São exemplos de uma submissão que já não precisa assumir a forma de ocupação colonial: ela ocorre por meio de ingerência eleitoral, dependência financeira, acordos militares e alinhamentos diplomáticos. Enquanto isso, no Brasil, bandeiras dos Estados Unidos são hasteadas em passeatas eleitorais.
Rejeitar o alinhamento com os EUA não significa se alinhar com os chineses. A ascensão da China amplia as alternativas disponíveis ao Brasil, mas não elimina o risco da dependência. A relação bilateral trouxe mercados, investimentos e financiamento, porém permanece marcada pela exportação brasileira de commodities e pela importação de manufaturas e tecnologias de maior valor agregado. Trocar uma subordinação por outra não constitui uma estratégia soberana.
O desafio é aproveitar a competição entre as grandes potências para diversificar parcerias e negociar transferência de tecnologia, produção local e investimentos que fortaleçam as cadeias produtivas nacionais. A soberania brasileira exige o fortalecimento do multilateralismo, a integração regional na América Latina e relacionar-se com China e Estados Unidos a partir dos próprios interesses, sem alinhamentos automáticos com nenhum dos dois.
Novas formas de dependência econômica coexistem com a independência política e limitam a soberania efetiva. A disputa pelos minerais críticos é emblemática: terras raras, lítio e grafita são insumos indispensáveis à inteligência artificial, à transição energética e à indústria de defesa. Diante do controle chinês sobre grande parte da produção e do processamento mundial, os Estados Unidos intensificam sua ofensiva sobre as reservas latino-americanas.
O risco é o Brasil reproduzir, sob novas bases, sua histórica inserção periférica: entregar fontes de riqueza, exportar recursos naturais com pouco processamento e importar tecnologias de alto valor agregado. A soberania mineral exige, portanto, não apenas preservar o controle das reservas, mas também desenvolver capacidades nacionais de processamento e industrialização, convertendo esses recursos em inovação, desenvolvimento e empregos qualificados.
A soberania digital tornou-se outra dimensão decisiva da autonomia nacional diante da revolução tecnológica da inteligência artificial. A classificação adotada pelo Ministério Gestão e Inovação, da ministra Esther Dweck , compreende quatro esferas: a soberania dos dados, relacionada ao armazenamento e ao acesso aos dados que são produzidos no país, a soberania operacional, que permite manter sistemas essenciais funcionando mesmo diante de sanções ou da interrupção de serviços estrangeiros; a soberania tecnológica, baseada na capacidade de desenvolver tecnologias e infraestruturas próprias; e a soberania regulatória, que submete plataformas, serviços e dados utilizados no país às leis brasileiras.
(0)Comments