Futrica de Janja pode ameaçar projeto Lula 4

Futrica de Janja pode ameaçar projeto Lula 4
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Category: Politics
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Autor/Imagem: José Seabra - Foto de Arquivo As chuvas que caíram sobre Brasília nos últimos dias, podem até ter ajudado a reduzir os focos de incêndio que se espalhavam pelo Cerrado após longa estiagem, mas não arrefeceram a crise política. Ao contrário, serviram de combustível para jogar mais lenha na fogueira, em especial nesta segunda, 8, quando se observa, se avisa e se cobra, que tem hora em que o melhor amigo de um governo é o silêncio, como tem hora em que o silêncio vale mais do que uma reunião no Alvorada, um despacho no Planalto ou uma conversa ao pé do ouvido presidencial. Contudo, Janja da Silva parece não acreditar nisso. No momento em que a Polícia Federal é tragada para o centro de uma tempestade envolvendo o Palácio do Planalto, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal, a primeira-dama teria decidido meter a colher justamente na panela que está fervendo. Informações obtidas por Notibras junto a integrantes da Polícia Federal sugerem que Janja trabalha nos bastidores para que a delegada Helena de Rezende, atual diretora de Gestão de Pessoas da PF, seja alçada ao comando da instituição caso se consolide o afastamento definitivo de Andrei Rodrigues. O problema começa aí. Helena não caiu ontem de paraquedas na estrutura da Polícia Federal. Sua presença na atual cúpula da corporação é pública e oficial, porque ela dirige a área de Gestão de Pessoas. O que não é público, e nos chega por meio de relatos de delegados, é a movimentação para transformá-la na eventual sucessora de Andrei. O afastamento do diretor-geral não é uma fofoca de corredor. André Mendonça determinou nesta terça-feira, 8, a saída preventiva de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, em decisão que incendiou ainda mais a crise institucional. A Segunda Turma chegou a formar maioria favorável à decisão, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Ou seja, o chão ainda está tremendo. Em meio a essa tempestade, Janja, segundo as fontes ouvidas por Notibras, já estaria escolhendo quem deve ocupar a cadeira. É o tipo de movimento que, se confirmado, transforma crise institucional em crise política. Para quem desconhece, basta lembrar que Helena tem uma relação antiga com Andrei Rodrigues, e também integrou a estrutura de segurança ligada a Janja durante a campanha eleitoral. Delegados relatam ainda que sua aproximação com a então candidata a primeira-dama teria sido cuidadosamente trabalhada dentro da própria estrutura policial. Essa última informação precisa ser colocada exatamente onde deve estar, já que se trata de relato de fontes da instituição, e não de fato oficialmente reconhecido pela Polícia Federal. Mas é justamente aí que a pólvora está estocada, porque, na versão desses policiais, existe dentro da PF uma velha escola de aproximação com quem ocupa ou está prestes a ocupar o poder. Estudam-se hábitos, temperamentos, necessidades e vulnerabilidades, o que é sinônimo de construção de confiança. Depois, vem a intimidade institucional. O método é velho e não teria nascido com Lula nem com Bolsonaro. É tão antigo como os carpetes de Brasília. A comparação feita reservadamente por policiais é inevitável. O caso Alexandre Ramagem, por exemplo, também construiu proximidade com a família Bolsonaro antes de chegar ao comando da Agência Brasileira de Inteligência. Mudam os personagens, muda o governo, muda a ideologia, mas o mecanismo de aproximação do poder permanece como uma espécie de patrimônio imaterial da República. A Polícia Federal atravessou generais, presidentes civis, impeachment, mensalão, petrolão, Lava Jato, Bolsonaro e Lula, quando aprendeu que governos passam, mas a burocracia fica. Entretanto, o perigo começa quando o governante esquece disso. E fica maior quando familiares do governante passam a circular em assuntos que deveriam ser resolvidos exclusivamente pela cadeia institucional. Registre-se que Janja não foi eleita, muito menos recebeu um voto sequer para escolher diretor-geral da Polícia