Um adolescente que passa a madrugada assistindo vídeos sobre looksmaxxing, feromaxxing e hierarquias de valor sexual masculino carrega, quase sempre, uma história anterior a essa tela. Antes do algoritmo, existiu uma sala de aula em que ele foi o último escolhido, um grupo de colegas que ria de seu corpo, uma paquera que o ignorou publicamente, um pai ausente ou um pai que exigia dureza como prova de valor. A manosfera, o red pill, a cultura incel, as comunidades de autoaperfeiçoamento masculino baseadas em pseudociência evolutiva encontram esse menino já ferido e oferecem a ele algo que poucas outras instituições sociais souberam oferecer com a mesma velocidade: uma explicação completa para sua dor e um lugar onde essa dor é reconhecida como legítima. Compreender esse encontro como fenômeno psicológico, social e econômico é a tarefa que este ensaio se propõe, na convicção de que a reação de repulsa moral diante do conteúdo misógino, sendo necessária, é insuficiente como resposta clínica e como política pública.
Três posições dentro de um mesmo fenômeno
A discussão pública sobre a manosfera tende a tratar seus participantes como um bloco homogêneo, e essa homogeneização produz diagnósticos equivocados e intervenções malsucedidas. Existem, dentro desse ecossistema, posições estruturalmente distintas. Há os produtores e vendedores, criadores de conteúdo, coaches de pick-up, vendedores de suplementos e cursos de masculinização corporal, que transformam a insegurança alheia em modelo de negócio e cuja atividade central é a monetização sistemática do sofrimento masculino. Há os consumidores regulares, homens já engajados que participam de fóruns, compram produtos, seguem influenciadores e reproduzem a linguagem da comunidade em suas próprias vidas. E há os adolescentes e homens jovens em processo de chegada, sujeitos que tropeçam nesse conteúdo em momentos de solidão aguda, humilhação recente, isolamento social, dificuldades de leitura crítica de mídia, pobreza, sofrimento psíquico não tratado ou características do neurodesenvolvimento que tornam a decodificação de sinais sociais complexos mais custosa. Tratar esse terceiro grupo com a mesma severidade analítica reservada ao primeiro produz um erro de proporção: convert-se em cúmplice ideológico alguém que, na maior parte dos casos, está mais próximo de vítima de um sistema de captura de atenção do que de autor desse sistema. Vale registrar, com o rigor que o tema exige, que vulnerabilidade individual e condições de neurodesenvolvimento constituem fatores de risco contextuais, nunca explicações automáticas ou deterministas para a adesão a ideologias misóginas, e que a maioria esmagadora de adolescentes solitários, neurodivergentes ou humilhados jamais adere a essas comunidades.
Da dor real ao pertencimento distorcido
A pesquisa de Matteo Botto e Lucas Gottzén sobre as trajetórias de entrada e saída da manosfera oferece um dos quadros mais precisos disponíveis sobre esse processo. Os autores mostram que jovens se sentem atraídos pela ideologia red pill principalmente pela pressão sentida em corresponder a padrões de masculinidade heterossexual, sobretudo os relacionados a atratividade física e sucesso sexual, padrões vividos como inatingíveis e produtores de uma sensação profunda de vulnerabilidade. Essa autoidentificação como vulnerável funciona como uma forma de política identitária masculina centrada na vitimização, na qual a ideologia red pill fala diretamente à experiência de marginalização no cenário dos relacionamentos e promete restaurar o valor de mercado sexual do sujeito e, por extensão, sua masculinidade. O ponto relevante dessa pesquisa é justamente a dimensão emocional do fenômeno: humilhação, fracasso relacional e a percepção de não alcançar os padrões hegemônicos de masculinidade heterossexual moldam tanto a entrada quanto, em muitos casos, a saída desses homens da manosfera, o que sugere que a mesma ferida que os levou até ali pode, sob outras condições relacionais, conduzi-los para fora.
Esse processo de acolhimento inicial merece descrição cuidadosa, porque explica boa parte da eficácia dessas comunidades. Um menino humilhado publicamente, isolado de seus pares, sem vocabulário para nomear vergonha e raiva, encontra num fórum ou numa série de vídeos curtos uma linguagem pronta: sexual market value, looksmaxxing, hipergamia, blackpill. Essa linguagem cumpre uma função psicológica genuína, a de dar forma a um sofrimento difuso, oferecendo identidade, comunidade e a sensação de que existe uma explicação racional, quase científica, para experiências que antes pareciam apenas fracasso pessoal incompreensível. A transformação ideológica ocorre no passo seguinte, quando essa mesma comunidade desloca a origem do sofrimento para fora do sujeito e a deposita sobre mulheres, sobre o feminismo, sobre mudanças sociais amplas, convertendo dor privada em ressentimento político organizado. A pesquisa de Emma Renström e Hanna Bäck sobre manfluencers documenta esse mecanismo com precisão experimental. Em levantamento com homens suecos, as autoras encontraram que jovens que seguem mais manfluencers desumanizam mais as mulheres, e em experimentos com conteúdo fictício de ameaça à identidade masculina, os participantes expostos tornaram-se mais desconfiados e misóginos, um efeito particularmente pronunciado entre os que relatavam rejeição amorosa prévia. Em trabalho subsequente, as mesmas autoras mostram que a percepção de ameaça ao status masculino ativa raiva, e é essa raiva, mais do que a ameaça em si, o mecanismo que conduz ao engajamento com grupos e discursos misóginos, um achado que reposiciona a raiva como sintoma de ferida narcísica e social, não como traço de caráter fixo.
