Manuel Coelho, 64 anos, de Alcácer do Sal, está acusado de quatro crimes de homicídio negligente e, apesar do silêncio no início do julgamento, tinha referido ao Ministério Público (MP), ainda durante a investigação, que, no dia do naufrágio, consultou o estado do tempo e que só saiu com o grupo para o mar porque as condições previstas assim o permitiam. Porém, continuou, já na zona da "Restinga", apercebeu-se de que o mar estava a engrossar, decidiu voltar para trás e foi nessa altura que se deu o naufrágio.
O MP, no despacho de acusação, refuta esta versão, afirmando que as condições do mar impediam que qualquer embarcação turística de Setúbal saísse para o mar naquele dia. Mesmo assim, e "pela ânsia de arrecadar contrapartida financeira" de 150 euros, Manuel Coelho decidiu fazer-se ao mar com a família a bordo.
Atingido por onda de três metros e meio
Ricardo e Francisco Neves, pai e filho, com 45 e 11 anos, e os dois irmãos, Gabriel e José Caeiro, com 23 e 21 anos, primos de Ricardo, pagaram 50 euros cada um (com exceção da criança) para pescar chocos. No entanto, todos morreram no mar.
O acidente aconteceu em 7 de abril de 2024. Nesse domingo, e de acordo com a acusação do MP, o grupo encontrou-se na Marina de Tróia, onde estava ancorado o "Lingrinhas", e zarpou na embarcação para um dia de pesca. O timoneiro do barco sugeriu um pesqueiro bastante perigoso ao largo de Tróia onde, nessa altura, a ondulação estava entre os três e quatro metros de altura.
Às 7.30 horas, numa zona chamada Cambalhão, a norte da Restinga, a embarcação foi atingida por uma onda de três metros e meio e acabaria por naufragar quando Manuel Coelho tentava inverter a marcha e voltar para a marina.
Ricardo Neves, Gabriel e José Caeiro foram cuspidos para a água. Manuel Coelho ficou debaixo da embarcação com o jovem Francisco Neves, que empurrou para a tona, julgando que os outros ocupantes estavam a salvo e recolheriam a criança. Mas, quando saiu da embarcação naufragada e se agarrou às balsas, já não conseguiu ver ninguém. Foi resgatado três horas depois do naufrágio por um barco de pesca que passava no local.
Já o jovem Francisco e Gabriel Caeiro foram encontrados sem vida no dia do naufrágio. O cadáver de José Caeiro só seria recuperado no dia 18 e o de Ricardo no dia 19.
Empresário confirma más condições do mar
O MP considera que "enquanto timoneiro experiente e conhecedor daquela zona, ao conduzir a embarcação para o mar naquelas condições de tempo e de estado do mar, Manuel Coelho infringiu os mais elementares deveres de diligência e cautela que lhe eram exigidos".
Mais, o MP afirma que, "ao levar consigo uma criança de 11 anos, com reduzidas hipóteses de sobrevivência em caso de naufrágio, agiu de forma imprudente, desajustada e particularmente leviana".
Nesta terça-feira, no julgamento, Márcio Monteiro, empresário de marítimo-turística, confirmou que, "nas circunstâncias em que o mar se encontrava naquela manhã, qualquer embarcação que fosse para a zona onde ocorreu o naufrágio corria perigo".
Dinheiro para pagar combustível
O arguido possuía carta de navegador desde 2020 e, refere o MP, pelo menos desde início de 2024 que ia, uma vez por semana, à pesca na embarcação "Lingrinhas", que possuía há um ano. Cobrava sempre entre 25 a 50 euros por cada pessoa que transportava e, garantiu Manuel Coelho ao MP ainda na fase de investigação, o dinheiro era para ajudar nos custos do combustível.
Pedro Carapinha corroborou esta tese. Durante o depoimento prestado nesta terça-feira, contou que conhecia Manuel Coelho e que tinha ido à pesca na "Lingrinhas" um dia antes do naufrágio. Acrescentou que já o tinha feito algumas vezes e que o pagava, entre 25 e 40 euros, para ajudar a suportar despesas com o combustível.
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