No compasso delicado de 'Pra Sonhar', de Marcelo Jeneci, a educadora física Norayra Lima e a assessora jurídica Catherine de Azevedo escolheram traduzir um dos instantes mais luminosos de sua história. Unidas há quase vinte anos e casadas desde 2021, elas emocionaram amigos e seguidores no último dia 15 ao anunciar que a família cresceu.
O gesto, carregado de ternura, coroou um percurso longo e paciente de Fertilização in Vitro (FIV), caminho que transformou em realidade o sonho traçado logo após o casamento, como se a canção tivesse se tornado profecia.
Na sexta-feira (4), teve início a 20° Semana Acreana da Diversidade, que se estende até 13 de setembro. A celebração marca duas décadas de história e resistência da comunidade LGBTQIA+ no estado. É um tempo de memória e afirmação, em que histórias como a de Norayra e Catherine se tornam símbolo de narrativas que falam de amor e de direitos, de uma vida plena garantida por lei, mas tantas vezes atravessada pelo preconceito.
A decisão pela maternidade foi tratada com o cuidado de quem prepara terreno fértil para receber um sonho. Norayra e Catherine se dedicaram a um processo de preparo mental e físico, em que terapias, longas conversas e estudo constante se tornaram pilares.
Cada passo foi pensado para que o caminho fosse trilhado da melhor forma possível, uma travessia de paciência e esperança, marcada pela delicadeza de quem sabe que gerar uma vida é também gestar coragem.
'Nesse processo, percebi que a dupla maternidade ainda era um assunto pouco falado. Comecei, então, a pesquisar na internet para entender melhor como outras famílias tinham vivido essa experiência. Foi quando conheci o trabalho da Marcela Tiboni, que também é mãe em uma família com duas mães, e descobri seu livro 'Mama: Um relato de maternidade homoafetiva'. A leitura despertou ainda mais a minha curiosidade e, a partir daí, vieram inúmeras pesquisas, até eu conhecer o método Recepção de Óvulos da Parceira [Ropa] dentro da Fertilização in Vitro', relembra Norayra.
Um sonho possível
Neste método, uma das parceiras toma hormônios para produzir óvulos. Os médicos retiram os óvulos em uma pequena cirurgia e são unidos em laboratório com o sêmen de um doador anônimo ou de um familiar sem parentesco próximo. O embrião formado vai para o útero da outra parceira, que fica grávida e gera o bebê.
Catherine ofereceu os óvulos e Norayra está gestando. Assim, ambas se tornaram parte viva e inteira desse processo, numa experiência que a educadora física descreve como especial e completa. Para Catherine, no entanto, o caminho exigiu mais que ciência, sendo uma travessia emocional, por vezes pesada.
'Nós fizemos terapia e tivemos que nos preparar para lidar com todas as expectativas e inseguranças que envolvem um tratamento como esse. Também houve uma preparação física. No meu caso, precisei ajustar a alimentação e cuidar da saúde para melhorar as condições de produção dos óvulos. E, além de tudo isso, existe a questão financeira e logística. A fertilização in vitro é um procedimento caro, então foi necessário planejamento e organização durante alguns anos para que esse sonho pudesse finalmente se tornar realidade', contou a assessora jurídica.
Amor em multiplicação
Ao decidirem pela maternidade, Norayra e Catherine encontraram no apoio das psicólogas e dos amigos a força necessária para atravessar a ansiedade e as expectativas que naturalmente acompanham um processo como esse. 'Às vezes penso que poderíamos ter tomado essa decisão antes, mas hoje vejo que tudo aconteceu no tempo certo. Estamos mais maduras, mais preparadas e, principalmente, prontas para viver esse momento plenamente', reflete Norayra.
Para Catherine, cada passo é como escrever um novo capítulo de uma história construída com paciência, respeito e, acima de tudo, amor. 'Hoje estamos vivendo uma fase que durante muito tempo foi apenas um sonho. Poder olhar para tudo o que passamos e saber que nossa filha está chegando torna esse caminho ainda mais especial', diz, com a serenidade de quem vê o futuro se aproximar em forma de vida.
