Na noite de 14 de agosto, uma sexta-feira, Giullia Falcão, 27, voltava de um jantar com o marido, o empresário e investidor Ivo Vel Kos, 48, quando, por causa de uma discussão banal, começou a ser agredida por ele dentro do carro. Por volta das 23h, já na rua onde o casal morava, no Jardim Paulistano, zona oeste de São Paulo, ela conseguiu sair do veículo e tentou fugir.
Imagens de câmeras de segurança das casas vizinhas registraram o momento em que Ivo vai até ela, sentada na calçada, dá um soco no rosto da mulher e, depois, com ajuda de um segurança da rua, a arrasta para dentro de casa.
O que aconteceu depois, de acordo com Giullia, foi uma sequência de agressões, todas com alvo no rosto da jovem, que se estendeu por mais duas horas. O golpe final seria com um taco de beisebol que o empresário tem em sua sala, como decoração, mas Giullia conseguiu botar a mão na frente e se proteger do pior.
Retrato da dentista Giullia Falcão, 27, que foi agredida pelo então marido, Ivo Kos, 48, na casa onde o casal morava, em Pinheiros, zona oeste da cidade -
Bruno Santos/Folhapress
Desde que a briga começou, na saída do restaurante, porque Kos não gostou de um comentário que a mulher fez para os dois colegas de trabalho dele que também estavam no jantar, a respeito de como se sentia mal por causa da repercussão de um caso de fraude que o envolvia, ele tirou o celular da mulher, que ficou impedida de pedir socorro ou chamar a polícia.
Quando finalmente conseguiu escapar, já na madrugada de 15 de agosto, passou pela polícia, pelo IML e por um hospital. Estava com o rosto desfigurado, uma lesão na mão e corria o risco de perder a visão do olho direito. O episódio provocou enorme repercussão depois que ela publicou nas redes sociais imagens dos ferimentos e as câmeras de segurança que registraram parte da violência vieram a público.
Ivo Vel Kos foi preso em flagrante na madrugada de sábado, 15 de agosto, e teve a prisão convertida em preventiva. Ele foi indiciado por lesão corporal e ameaça e posteriormente tornou-se réu pelos mesmos crimes. A defesa de Giullia, no entanto, tenta que ele seja indiciado também por tentativa de feminicídio. Os vigias que presenciaram as agressões do empresário contra a mulher estão sendo investigados pela Polícia Civil por omissão de socorro e possível conivência com o crime.
Nos dias seguintes à agressão que sofreu, Giullia foi para a casa dos pais, na zona norte de São Paulo. A decisão de não voltar para casa não foi por vontade dela. Na verdade, assim que saiu do hospital, só pensava em trocar de roupa, tomar um banho e ter a companhia dos quatro cachorros da raça corgi, Aurora, Thiana, Alquim e Donald Trump, e do gatinho Patek, de oito meses, com quem ela e o marido dividiam seu espaço.
Mas, na manhã do dia 15 de agosto, deu de cara com um chaveiro contratado por familiares do marido para trocar a fechadura da casa e evitar que ela entrasse lá. Suas roupas, seu computador e até algumas de suas joias foram retirados às pressas, em sacos de lixo. Até agora ela não sabe onde estão e nem como vai fazer para recuperá-los.
Só conseguiu voltar para casa quando uma liminar na Justiça concedeu a ela o direito de permanecer em seu lar e ter acesso aos seus objetos pessoais. E foi lá que Giullia recebeu a reportagem. No mesmo lugar onde sofreu a maior parte das agressões daquela madrugada que mudou para sempre sua vida.
A dentista Giulia Melo Falcão Vel Kos que apareceu com ferimentos no rosto após episódio em Pinheiros; ela afirma que foi agredida com socos e um taco de beisebol -
Montagem/Giulia Falcão Kos no Instagram e Arquivo pessoal
Tudo continua exatamente como estava, ela não conseguiu mexer em nenhum móvel, trocar nenhuma obra de arte de lugar e nem tirar as fotos do marido, várias, espalhadas pela casa. Até o taco de beisebol continua lá, em um cantinho.
