Neste ano, a Bienal Internacional do Livro acontece entre os dias 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi, na Zona Norte de São Paulo. Com dez dias de programação e mais de 269 expositores, o evento irá proporcionar debates, sessões de autógrafos com autores e atividades especiais, distribuídas por 11 espaços culturais diferentes. Conhecida por ser o maior evento do mercado editorial da América Latina, a Bienal reflete o poder do setor no país, que desde 2025 registrou uma entrada de 3 milhões de novos compradores. Em entrevista a VEJA, a presidente da Câmara Brasileira do Livro e porta-voz do evento, Sevani Matos, revelou que o consumo de livros foi elevado em 8% para a população brasileira com 18 ou mais, principalmente devido ao sucesso da literatura young adult (jovem adulto). A especialista também falou sobre as expectativas de público para este ano e refletiu acerca dos hábitos de leitura no Brasil atualmente.
Como avalia o momento atual do mercado editorial brasileiro? Estamos vivendo um período muito positivo. Além da literatura young adult, grande parte do avanço que tivemos no último ano foi impulsionado pelo fenômeno dos livros de colorir, que atraíram 11 milhões de pessoas. Além disso, mulheres pretas e pardas representam hoje 30% do total de consumidores de livros no país, sendo as pertencentes à classe C o maior grupo comprador atualmente, enquanto o público masculino ainda consome menos livros – o que enxergamos como uma oportunidade estratégica para ampliar o alcance da leitura. Toda essa dinâmica se reflete em impacto econômico direto. No geral, houve um aumento de 13% no número de empresas editoriais nos últimos 3 anos e cerca de 70 mil novos empregos gerados na área.
Qual a relevância da Bienal do Livro dentro desse cenário? A Bienal Internacional do Livro de São Paulo é o maior evento do setor editorial da América Latina e um dos maiores do mundo. É uma oportunidade única para aproximar autores, editoras e leitores, promover negócios e ampliar o acesso à leitura. Ela funciona como um termômetro porque permite observar, em tempo real, as transformações no comportamento do leitor. É ali que percebemos a força das comunidades digitais, o impacto dos influenciadores literários, novos gêneros de sucesso e as mudanças nas preferências do público. Ao mesmo tempo, a Bienal também é um motor de vendas poderoso, que possibilita o contato direto entre essa comunidade e transforma interesse em compra efetiva. A feira impulsiona vendas, fortalece marcas editoriais e coloca em evidência o livro e a leitura muito além dos dias do evento.
Quais as expectativas de público deste ano? A expectativa é receber mais de 700 000 visitantes ao longo dos dez dias da Bienal. Nessa edição, ela cresceu em tamanho e traz uma programação ainda mais ampla e diversa, com mais de 800 autores nacionais e internacionais. Também buscamos ampliar o acesso e criar novas formas de participação do público: uma das principais novidades é o ingresso noturno, que permite visitas no período da noite e conta com uma programação especialmente pensada para esse público. Com isso, conseguimos oferecer 100% do valor do ingresso em cashback para a compra de livros. A Bienal é um dos poucos momentos em que leitores podem estar tão próximos dos escritores que admiram, participar de conversas ao vivo e vivenciar a literatura de forma coletiva, por isso ela se consolidou como um grande festival cultural.
Como enxerga os hábitos de leitura no Brasil atualmente? Houve uma mudança no comportamento do consumidor de livros nos últimos anos. Hoje, o acesso se dá por múltiplos canais e formatos, o que amplia as oportunidades de contato com a leitura. O crescimento entre os jovens adultos e a entrada de novos públicos no mercado mostram que a leitura continua relevante como forma de entretenimento, aprendizado e desenvolvimento pessoal. Outra mudança importante é que a decisão de compra está cada vez mais associada à identificação do leitor com temas, autores e comunidades de interesse e isso tem levado as editoras a ampliar a diversidade de títulos e narrativas presentes em seus catálogos.
Qual considera ser o principal impulsionador da leitura hoje? Este impulsionamento é um conjunto de múltiplos fatores. As redes sociais têm um papel importante na descoberta de livros e autores, especialmente entre os públicos mais jovens, mas não são o único motor. Eventos literários, clubes de leitura, bibliotecas, mediação de leitura, escolas e políticas públicas continuam sendo fundamentais para a formação de leitores. Além disso, a ampliação da oferta de títulos, a diversidade de temas e a facilidade de acesso aos livros por diferentes canais contribuem para aproximar novos públicos do universo da leitura. O mais interessante é perceber que esses fatores atuam de forma complementar: quanto mais pontos de contato uma pessoa tem com os livros, maior tende a ser seu engajamento com a leitura.
Em quais canais tem observado maior crescimento das vendas? O comércio eletrônico segue sendo um dos principais canais de expansão do mercado de livros impressos, impulsionado pela conveniência, pela capilaridade logística e pela capacidade de alcançar consumidores em todo o país. Ao mesmo tempo, as livrarias físicas continuam desempenhando um papel estratégico, já que elas oferecem uma experiência de descoberta, curadoria e convivência que permanece valorizada pelos leitores. No universo digital, os e-books e audiolivros continuam ampliando sua presença, mas ainda representam uma parcela menor do faturamento total do setor, em torno de 9%.
Existe algum segmento literário que tem vendido mais do que o esperado nos últimos anos? A ficção continua sendo um dos segmentos de maior destaque, especialmente a literatura voltada ao público jovem adulto. É um gênero que combina forte capacidade de engajamento com uma grande circulação de recomendações entre leitores. Esse desempenho reflete uma mudança importante no consumo cultural, porque os leitores buscam cada vez mais experiências narrativas capazes de gerar identificação, pertencimento e diálogo com temas contemporâneos. Também observamos um interesse crescente por obras que abordam diversidade, saúde mental, desenvolvimento pessoal e temas ligados à experiência cotidiana dos leitores, ampliando o alcance do mercado para públicos cada vez mais variados.
Algum gênero ou nicho surpreendeu a Câmara Brasileira do Livro nos últimos anos, seja pelo crescimento inesperado ou por uma queda não prevista? Embora não seja surpreendente, em 2025 tivemos o impacto do sucesso dos livros de colorir. Além do volume de vendas expressivo, esse segmento chamou atenção por atrair mais consumidores e ampliar a base de compradores de livros no Brasil. O caso demonstra que o mercado editorial possui capacidade de dialogar com diferentes interesses e perfis de público, sempre se adaptando para atender as expectativas do consumidor.
Se pudesse apontar uma tendência para 'ficar de olho' no mercado editorial brasileiro nos próximos anos, qual seria? A principal tendência é a ampliação da base de consumidores de livros no Brasil. O ingresso de novos consumidores nos últimos anos demonstra que ainda existe um enorme potencial de crescimento para o setor. Também devemos acompanhar a expansão do mercado para além dos grandes centros urbanos, impulsionada pela evolução dos canais de distribuição, pelo fortalecimento do comércio eletrônico, a ampliação do número de livrarias e o fortalecimento dos eventos literários em diferentes regiões do país. Outro ponto importante será a capacidade das editoras de dialogar com um público cada vez mais diverso, tanto em perfil quanto em interesses. Quem conseguir oferecer conteúdo relevante para essas novas audiências terá uma vantagem competitiva importante nos próximos anos.
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