Há mais de 25 anos convivo com o fantasma da urticária, que causa enorme desconforto físico e impacta profundamente o bem estar emocional. Após diversos tratamentos em crises cíclicas da doença, fui finalmente diagnosticada em 2018 com Urticária Crônica Espontânea (UCE), também chamada de idiopática, por não ter uma causa definida. Portanto, o tipo mais desafiador.
Ainda pouco estudada e conhecida, inclusive no meio médico, a UCE é uma doença de fundo autoimune ou inflamatório em que o próprio sistema imunológico ativa as células da pele sem um gatilho externo óbvio. Em geral, a urticária se manifesta com manchas vermelhas, coceira e, em alguns casos, inchaços, chamados também de angioedema, principalmente na boca, mãos e pés. O tratamento geralmente envolve o uso anti-histamínicos e os corticoides por via oral, por períodos curtos.
Mas no caso da UCE, muitas vezes, nem mesmo os antialérgicos de última geração surtem efeito, enquanto os corticoides parecem apenas mascarar os sintomas, causando inúmeros efeitos colaterais imediatos, como inchaço, e até a longo prazo, podendo levar a doenças cardiovasculares e osteoporose. Por isso, recomenda-se o uso do imunobiológico comercializado sob a marca Xolair, um medicamentos de alto custo que deve ser ministrado em ambiente hospitalar.
Desde 2022 não tenho nenhuma crise de urticária. Estou curada? Só o tempo dirá. No entanto, convivo com algumas restrições e temores permanentes. Embora não tenha nenhuma comprovação, evito muitas coisas, inclusive o uso de alguns anti-inflamatórios que poderiam ativar ou potencializar a condição, embora nunca tenha feito testes específicos para confirmação de alergia medicamentosa.
Coincidência ou não, as duas últimas crises de UCE – em 2018 e 2022 – que duraram mais de seis meses cada, foram desencadeadas após o uso de um anti-inflamatório chamado Metronidazol – não posso esquecer este nome porque em toda consulta, quando perguntam se tenho alguma alergia, preciso mencionar meu drama pessoal e a suspeita que tenho sobre esse medicamento.
Anti-inflamatório pode ativar a urticária?
Na verdade, diversos medicamentos incluem a urticária na lista de possíveis efeitos colaterais em suas bulas. No entanto, os anti-inflamatórios são realmente os mais perigosos para quem já experimentou algum tipo de reação alérgica ao longo da vida.
Segundo especialistas, o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs, como ibuprofeno, diclofenaco ou aspirina) pode piorar ou desencadear crises em quem já tem UCE. Cerca de 30% dos pacientes com UCE sofrem com essa exacerbação por causa de uma reação a esses remédios. Infelizmente, eu pareço estar enquadrada nessa estatística.
Mas não se trata de uma alergia clássica. O problema geralmente ocorre pelo bloqueio de uma enzima do corpo (a COX-1) provocado pelo anti-inflamatório, e não por uma alergia tradicional ao medicamento. O remédio funciona apenas como um acelerador ou agravante de um quadro que já existe no organismo, e não como a origem da doença crônica.
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