PAULO SALES
Um mundo que se despovoa
Discursos de ódio vicejam feito bacilos letais e arregimentam multidões
Paulo Sales
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 05:00
Em artigo recente na revista Piauí, o cineasta Eduardo Escorel citou a seguinte frase do crítico literário Antonio Candido, retirada de um dos seus cadernos de anotações: 'O lento e incessante despovoamento do mundo a que pertencemos começa de repente a se acelerar'. Há, no texto, uma clara percepção de deslocamento, como se a existência se tornasse menos legítima à medida que tombam as pessoas com quem convivemos. Escorel se referia ao sentimento de vazio provocado pela morte recente do produtor Luiz Carlos Barreto, com quem cultivou longa e estreita amizade.
Penso que o mundo a que pertencemos também se despovoa quando passamos a compreender cada vez menos as suas engrenagens e o rumo que está tomando. Para quem, como eu, foi forjado na segunda metade do século 20, a acachapante avalanche de novidades trazida pelas tecnologias e pelas mudanças de comportamento provoca pasmo e um certo temor, por mais que consigamos nos adaptar a ela.
Crescemos sob a égide das democracias liberais, da relevância do conhecimento, dos jornais como fonte primordial de informação, das conversas inflamadas em mesas de bar. É uma época que aos poucos se extingue, quase tão distante e inapreensível quanto aquelas que nos chegam pela leitura de Os Maias, Anna Karienina ou Em Busca do Tempo Perdido. Vamos ficando para trás, perplexos que nem incas e astecas diante dos centauros espanhóis que chegavam do oceano para dizimá-los.
O admirável mundo novo se desvela em horror e incompreensão. Numa transmissão ao vivo de uma plataforma digital, uma garota de 13 anos foi forçada a se matar. Antes, tentaram obrigá-la a torturar um animal. Ao recusar, viu-se compelida a escrever uma carta de despedida e cometer suicídio. Práticas como essa não são exceção: estão disseminadas no universo virtual, mostrando como o mal brota de maneira sorrateira, comezinha, trivial. Que tipo de sociedade estamos concebendo, na qual uma garota inocente e desesperada não tem a quem recorrer para se salvar?
Outro dia, parei imediatamente de assistir a um vídeo que refletia sobre as motivações de um adolescente que triturou um gato no liquidificador. Também não consegui ver outro que mostrava uma picape de colonos israelenses na Cisjordânia arrastando um burro preso por uma corda até matá-lo. Essa repulsa instantânea me fez lembrar de quando li O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinski, e de como precisei virar o rosto em vários trechos que se assemelhavam a cenas de terror.
Nunca estivemos tão expostos a diferentes facetas de uma mesma abjeção. Discursos de ódio vicejam feito bacilos letais e arregimentam multidões. Movimentos de nomes insólitos, tipo antivax e red pill, tiram proveito dos mais vulneráveis: os ingênuos, os solitários, os sexualmente frustrados, os moralmente imaturos. Enfim, uma massa de gente que cresce sem encontrar o seu lugar no mundo. Um mundo onde a hiperexposição virtual esconde a infelicidade coletiva. Onde pessoas mudam de aparência com auxílio de aplicativos e buscam a perfeição impossível em academias e clínicas de estética.
Esses sintomas parecem indicar que vivemos numa sociedade em declínio. Mas seria apenas um vento que passa ou o prenúncio de uma nova idade das trevas? Fica evidente que o destino da humanidade depende de variáveis muito frágeis. Seja a ascensão de líderes inescrupulosos em potências nucleares (já os temos) ou o recrudescimento da inteligência artificial no nosso cotidiano, com consequências inconcebíveis.
O fato é que caminhamos sem direção por essa terra devastada, oca de bom senso e atulhada de opiniões rasas, derivativas e sem matizes. Presenciamos a dissolução constante do que conhecemos e a ascensão de uma nova era dos extremos, o apogeu da idiotia voluntariosa e orgulhosa de si mesma. Será o desnorteio coletivo o mal do século? Nesse mundo, o lento e incessante despovoamento do que aprendi a prezar em cinco décadas de vida começa de repente a se acelerar.
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