Entre os maiores desafios, Norayra e Catherine apontam a questão financeira e a dor de lidar com os resultados negativos. Mesmo conscientes das possibilidades, os dois primeiros insucessos exigiram resiliência e coragem para continuar insistindo no sonho da maternidade.
'Na prática, a gente vai para cada transferência com a expectativa muito alta e com muita fé de que vai dar certo. Então, depois das duas primeiras negativas, foi muito difícil lidar com a sensação de que ainda não era a nossa vez. A gente começa a se questionar: será que existe algum problema de saúde? Será que não é para a gente ser mãe? Será que precisamos olhar para isso de outra forma? São muitas dúvidas que passam pela cabeça. Mas nós nunca pensamos em desistir', relembra Catherine.
Norayra, por sua vez, conta que foi preciso acolher os sentimentos e dar espaço para que cada uma elaborasse sua dor. Mas, o apoio mútuo nunca se perdeu.
'Percebi que o nosso sonho era muito maior do que toda aquela tristeza e frustração e que, provavelmente, eu me sentiria muito mais triste se desistisse do que se tentasse novamente. Então, decidimos nos dar um tempo para que cada uma pudesse acolher a própria dor, se entender e, juntas, decidir se estávamos prontas para tentar de novo.'
Pluralidade das famílias
Por mais que os avanços sejam visíveis quando o tema é diversidade, Norayra acredita que ainda falta informação para que preconceitos e tabus sejam, de fato, quebrados. Afinal, família, como define o dicionário, é o conjunto de pessoas ligadas por parentesco ou laços afetivos que compartilham um lar, e os formatos são muitos.
'Um exemplo disso é a licença-maternidade. Hoje, por ser a mãe não gestante, a Catherine tem direito a uma licença equivalente à paternidade. Isso, para nós, não é justo nem representa a nossa realidade: ela não é pai, é a outra mãe. O ideal seria que as duas mães tivessem direitos equivalentes aos da mãe gestante. E são justamente essas situações que mostram como ainda temos muito a avançar. Nós existimos, nossas famílias existem e precisamos nos sentir amparadas como qualquer outra família. Às vezes, as pessoas não compreendem as nossas lutas porque não percebem que situações extremamente comuns para outras famílias podem se transformar em preocupações para nós', pontua.
Catherine lembra também da postura de alguns profissionais durante o pré-natal, que não a reconheciam como mãe. A saída foi redobrar o cuidado na escolha de quem estaria ao lado delas nesse momento tão delicado. 'Somos duas mães, fizemos uma fertilização in vitro e estamos ali para sermos acolhidas e atendidas como qualquer outra família', reforça.
Agregar e acolher
Para Norayra, o preconceito não é distante. A mãe nunca aceitou o relacionamento com Catherine, e o afastamento se prolonga por anos. Ainda assim, ela encontrou formas de se manter próxima de quem celebra sua felicidade e a chegada da filha.
'É claro que isso me dói, mas tenho aprendido a lidar com essa ausência. Tenho procurado me apegar a quem realmente me ama pelo que eu sou, e não pelo que gostaria que eu fosse. Por isso, tenho fortalecido os vínculos com outros membros da minha família, como minha irmã, minha avó, algumas tias e primos. E, neste momento tão marcante, tive também uma grata surpresa: meu pai, que sempre foi mais ausente, se aproximou e ficou extremamente feliz com a notícia de que será avô. A família da Cathe também tem me acolhido de uma forma muito bonita. Os pais dela estão em êxtase com a chegada da netinha, e os bisavós também estão muito ansiosos.'
Rede de apoio
Norayra e Catherine decidiram esperar alguns meses antes de tornar público o processo. Mas, quando anunciaram nas redes sociais, perceberam que aquele espaço poderia se tornar um canal de informação para outras famílias que sonham com a maternidade.
Elas sabem que ao se expor podem enfrentar preconceito, desinformação e até comentários criminosos, mas ainda assim, enxergaram na partilha uma oportunidade de abrir caminhos e mostrar possibilidades.
