Artigo
Como a educação superior privada virou negócio de engenheiros?
O que muda quando o mercado de capital aberto herda um centro universitário
F Fabrício Zavarise
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 13:00
Como a educação superior privada virou negócio de engenheiros
Crédito: Divulgação
Semanas atrás, estive analisando e pesquisando as biografias das atuais lideranças máximas das nossas seis maiores IES (Instituições de Ensino Superior) privadas. Todas hoje negociadas na B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), que é a bolsa de valores oficial do Brasil e a principal de infraestrutura de mercado financeiro. Com uma vida dedicada à diversos setores da educação, quase uma década dentro do mercado editorial e do ensino de idiomas no Brasil e na Europa, tive tempo suficiente para formar certas opiniões sobre como esse tipo empresa costuma decidir as suas prioridades.
Certas constatações podem ser, digamos, desconfortáveis tanto para quem defende o mercado privado como uma solução para a educação superior e profissional nacional quanto para quem o rejeita por princípios políticos e de valores de sociedade.
Estudando as histórias de fundação dessas, encontrei educadores comprometidos e visionários com narrativas bem documentadas nas suas origens. Ao mesmo tempo, descobri em quase todas uma metamorfose no perfil formativo dos seus gestores e nas figuras que atualmente ocupam os seus cargos de dirigentes. Achei um imenso hiato como efeito da evidente financeirização que o setor vem sofrendo ao longo dos últimos 15 anos, e acredito que a minha observação mereça mais debate do que tem recebido.
Linhagens que vêm da sala de aula
As seis IES que examino aqui carregam, cada uma, alguma linhagem institucional ligada à figura de um proeminente professor.
. João Uchôa começou a lecionar prática forense em 1968, 2 anos antes de transformar o curso na faculdade que deu origem à Estácio;
. Janguiê Diniz já lecionava quando fundou o embrião do que virou a Ser, em 1994, e seguiu professor efetivo da UFPE até 2010;
. A Cruzeiro do Sul declara-se nascida de um grupo de educadores;
. A Cogna reúne três linhagens de professores fundadores;
A Vitru, a UNIASSELVI e a UniCesumar vêm de professores, José Tafner e Wilson de Matos entre eles. Até a Una, hoje dentro da nima, foi erguida por um professor titular que acumulava a diretoria executiva.
Nalgum momento, a lógica do mercado e do capital falou bem mais alto do que a da missão educadora de adultos. Por exemplo, comanda a Yduqs um engenheiro que passou por McKinsey, mineradora e siderúrgica. Ele resume a própria filosofia de trabalho numa frase de vocabulário puramente gerencial, "o meu mundo é curva de custo". Ou seja, não é mais o currículo que passou a ocupar o topo da prioridade dessa e dos maiores conglomerados de IES privadas no Brasil.
Não à toa que os cargos CEO destas que investiguei deixaram, há muito, de ser ocupados por professores e educadores para, hoje, estarem nas mãos de formados em administração pela FGV, engenharia de produção pela UFRJ, engenharia mecânica pela UFPE, ciências empresariais pela Universidad Austral, engenharia civil pela UFC e pela École Centrale de Lille.
A única exceção entre elas é a Cruzeiro do Sul Educacional, capitaneada pelo Prof. Dr. Renato Padovese.
O argumento do mercado
Há um argumento sério a favor dessa transição, mesmo que eu discorde dele. Empresas com ações negociadas em bolsa respondem a acionistas, precisam de disciplina de custo e de líderes treinados para ler balanços trimestrais sem se perderem. A abertura de capital ampliou o acesso dessas companhias a financiamentos, e a profissionalização dos seus gerenciamentos acompanhou a sua expansão.
Pesquisa acadêmica recente descreve esse processo como 'consolidação do ensino superior privado sob lógica mercantil e financeirizada', e mostra que instituições controladas por essas seis empresas reúnem mais de 50% dos estudantes de graduação em cursos EAD no país. Não nego o argumento nem a lógica do mercado. Apenas lastimo que ele tenha de responder sozinho à pergunta sobre quais os critérios que devam pesar mais na hora de decidir o que uma instituição de ensino superior prioriza.
Infelizmente, não tenho dados que liguem essa mudança do perfil no comando das principais IES privadas nacionais à queda ou aumento da qualidade nos seus ensinos, e seria desonesto fingir que os tenho. Também não falo de todo o ensino superior particular brasileiro, o que inclui universidades comunitárias, religiosas confessionais e privadas fora da bolsa de valores, nem afirmo que os atuais CEOs decidam sozinhos o que, e se, um aluno está aprendendo. Tudo isso passa por diretorias acadêmicas e reitorias que não tenho como examinar. Mas confesso que daria uma excelente pesquisa e tese de doutorado, e deixo aqui esta sugestão aos futuros candidatos ao título de doutores em educação.
Confesso ao meu leitor que gostaria muito de ter acesso aos pensamentos de quem controla a formação de mais da metade dos adultos brasileiros inscritos no curso superior. Desejaria compreender o que realmente deva significar EDUCAÇíO para eles.
Fabrício Zavarise é educador, escritor, palestrante e consultor. Apresenta o e-loquente cast. Mestre em Educação Linguística pela Universidade de Chichester (Reino Unido), especialista em Educação Bilíngue e MBA em Gestão Estratégica & Inteligência Artificial pela UFJF. Discorre sobre linguagem, educação, liderança, inovação e IA. (https://fabriciozavarise.com.br)
(0)Comments