Sou apaixonado por padarias e vou praticamente todos os dias. Gosto do café, do pão, dos cheiros, do balcão, das vitrines e, principalmente, do movimento. Tenho a impressão de que uma padaria diz muito sobre uma cidade e sobre as pessoas que vivem nela, por isso penso que todo mundo deveria ter uma por perto.
Não falo apenas daquela onde compramos pão e voltamos para casa. Falo daquela em que o atendente começa a reconhecer você, alguns rostos deixam de ser desconhecidos e a gente aprende os horários de quem chega cedo, de quem passa correndo e de quem sempre encontra alguns minutos para sentar, tomar um café e conversar.
Gosto de observar gente nesses lugares. Enquanto alguém escolhe um pão, outra pessoa fala ao telefone, amigos resolvem a vida diante de uma xícara de café e, no balcão, alguém comenta a notícia do dia. Alguns encontros são marcados, outros simplesmente acontecem, quando duas pessoas dividem uma mesa, uma conversa e um pedaço do dia.
Os melhores encontros também podem acontecer numa padaria. Algumas conversas começam diante de um café e ficam conosco muito depois que a xícara esfria. Certas mesas guardam lembranças, certos lugares passam a significar mais do que seus endereços e momentos aparentemente comuns, com o tempo, ganham uma importância que ninguém imaginava quando aconteceram.
O café também carrega sua arte. Da escolha do grão à torra, do aroma ao modo de preparo, existe conhecimento até a xícara chegar à mesa. Gosto de pensar que certos grãos se tornam especiais a ponto de serem amados, principalmente quando acompanham uma boa conversa, um encontro ou aqueles minutos que gostaríamos de guardar.
É nesse cotidiano que encontro cultura. Ela está nos palcos, nos livros, nos museus, no cinema, mas também na comida, nas receitas, nos costumes, nas conversas e nas mesas em torno das quais aprendemos a conviver. Às vezes, basta prestar atenção ao café da manhã de uma cidade para conhecer um pouco da sua história.
Em Cuiabá, esse caminho inevitavelmente encontra o bolo de arroz. Presente na manhã de tanta gente e reconhecido como patrimônio cultural imaterial do município, ele atravessou gerações carregando mais do que uma receita. Carrega um modo de fazer, uma memória afetiva e um sabor que reconhecemos como nosso.
Dona Eulália e sua família fazem parte dessa história tão cuiabana. O tradicional tchá cô bolo fez do bolo de arroz, do bolo de queijo, da chipa, do café e da conversa uma expressão de memória, convivência e identidade. São sabores que contam quem somos sem precisar de muitas palavras.
Essa é uma das belezas da comida. Fazer pão, bolo de arroz ou bolo de queijo exige conhecimento, tempo, técnica, sensibilidade e espera. A receita passa de uma mão para outra, atravessa gerações e continua viva cada vez que alguém reconhece um sabor antes mesmo da primeira mordida.
Aos 44, percebo que gosto cada vez mais desses pequenos rituais e tenho a minha 'Casa do Pão', um lugar que faz parte de praticamente todos os meus dias. A intimidade se constrói aos poucos, quando a gente reconhece quem trabalha, encontra rostos conhecidos, escolhe uma mesa quase sem pensar e percebe que certos lugares deixam de ser apenas endereços e passam a ocupar algum espaço na nossa própria história.
Volto pelo pão, pelo café, pelos sabores e pelo prazer de acompanhar a vida acontecendo diante de mim. Volto também pelas conversas que permanecem depois que a xícara esfria, pelos encontros que fazem uma manhã comum ganhar outro significado e por essa capacidade que certas mesas têm de guardar momentos que só quem esteve sentado diante delas consegue compreender inteiramente.
Todo mundo tem que ter uma padaria por perto, não apenas para comprar alguma coisa, mas para encontrar gente, conversar, criar memórias e perceber que arte e cultura também moram nas coisas mais comuns dos nossos dias. Entre um pão saindo do forno, um grão amado, um bolo de arroz e uma xícara de café, certas mesas acabam guardando encontros que a gente leva para a vida inteira.
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