Federal. Ela pode aconselhar o marido? Evidentemente que sim, porque é mulher do presidente da República e conversa com Lula sobre o que quiser, da sobremesa do jantar à crise do Supremo. Outra coisa completamente diferente, porém, seria atuar politicamente para emplacar um nome no comando da polícia judiciária da União. Aí a futrica doméstica deixa de ser doméstica para virar assunto de Estado. Para ir mais além nessa ingerência, há ainda resistência interna, com delegados questionando se Helena possui experiência operacional, trânsito interno e autoridade institucional suficientes para assumir uma organização do tamanho e da complexidade da Polícia Federal, sobretudo no pior momento possível, onde uma guerra de versões entre policiais, procuradores, ministros do Supremo e integrantes do Executivo caminha para uma hecatombe. Não é uma cadeira que Janja prepara para a amiga, mas um barril de pólvora com braços. Quem sentar ali terá de comandar investigações que podem alcançar políticos, empresários, banqueiros e gente com endereço na Praça dos Três Poderes, e que precisará conversar com PGR, Ministério da Justiça e Supremo sem parecer empregado de nenhum deles, principalmente do Palácio do Planalto. Por isso, se Janja realmente estiver patrocinando uma candidatura à sucessão de Andrei, presta um desserviço até mesmo à pessoa que pretende ajudar. Helena chegaria ao cargo marcada antes de sentar na cadeira; seria chamada de 'delegada da Janja'; justo ou injusto, isso pouco importa, porque na política, carimbo pega. E o momento não poderia ser pior. O afastamento de Andrei já provocou reação dentro da PF, onde integrantes da cúpula enxergam componente político na decisão de Mendonça. No próprio Supremo há pressão para que Edson Fachin leve a crise ao plenário da Corte. E o governo, por sua vez, considera reagir juridicamente ao afastamento, que atinge uma autoridade cuja nomeação pertence ao Executivo. É um vespeiro onde Janja estaria chegando com uma vara. O presidente deveria perceber o tamanho do risco antes que seja tarde, pois Lula disputa outra eleição presidencial e enfrenta uma corrida apertada. Qualquer imagem de aparelhamento da Polícia Federal seria gasolina entregue gratuitamente aos adversários. Basta recordar Bolsonaro, que aprendeu quanto custa politicamente a suspeita de interferência na PF. Lula, portanto, não precisa fazer estágio no mesmo curso, e seu chamado projeto Lula 4 pode não morrer por inflação, desemprego, oposição ou alguma grande denúncia. Com sua experiência, o presidente deve ter consciência que projetos políticos às vezes são enterrados por coisas aparentemente menores, do tipo uma conversa atravessada, uma nomeação mal explicada, um amigo inconveniente, um parente voluntarioso… ou uma primeira-dama que resolve escolher delegado-geral. Se Helena de Rezende possui currículo para dirigir a Polícia Federal, que seu nome seja examinado institucionalmente, comparado com outros delegados e defendido por quem tem competência constitucional e administrativa para fazê-lo. Jamais por Janja, porque, nesse ambiente, até uma boa escolha pode virar péssima opção quando nasce no colo errado. A bem da verdade, o governo Lula deveria estar trabalhando para retirar a Polícia Federal da guerra entre Supremo, PGR e Planalto, e não para colocar a primeira-dama dentro dela, porque, apesar das últimas chuvas, há fogo demais em Brasília desde que Mendonça riscou o fósforo, a PF virou combustível e o Supremo, por ora, está discutindo quem segura o extintor. Estando corretas as informações que circulam nos corredores da Polícia Federal, Janja apareceu querendo escolher o bombeiro. Isso pode parecer apenas futrica, mas quando atravessa a porta do Palácio do Planalto e ganha Diário Oficial, vira crise institucional e acaba na urna. E é justamente dentro dela que Lula pretende encontrar o quarto mandato. Mas, e se o povo descobrir a tempo que quem manda é quem não se candidatou a nada, mas que se veste como uma Margareth Tatcher tupiniquim? Sei não… Se vale uma sugestão, Lula, use um tapa-ouvidos nas próximas horas. Ou durma no sofá. ………… José Seabra é CEO fundador de Notibras

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