'Com a nossa experiência, conhecemos alternativas e pudemos compartilhar esse conhecimento com outras mulheres. Isso nos mostrou que há muita gente lutando para realizar o sonho de ter uma família, muitas vezes em silêncio. Não porque não querem falar, mas porque ainda existe muito preconceito e falta de informação sobre as diferentes formas de construir uma família', explica Catherine.
Norayra, por sua vez, nunca hesitou em dividir sua história, pois sabia como era difícil encontrar referências sobre dupla maternidade. 'Principalmente de mulheres vivendo essa experiência longe dos grandes centros. Para mim, compartilhar publicamente é pensar que pode existir alguém, em algum lugar, precisando justamente daquela informação que um dia eu procurei e não encontrei.'
Para elas, tornar público é também um gesto político de mostrar a outros casais LGBT+ que existem diferentes caminhos para a construção familiar. 'Queremos contribuir para a criação de uma rede em que essas famílias possam se apoiar, trocar experiências e, principalmente, criar espaços para que nossas crianças cresçam e convivam sem sofrer discriminação.'
Novos planos
Se em 2021 os planos giravam em torno de uma casa, filhos e a construção diária de uma parceria, agora todo o futuro se desenha com a presença da terceira integrante da família. Essa pequena, já tão amada e ainda sem nome, chega para somar e transformar. O desejo das mães é que o mundo que a acolherá seja mais justo e generoso, um espaço onde possa crescer livre, segura e cercada de afeto.
'Uma coisa que sempre foi primordial para nós, independentemente de ser menino ou menina, era que ela fosse uma pessoa de bom caráter, empática e humana. Agora, sabendo que é uma menina, acrescentamos a esse desejo que ela saiba que tem o mundo inteiro para explorar e viver, mas que também sempre terá para onde voltar. Que saiba que estaremos aqui para ela, que seja uma menina e, no futuro,
uma mulher forte, corajosa e independente, e que cresça sabendo que pode ser e fazer qualquer coisa que quiser. Sabemos que nem sempre será fácil e que ela vai encontrar desafios pelo caminho, mas queremos que ela tenha a certeza de que sempre terá a gente para apoiá-la, impulsioná-la e, se for preciso, defendê-la', revela Norayra.
Para Catherine, ser mãe também significa assumir uma missão de contribuir para que a sociedade esteja mais preparada para lidar com a pluralidade das famílias. 'A nossa filha já está nos ensinando que os nossos sonhos não terminam quando realizamos um deles. Agora temos um novo desafio de construir para ela um mundo em que possa crescer sabendo que sua família é tão legítima, tão digna de amor e tão merecedora de respeito quanto qualquer outra.'
Pioneirismo e referência
Norayra e Catherine são pioneiras na dupla maternidade por meio da fertilização in vitro no Acre, e, para Catherine, esse marco vem acompanhado de responsabilidade. Afinal, as torna referência para outras mulheres que sonham com o mesmo caminho.
'Estamos muito dispostas a ajudar. Hoje, já conversamos e trocamos experiências com amigas que começam a se preparar para a fertilização in vitro com suas esposas ou companheiras. Tem sido muito especial poder compartilhar o que aprendemos e, de alguma forma, tornar mais leve um percurso que para nós foi mais difícil', conta.
O conselho que deixam é simples e profundo: buscar informação, procurar profissionais preparados, organizar-se emocional e financeiramente e, sobretudo, não ter medo de acreditar no próprio sonho.
'Criem também uma rede de apoio com pessoas em quem confiem e com quem se sintam seguras. São essas pessoas que, nos momentos mais difíceis, vão lembrar vocês do porquê de estarem passando por esse processo e dar força para continuar. Às vezes, a possibilidade que vocês precisam existe, mas ainda não sabem. E, principalmente, não desistam do sonho de vocês', completa Catherine.
Um mundo melhor e mais humano
Para Norayra, a trajetória dela e de Catherine é uma prova de que o amor vence tudo. 'Inclusive, temos essa frase tatuada', contou. Ela relembra que o casal enfrentou lutas, medos e momentos difíceis, mas foi justamente a força desse amor que as manteve perseverando no desejo de permanecer juntas. Hoje, afirma, é esse mesmo sentimento que continua impulsionando a realização dos sonhos.
