UN

unknown

O banqueiro Daniel conseguiu o que parecia impossível

Image
"Com históricas ligações com políticos (...) e apoiado por um vasto grupo de advogados que estão entre os mais bem pagos e competentes do país, o banqueiro Daniel (...) conseguiu o que parecia impossível. Aproveitou-se de excessos e equívocos (...) e de uma violenta briga interna na PF, tudo devidamente amplificado e distorcido na imprensa, para obter estrondosas vitórias no STF (Supremo Tribunal Federal) e no STJ (Superior Tribunal de Justiça)." Pode não parecer, mas o Daniel e a história eram outros. O trecho, sem as pequenas edições feitas aqui, está na introdução de "Operação Banqueiro", livro do repórter Rubens Valente publicado em 2014 sobre a Operação Satiagraha, que levou a duas prisões e à investigação do banqueiro Daniel Dantas em 2008. A operação acabaria sendo anulada posteriormente, e o delegado responsável por ela, condenado. Em 2022, Valente também foi condenado a pagar mais de R$ 310 mil de ressarcimento por danos morais ao ministro Gilmar Mendes, do STF, para quem a obra "atacou sua imparcialidade como juiz, distorceu sua biografia e deturpou o julgamento de um habeas corpus", segundo relato do jornal na época. Depois disso, o caso do repórter foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Assim como na Satiagraha e na Lava Jato, a atual crise com STF (Supremo Tribunal Federal), PF e o caso Master traz consigo questões também sobre o papel do jornalismo. E é esperado que isso ocorra, já que jornais e sites de notícias servem de canais para vazamentos e repercussões. Ilustração de Carvall para Ombudsman de 6 de setembro de 2026 - Carvall/Folhapress Desta vez, os principais furos da semana ficaram a cargo da concorrência, sobretudo O Estado de S. Paulo, Metrópoles, O Globo, ICL Notícias e a newsletter Noites Húngaras, de Paulo Motoryn. A Folha demorou um pouco a reagir. Por outro lado, investiu em contexto, como mostrar os planos para o uso da crise no 7 de Setembro do candidato Flávio Bolsonaro. Outros foram o detalhamento de como a polícia recuperou mensagens de Vorcaro para o ministro Alexandre de Moraes mesmo com visualização única e "o que Vorcaro ofereceu a Moraes, segundo a PF" ("dois contratos de honorários que somariam R$ 180 milhões ao escritório da mulher de Moraes, cotas de jato e helicóptero, e a organização de eventos internacionais"). Também foi importante deixar claro, no podcast Café da Manhã, o "não sei" como possibilidade de resposta para o que se passa no país. "Até o não sei, a essa altura, pode nos ajudar a dimensionar o tamanho da crise", comentou a jornalista Gabriela Mayer ao entrevistar o advogado e professor de direito Rafael Mafei em episódio da última sexta-feira (4). Questionado sobre a possibilidade da anulação do relatório produzido pela PF sobre conversas que envolveriam Moraes e Vorcaro e o que poderia acontecer com o ministro André Mendonça, Mafei lançou mão do recurso. "Essa é uma pergunta para a qual a resposta pode ser não sei. Porque depende de como o debate vai ser construído ali dentro, como vai ser enquadrado." Outras questões foram pacientemente abordadas. Uma das que importam aqui é sobre a natureza dos vazamentos e a qualidade do que sai deles. "Quando o sentido de coleta de informações de uma investigação passa a ser produzir fatos políticos e menos o trabalho sereno e técnico de elucidar a prática de crimes, aquilo é evidentemente um desvio. Neste contexto específico em que a gente está, tem, além de tudo, a gravidade de poder impactar nas eleições", disse Mafei. Como se fosse pouco problema, há ainda o agravante da infiltração da linguagem empolada do Judiciário brasileiro nos textos jornalísticos. Temas graves para o país inteiro acabam restritos a uma casta, sem tradução para termos técnicos ou afetados. A comunicação não pode se limitar aos poucos que se beneficiam dessa blindagem retórica, e o jornalismo precisa ser o primeiro interessado em combatê-la. Outro ponto opaco é a normalização de excentricidades, das mais vistosas à banal narração da briga de "alas" políticas da Corte sem nomeá-las. E uma relação com fontes que acabou arrastando o próprio jornalismo para o ringue da magistratura. Além do noticiário, o editorial da Folha pedindo a renúncia de Alexandre de Moraes também provocou manifestações. O leitor Roberto Garcia questiona se a Folha não estaria sendo desproporcional na "rapidez com que expressou seu clamor por justiça", "mesmo considerando a gravidade das últimas notícias sobre relações de ministros com o caso Master". Muitos outros, inclusive entre os mais de 500 comentários no texto, cobraram um texto para pedir a saída também de Mendonça. Não veio: editorial posterior chamou a atenção para os "relatórios de valor probatório para lá de duvidoso" e afirmou que "Moraes atingiu a República ao alvejar seu colega André Mendonça". Outro leitor trouxe uma dúvida. "No editorial que pede a renúncia, a Folha agradece ao ministro Mendonça a sua atuação no caso Master. Em outra notícia, analisa a heterodoxa condução do processo pelo próprio Mendonça. Estão fatiando o assunto para confundir os leitores?" Não foi bem "agradecer" o que a Folha fez, mas o editorial afirmou que "graças" ao ministro, à PF e à imprensa, estaria "seriamente ameaçado o pacto de impunidade que tem mantido Moraes isolado de prestar contas". Já a confusão tem raiz no fato de o jornal (seu comando) dar opinião institucional e o jornal (Redação) fazer reportagens em que pode contradizê-la. Não deixa de ser, no entanto, uma camada extra de complicação.
O banqueiro Daniel conseguiu o que parecia impossível
View on original source
Share
Archive
Like

(0)Comments

 

Related Opinion

A note on cookies

Newshunt uses essential cookies to keep you signed in and to remember your language and country, so the site works the way you expect. With your permission, we'd also like to use analytics cookies to understand how people use Newshunt and improve it over time.

Accepting only affects analytics. To learn more, view our Privacy Policy or Terms & Conditions.