A arquitetura algorítmica da radicalização
Nenhuma dessas trajetórias emocionais se desenvolveria na escala observada hoje sem a arquitetura técnica das plataformas de vídeo curto. A pesquisa conduzida por Debbie Ging, Catherine Baker e Maja Brandt Andreasen no Anti-Bullying Centre da Dublin City University documentou, através de contas experimentais configuradas como adolescentes de dezesseis a dezoito anos, que o TikTok e o YouTube Shorts recomendam conteúdo masculinista, antifeminista e supremacista masculino independentemente de o usuário buscar ativamente esse tipo de material, e que essa exposição ocorre já nos primeiros vinte e três minutos de uso. A quantidade de conteúdo misógino recomendado cresce de forma acelerada assim que o sistema detecta qualquer sinal de interesse, criando um funil que conduz progressivamente das discussões sobre masculinidade rígida para conteúdo explicitamente misógino e antifeminista. A presença massiva de material relacionado a Andrew Tate no conjunto de dados, mesmo em período em que suas contas haviam sido banidas das principais plataformas, revela que a remoção de um influenciador específico não desmonta a infraestrutura de recomendação que segue promovendo conteúdo equivalente. Essa arquitetura opera sobre uma economia da atenção em que indignação, conflito e identificação emocional intensa possuem alto valor de circulação, o chamado ragebait, um formato de conteúdo desenhado deliberadamente para gerar reação afetiva imediata e maximizar tempo de tela e engajamento. Insegurança, solidão e medo de fracasso tornam-se, nesse sistema, matéria-prima convertida em audiência, em assinaturas de comunidades pagas, em vendas de cursos de masculinização e suplementos, em consultorias de pick-up e em influência política, configurando uma economia política do sofrimento masculino que sustenta materialmente boa parte da produção de conteúdo desse ecossistema.
O bullying escolar como origem frequentemente invisibilizada
Grande parte da literatura recente sobre vitimização escolar reforça que a experiência de ser alvo de bullying na infância e na adolescência produz efeitos duradouros sobre solidão e saúde mental, efeitos que atravessam a vida adulta jovem. Estudos que acompanham estudantes universitários relatando retrospectivamente episódios de vitimização na educação básica encontram associação consistente entre essas experiências e níveis elevados de depressão, ansiedade, estresse e solidão anos depois, um padrão presente independentemente da forma específica de vitimização, seja ela verbal, física, relacional ou exclusão social. Meta-análises recentes situam a prevalência global de vitimização por bullying em torno de um quarto das crianças e adolescentes, com impactos psicológicos que incluem sofrimento emocional, solidão, ansiedade, depressão, autolesão e ideação suicida. A experiência subjetiva do menino humilhado por seus pares precisa ser reconhecida como sofrimento psicológico real e significativo, com peso equivalente ao de outras formas de adversidade na infância, sem que esse reconhecimento funcione como justificativa moral para respostas posteriores de violência ou desprezo por mulheres. A responsabilidade individual pelas escolhas ideológicas e comportamentais que um sujeito adulto faz permanece inteiramente sua, e é exatamente essa distinção entre compreender a origem do sofrimento e eximir a responsabilidade pelas respostas dadas a ele que sustenta uma leitura clínica rigorosa do fenômeno.
