já provocaram mais mortes do que os próprios atentados.
Milhares de pessoas desenvolveram problemas de saúde, incluindo cancro, depois de terem respirado os contaminantes libertados pela destruição do World Trade Center.
Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade
170 mil documentos vêm agora a público
A divulgação resulta de uma batalha judicial promovida pelo grupo 9/11 Health Watch, que exigia acesso aos documentos.
As autoridades municipais encontraram no ano passado 68 caixas contendo estes registos, apesar de anteriormente terem afirmado que não os possuíam. Mais documentos deverão ser publicados ao longo do próximo ano.
A autarquia vai gastar mais de 34 milhões de dólares no processo de divulgação, que pretende esclarecer aquilo que a cidade 'sabia sobre o ar tóxico em redor de Ground Zero, quando o soube e como agiu para limitar a responsabilidade', segundo Mamdani.
Os documentos incluem relatórios sobre a qualidade do ar e outros registos produzidos após os atentados.
Continue a ler após a publicidade
Autoridades disseram que o ar era seguro
Nos dias seguintes ao 11 de Setembro, responsáveis municipais e federais, incluindo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), transmitiram publicamente a ideia de que o ar nas proximidades das Torres Gémeas era seguro.
Mas os documentos agora divulgados acrescentam informação sobre aquilo que estava a ser detetado nos bastidores.
Entre os ficheiros encontra-se um memorando de outubro de 2001, conhecido como 'Harding Memo', no qual um assessor alertava o então vice-presidente da Câmara Robert Harding, durante a administração de Rudy Giuliani, para a possibilidade de Nova Iorque enfrentar até 35 mil processos judiciais relacionados com a resposta aos atentados.
O documento admitia que a cidade poderia ser responsabilizada porque os avisos de saúde tinham levado pessoas a 'regressar à zona demasiado cedo', expondo-as a substâncias tóxicas.
Continue a ler após a publicidade
Christine Todd Whitman, que dirigia a EPA na altura, acabaria mais tarde por pedir desculpa pelas garantias dadas sobre a segurança do ar, defendendo, contudo, que a agência tinha feito 'o melhor que podia' com a informação disponível naquele momento.
'Só esconderam essa informação durante 25 anos'
Jon Stewart, que há anos acompanha a luta dos sobreviventes e dos trabalhadores de emergência do 11 de Setembro, usou a ironia para descrever o que os documentos agora revelados representam.
Segundo Stewart, os registos mostram que as autoridades municipais reconheceram em outubro de 2001 que o ar respirado pelas pessoas no sul de Manhattan era tóxico.
'Portanto, para sermos justos com eles, só esconderam essa informação durante 25 anos', afirmou.
Para quem esteve em Ground Zero, porém, o perigo parecia evidente desde o primeiro momento.
Continue a ler após a publicidade
Elizabeth Cascio, antiga técnica de emergência médica dos bombeiros de Nova Iorque, contou anteriormente à BBC que começou a sofrer problemas nos seios nasais e dores de cabeça depois de responder aos atentados.
'Todos sabíamos que a qualidade do ar não era segura', recordou. Ao chegar ao World Trade Center, acrescentou, a sensação era de que era necessário prender a respiração.
Um quarto de século depois, os documentos agora tornados públicos ajudam a reconstruir não apenas aquilo que estava no ar depois da queda das Torres Gémeas, mas também aquilo que as autoridades sabiam enquanto milhares de trabalhadores, moradores e sobreviventes continuavam expostos.
(0)Comments