"Tudo aqui me lembra o pior episódio da minha vida. E não foi só o que todo mundo viu, foram muitas agressões físicas, psicológicas, até financeiras. Ele me dizia o tempo todo que ia me matar e que todo mundo ia sempre dar razão a ele", conta Giullia, em uma conversa numa tarde chuvosa.
Na entrevista, ela conta como chegou àquela noite, por que demorou a conseguir sair do relacionamento e o que pretende fazer agora que a história se tornou pública.
Ivo Kos, empresário do setor financeiro, preso por agredir a esposa -
Ivo Kos no Instagram
"Eu tinha 23 anos quando conheci o Ivo, tinha acabado de voltar para o Brasil depois de uma temporada em Londres, não tinha emprego e me apaixonei pelo jeito leve que ele parecia ter de viver. Tudo era fácil, ele estava sempre disposto, animado, cheio de energia. Eu também sou muito assim, então sentia que com ele podia ser eu mesma. Achei que estava no lugar certo.
E tudo aconteceu muito rápido, ele me pediu em casamento com poucas semanas de namoro. Eu já até tinha ouvido histórias ruins dele de relacionamentos anteriores, inclusive amigos dele me avisaram para tomar cuidado. Mas, quando eu perguntava, ele dizia que as outras mulheres eram loucas, que nada tinha acontecido como elas contavam. Eu quis acreditar.
A primeira agressão aconteceu antes do nosso casamento. Ele me deu um tapa na cara depois de um jantar. Fiquei apavorada, gritei para ele não chegar perto e fui à polícia. Mas ele chorou muito, disse que me amava, que eu estava acabando com a vida dele, que nunca tinha feito aquilo antes, que nunca mais poderia ver o filho. Fiquei com pena. Pedi para ele não ser preso e voltei atrás na decisão de não me casar.
Hoje entendo que eu não amava exatamente quem ele era. Eu amava a ideia de quem ele poderia ser. Eu tinha até um caderno em que escrevia orações pedindo a Deus um bom casamento. Quando reli aquilo depois, percebi que o casamento nunca tinha sido aquilo que eu imaginava: nunca foi realmente bom, confortável, feliz.
Com o tempo, ele foi me afastando da minha família e até da família dele, com quem eu convivia muito bem no começo. Meus sogros me levavam para almoçar quando ele viajava a trabalho, eu convivia muito com meu enteado, mas não sei o que ele falou para as pessoas que pararam de querer me encontrar.
Na noite de 14 de agosto tudo explodiu. Ele começou a me bater no carro, depois na rua e continuou dentro de casa. Eu tinha certeza de que ia morrer naquela noite, ele dizia isso o tempo todo, que ia me matar e ainda sair de vítima. Quando consegui sair do carro, corri até uma esquina pedindo socorro, depois à outra, mas ninguém ouviu. Tinha três seguranças na rua, tentei pedir ajuda, me ajoelhei aos pés de um deles. Eles nem olhavam para mim. Eu não conseguia entender como alguém podia ver aquilo e não fazer nada.
O mais estranho é que, na hora, eu quase não senti dor. Eu só sentia meu rosto inchando e uma pressão muito forte na cabeça. Eu tinha a sensação de que meu rosto estava todo aberto, que ele tinha quebrado os ossos da minha cara. Depois, quando cheguei ao hospital e amanheceu, a dor veio com tudo.
Não fiz nada por coragem ou por vingança, foi puro instinto. Eu só queria sobreviver. Comecei a falar publicamente porque ele sempre dizia que ninguém acreditaria em mim. Eu já tinha ameaçado denunciar, e ele dizia que ia dizer que eu estava bêbada, que eu era a agressora, que eu tinha inventado tudo. Então pensei: eu vou mostrar o que me aconteceu.
Hoje eu só quero recuperar minha vida. Quero começar com pequenas coisas, como sair na rua, jantar fora, fazer a unha. Estou com um projeto de abrir uma clínica de estética, preciso ganhar dinheiro para me manter, e aprendi, do pior jeito possível, que a gente não pode vender nossa liberdade por nada.
Mas antes de tudo preciso sentir que a Justiça foi feita. Só vou conseguir retomar minha vida se ele estiver atrás das grades."
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