A barreira ao cuidado: por que esses meninos não chegam à psicoterapia
Um dos elementos mais subestimados nesse quadro é a dificuldade específica que meninos e homens jovens enfrentam para buscar apoio psicológico antes que a manosfera os alcance, ou mesmo depois. A revisão sistemática conduzida por Ayesha Sheikh, Chloe Payne-Cook e colaboradores sobre barreiras e facilitadores percebidos por adolescentes do sexo masculino identifica cinco temas centrais que explicam essa distância: o impacto de normas sociais, com destaque para a conformidade a padrões masculinos tradicionais e o autoestigma, a disponibilidade limitada de informação acessível sobre saúde mental, a ausência de campanhas de alfabetização em saúde mental verdadeiramente direcionadas a um público masculino jovem, e preferências específicas quanto ao formato do apoio buscado, incluindo a inclinação por ajuda informal em vez de formal e por espaços online em vez de presenciais. O trabalho de Gary Shepherd e colaboradores sobre os desafios que impedem homens de buscar aconselhamento ou psicoterapia converge nessa direção, identificando três eixos interligados de resistência: a identidade masculina construída em torno de autossuficiência e controle emocional, normas comportamentais masculinas que codificam pedir ajuda como fraqueza, e uma desconfiança concreta em relação aos próprios serviços psicológicos e aos profissionais que os oferecem, muitas vezes percebidos como distantes da linguagem e da experiência masculina. Shepherd propõe, como resposta, a reconstrução de vínculos comunitários entre homens, redes locais onde experiências possam ser compartilhadas em linguagem acessível, permitindo o desenvolvimento de um vocabulário de busca de ajuda e novas formas de viver a própria masculinidade sem que isso implique abandono da identidade.
Esse conjunto de barreiras revela algo estrutural sobre o momento em que a manosfera intervém na vida de um adolescente. Ela chega precisamente no vácuo criado pela ausência de alfabetização emocional, pela falta de linguagem culturalmente aceitável para nomear sofrimento masculino e pela escassez de espaços presenciais de pertencimento que não exijam performance de força. Onde um sistema de saúde mental culturalmente adaptado poderia oferecer escuta, comunidade terapêutica e ressignificação da dor, o ecossistema da manosfera oferece pertencimento imediato, linguagem pronta e uma narrativa causal simples, ainda que profundamente distorcida. Construir alternativas reais implica pensar em profissionais homens quando isso favorecer a adesão ao tratamento, grupos terapêuticos masculinos, intervenções comunitárias fora do ambiente clínico tradicional, educação psicológica desde a infância e estratégias de comunicação em saúde mental que utilizem a linguagem e os formatos que esses meninos já consomem, sem reproduzir o sensacionalismo e a simplificação que tornam o conteúdo misógino tão atraente.
Compreender sem absolver
Nenhuma parte desta análise pretende suavizar a gravidade da misoginia, do assédio, da objetificação, da desumanização, da coerção e da violência sexual e física que emergem, em graus variados, desse ecossistema. Reconhecer a vulnerabilidade que conduz um adolescente até esse conteúdo não equivale a validar as ideias que ele passa a sustentar nem a diminuir a responsabilidade que ele carrega por qualquer comportamento violento ou coercitivo que venha a praticar contra mulheres. A compreensão da vulnerabilidade cumpre uma função distinta e complementar à responsabilização, a de tornar possível a prevenção. Um sistema de saúde pública, educação e políticas de plataforma interessado em reduzir a misoginia precisa necessariamente perguntar quais condições sociais produzem, em escala crescente, meninos solitários, humilhados, desinformados sobre saúde mental e psicologicamente disponíveis para que um influenciador ofereça a eles, em poucos minutos de vídeo, uma explicação completa para o próprio sofrimento e um lugar onde pertencer. Essa é a pergunta que a repulsa moral, por si só, não formula, e é dela que depende qualquer estratégia capaz de interromper o fluxo entre a dor de um menino e a ideologia que promete, falsamente, curá-la.
Referências
Baker, C., Ging, D., & Andreasen, M. B. (2024). Recommending Toxicity: The Role of Algorithmic Recommender Functions on YouTube Shorts and TikTok in Promoting Male Supremacist Influencers. DCU Anti-Bullying Centre, Dublin City University.
Botto, M., & Gottzén, L. (2024). Swallowing and spitting out the red pill: young men, vulnerability, and radicalization pathways in the manosphere. Journal of Gender Studies, 33(5), 596–608.
Renström, E. A., & Bäck, H. (2024). Manfluencers and Young Men's Misogynistic Attitudes: The Role of Perceived Threats to Men's Status. Sex Roles, 90(12), 1787–1806.
Renström, E. A., & Bäck, H. (2026). A threatened masculinity? The role of status threats and anger in misogynistic engagement. Group Processes & Intergroup Relations, 29(4), 535–558.
Sheikh, A., Payne-Cook, C., Lisk, S., Carter, B., & Brown, J. S. L. (2024). Why do young men not seek help for affective mental health issues? A systematic review of perceived barriers and facilitators among adolescent boys and young men. European Child & Adolescent Psychiatry.
Shepherd, G. et al. (2023). The challenges preventing men from seeking counselling or psychotherapy. Mental Health & Prevention (ScienceDirect).
Zhou, Y., Li, P., Tse, C.-S., Huang, L., Wang, Y., & Fang, Y. (2026). Early Bullying's Long Shadow: How Victimization in Childhood and Adolescence is Associated with University Students' Mental Health and Loneliness. SAGE Open / related journal.
Meta-análise sobre prevalência global e impacto psicológico do bullying entre crianças e adolescentes (2025). ScienceDirect.
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