Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.
A despeito da participação de pretos e mestiços em movimentos e revoltas pró-independência, os negros (que naquela época já compunham o maior contingente populacional do país e reivindicavam melhores condições de vida e igualdade de direitos) foram excluídos do sonho de liberdade.
Gravura de Debret mostra cena do começo do século 19, quando ocorreu a Revolta dos Malês, rebelião de caráter racial, contra a escravidão e a imposição da religião católica -
Instituto Geográfico e Histórico/Instituto Geográfico e Histórico
A colônia "se libertou" de Portugal, mas os negros não se libertaram da escravização, abolida 66 anos depois da independência. Como afirmou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, somos um país que nasceu apostando no futuro da escravização. Os efeitos dessa aposta são notórios e impactam brutalmente milhões de brasileiros.
Em menos de um mês, teremos eleições gerais. A mim, chama atenção que apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência da República apresentem nos programas de governo propostas para enfrentar o racismo institucionalizado nestas terras. Entendo que isso diz muito sobre o nosso projeto de nação.
Apesar de todos os índices que relacionam a falta de oportunidades e a precarização das condições de vida dos brasileiros à questão étnico-racial, reconhecer o impacto do racismo no cotidiano e enfrentar o problema ainda não são prioridades no país mais negro do mundo fora da África.
Em contraponto, há alguns dias o Comitê das Nações Unidas Contra a Discriminação Racial (CERD) recomendou que os Estados adotem medidas de reparação pelos danos provocados pelo tráfico transatlântico de africanos, pela escravização e por seus efeitos persistentes sobre pessoas de ascendência africana.
Me pergunto até quando o Brasil vai apoiar o pacto de uma elite que insiste em ignorar os direitos da população negra?
(0)Comments