A educadora física reconhece que não é fácil lidar com rejeições, abandonos e olhares tortos. 'Mas, quando olho para a Catherine e sinto o amor que ela tem por mim, e confio no amor que tenho por ela, isso me faz sentir capaz de realizar qualquer coisa. A gente sempre diz uma para a outra: 'Se estivermos juntas, conseguimos'', relatou.
Norayra espera que, no futuro, os direitos da comunidade sejam respeitados e que casais como o dela possam viver o amor livremente em qualquer espaço, recebidos de forma igualitária. Ela defende também políticas públicas que atendam às necessidades reais da população LGBTQIA+ e uma sociedade que não limite ou defina pessoas pela orientação sexual.
'Eu não consigo entender por que as pessoas se preocupam tanto com quem o outro escolhe amar ou se relacionar. Isso deveria dizer respeito apenas a cada indivíduo. Não consigo entender por que ainda somos vistos como ameaça. Queria muito que as pessoas enxergassem a potência que tantos de nós temos e que a sociedade nos desse oportunidades para colocar essa potência a serviço da construção de um mundo melhor', afirmou.
Durante a Semana da Diversidade, Norayra fez questão de reconhecer o protagonismo das pessoas trans na luta pelos direitos da comunidade. Para ela, esse grupo ainda enfrenta mais violência e menos oportunidades.
'Quando uma pessoa da nossa comunidade conquista um direito, todos nós avançamos. Mas já passou da hora de a sociedade, e a própria comunidade LGBT+, voltar um olhar mais atento para as pessoas trans. Precisamos nos perguntar: quantas estão no ambiente de trabalho, nas escolas, ocupando os mesmos espaços que nós? Quando não estão, não é porque não querem, mas porque a sociedade falhou ainda mais com elas', destacou.
O desejo de Norayra para o futuro é que ninguém precise lutar para provar que merece existir, amar, trabalhar, estudar, construir uma família e ocupar qualquer espaço. 'Que a diversidade deixe de ser vista como ameaça e passe a ser reconhecida pelo que realmente é: uma potência capaz de tornar o nosso mundo melhor e mais humano', concluiu.
Falar de amor é cura
Para Catherine, falar sobre a própria família durante a Semana da Diversidade é também mostrar que a diversidade existe e está presente em todos os lugares. 'Não existe uma família igual à outra, assim como não existe um ser humano igual ao outro', afirmou.
Ela lembra que o casal enfrentou preconceitos e dificuldades, momentos em que precisaram ser fortes para construir a família que sempre sonharam. Mas também destaca que, ao terem coragem de se expor, receberam muito amor e apoio de pessoas que fizeram, e continuam fazendo, diferença em suas vidas.
'O que a gente espera é que a nossa história possa ser vista como uma possibilidade. Que uma pessoa LGBTQIA+ possa olhar para nós e pensar: 'Eu também posso ter uma família, eu também posso amar e construir uma vida feliz'', disse.
Catherine reconhece que, para muitas pessoas, esses sonhos ainda parecem distantes. Por isso, acredita que mostrar caminhos e possibilidades já é uma forma de contribuir. Ela reforça ainda o desejo de que a filha cresça em um mundo melhor, onde não precise explicar por que tem duas mães e onde sua família seja vista simplesmente como uma família.
'Queremos que a diversidade deixe de ser vista como algo a ser tolerado e passe a ser entendida como parte natural da sociedade. Que as pessoas possam existir, amar, construir suas famílias e viver com dignidade e respeito', destacou.
Para ela, a história particular que vive com Norayra também faz parte de uma narrativa maior, de tantas pessoas que ainda lutam para viver plenamente quem são. 'A gente quer contribuir, nem que seja um pouquinho, para que essas pessoas se sintam acolhidas, tenham acesso à informação e percebam que não estão sozinhas', disse.
Na Semana da Diversidade, Catherine deixou sua mensagem: 'Ninguém deveria precisar lutar para provar que merece respeito. Toda família merece respeito e toda forma de amor merece ser respeitada.'
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