A certa altura da sua célebre conversa, Jacques, o fatalista, conta ao seu amo a história da ocasião em que levou um tiro no joelho. "Não há ferimento mais doloroso do que um ferimento no joelho", diz ele. O amo discorda dessa opinião. "Deves estar a brincar, Jacques."
Nesse preciso momento, por capricho do destino, o cavalo em que o amo segue sobressalta-se, o amo cai, bate com o joelho numa pedra pontiaguda e começa a gritar: "Ai, que eu morro!".
Ilustração de Luiza Pannunzio -
Luiza Pannunzio/Folhapress
Quando recupera e volta a montar o cavalo, o amo tinha mudado de opinião. "Concordo contigo. É dos ferimentos mais cruéis."
Lembrei-me deste divertido episódio esta semana. Milo Yiannopoulos é um comentador britânico de extrema direita, apoiador de Donald Trump desde a primeira hora.
Grande defensor da política anti-imigração do presidente dos Estados Unidos, apelou com grande entusiasmo às deportações em massa. Na semana passada, ele foi deportado. Tal como o amo de Jacques, ele mudou de opinião na hora.
E agora? Será justo rirmos de Yiannopoulos? Há quem diga que não, porque é fácil. Ora, eu nunca percebi essa relutância em fazer o que é fácil.
Tenho parcos talentos e, por isso, nunca recuso fazer o que é fácil. Até me parece que o fato de ser fácil obriga a que façamos determinada coisa, sob pena de nos acusarem, com razão, de não sermos capazes nem sequer de fazer o que é fácil.
Por isso, sim, creio que essa situação tem muita, muita graça. Felizmente, nunca fui partidário da teoria segundo a qual não se deve fazer "punching down". Se fosse, talvez agora estivesse impedido de rir de Milo Yiannopoulos. É difícil estar mais "down" do que depois de uma humilhante detenção e deportação.
Sucede que, como sempre tenho dito, comédia não é "punching". E "down" estamos todos, nesta existência absurda. Mais vale rirmos uns dos outros.
Depois de aterrar na Inglaterra, Yiannopoulos disse que a experiência tinha sido "assustadora" e
"humilhante". Ao que parece, ser detido e deportado não é tão divertido como ele estava à espera. "Dói muito mais do que parece na televisão", revelou.
Imagino que Yiannopoulos esteja perplexo. Por que é que, quando uma coisa acontece aos outros, não parece assim tão má, e, quando acontece a nós, é mesmo desagradável? Talvez Yiannopoulos possa dedicar-se a investigar esse enorme mistério.
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